HAITI: Chuvas preocupam meio milhão de desabrigados

Porto Príncipe, 25/02/2010 – Os recorrentes tremores que sacodem a capital do Haiti deixaram de ser a maior preocupação para as mais de 500 mil pessoas que o terremoto de janeiro deixou sem teto.

Cerca de 50 mil pessoas vivem em instalações precárias no terreno do Clube de Pétionville. - UN Photo/Sophia Paris

Cerca de 50 mil pessoas vivem em instalações precárias no terreno do Clube de Pétionville. - UN Photo/Sophia Paris

Agora a prioridade é conseguir abrigo antes do início da temporada de chuvas, em março. Um coro de murmúrios e gritos ressoaram pelos bairros de Porto Príncipe na noite de segunda-feira, enquanto um violento tremor mantinha a população acordada. Dez minutos depois, outro tremor atingia a capital, que em 12 de janeiro sofreu o pior terremoto de sua história, com mais de 200 mil mortos.

Mas os tremores de 4,7 graus na escala Richter foram uma distração momentânea diante de iminência da temporada de três meses de fortes chuvas que está para começar. A prioridade das organizações de ajuda humanitária passa a ser o abrigo, antes da distribuição de víveres e água, e o objetivo é dar aos desabrigados grossas lonas de plástico, em lugar de barracas de campanha. Muitos os prejudicados ainda sobrevivem em lotados e improvisados acampamentos, onde o único teto é um lençol preso pelas quatro pontas em paus fincados no chão.

Com uma mescla de confusão e decepção, os desabrigados assentados em uma praça de Pétionville, que até o terremoto era um subúrbio privilegiado da capital, receberam as lonas entregues pela organização não governamental Care Internacional. “Não sabemos ao certo o que fazer com elas. Não podemos instalá-las porque não mandaram ninguém para explicar como fazer”, disse Joseph Jean-Ones, cuja família vive no acampamento, enquanto tentava encaixar uma barra de metal sobre outra.

Sua mulher recebeu uma lona cinza, uma série de reluzentes estacas metálicas e um papel com um diagrama sobre como montar a barraca, mas sem instruções escritas de nenhum tipo, em creole ou outro idioma. “Deveriam ensinar as pessoas como armar antes de distribuir”, disse outro homem enquanto espalhava o material no chão. “Agora não sabemos o que fazer com isso. É como se nos dessem mais problemas”, reclamou.

Uma voluntária da Care disse que a organização alertou seu pessoal para não entrar sozinho nos acampamentos. Ao ver a correspondente da IPS entrar e sair várias vezes, pediu para fazer companhia. “Talvez devêssemos ter feito isto antes”, disse em voz baixa enquanto tentava mostrar a uma família como levantar o abrigo de lona plástica. A Organização das Nações Unidas informou que pelo menos 330 mil pessoas já receberam as lonas em Porto Príncipe.

As novas lonas de cor cinza-escuro são visíveis pelos acampamentos em toda a cidade, colocadas em diversos ângulos sobre objetos de madeira e metal que fazem as vezes de paredes nos abrigos improvisados. “Ninguém espera que isso forneça mais que uma proteção muito parcial das chuvas”, disse Alex Wynter, porta-voz da Federação Internacional da Cruz Vermelha, em entrevista coletiva. “Diria que estas tendas de campanha e lonas, além de dar às pessoas um mínimo de privacidade, proporcionam uma ferramenta para que permaneçam secas durante a noite. Mas, não há dúvida de que enfrentaremos uma crise muito grave aqui quando chegarem as chuvas”, ressaltou.

Wynter disse que as peculiaridades do clima do Haiti fazem com que a temporada de chuvas seja “especialmente violenta, inclusive para os parâmetros dos trópicos”. Também há preocupação pelo péssimo saneamento dos acampamentos e a possibilidade de propagação rápida de doenças transmitidas pela água. As autoridades pedem aos desabrigados que cavem canais superficiais para permitir a drenagem.

As lonas de plástico estão muito mais generalizadas nos acampamentos do que as barracas de campanha. Alguns assentamentos contam com algumas dezenas de Shelterbox, uma tenda ampla e branca na forma de iglu fornecida pela organização britânica de mesmo nome. “Fornecemos abrigo, calor e dignidade. É difícil obter isso com as lonas de plástico”, disse John Leach, diretor de operações da Shelterbox. As lonas não serão suficientes para as fortes chuvas que se aproximam, afirmou. “Se as lonas são tão boas, então por que todos os voluntários da ONU vivem em tendas de campanha?”, perguntou.

As organizações não governamentais que trabalham para dar abrigo à população coordenam seu trabalho por meio de uma equipe com sede na base da ONU. Quando foi perguntado a Gregg McDonald, um coordenador da equipe de trabalho, sua opinião sobre as lonas e barracas de campanha, afirmou que “as barracas não são apropriadas neste momento. Não há espaço adicional disponível” para serem instaladas. “As lonas podem ser transportadas, têm uma versatilidade muito maior, são fortes e mais duráveis”, acrescentou. “Há 142 organizações no grupo de trabalho que concordam com esta estratégia (distribuição de lonas). Apenas alguns grupos irresponsáveis continuam fornecendo barracas”, disse McDonald.

Luckner Thervius, um dos mais de 20 organizadores do acampamento de Pétionville, disse compreender porque as lonas são preferíveis. Mas, “seria melhor se todos tivessem uma barraca pequena”, acrescentou, apontando para uma barraca retangular verde compartilhada por várias famílias. “Essa é muito grande. Não haverá espaço suficiente se todos tiverem uma assim”, acrescentou. “A Care Internacional comunicou-se com a IPS após a visita a Pétionville para informar que a partir de agora seu pessoal armará um abrigo de lona plástica em cada acampamento de Porto Príncipe para que sirva de modelo aos desabrigados. IPS/Envolverde

Ansel Herz

Ansel Herz is an independent multimedia journalist. A Seattle native and survivor of the January 2010 earthquake in Haiti, he has reported from Haiti for nearly two years for IPS, Reuters AlertNet and Free Speech Radio News and has been interviewed by CNN, the BBC, the Canadian Broadcasting Corporation, Democracy Now! and other outlets. In 2011 he was key writer and researcher in a series of articles, published by the Nation magazine and Haiti Liberte, based on WikiLeaks cables related to Haiti. Ansel is a graduate of the University of Texas at Austin School of Journalism.

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