MIGRAÇÕES-EUA: Celular para cruzar a fronteira

San Diego, Estados Unidos, 10/02/2010 – Um novo telefone celular busca ajudar os imigrantes latino-americanos que tentam entrar nos Estados Unidos. É desenvolvido por uma equipe da Universidade da Califórnia, liderada pelo pesquisador Ricardo Dominguez. No futuro, estes aparelhos de baixo custo poderão estar nas mãos de imigrantes. Dominguez espera distribuí-los no próximo verão boreal entre grupos religiosos e ativistas que trabalham com imigrantes ilegais ao longo da fronteira.

O nome do telefone é Transborder Immigrant Tool (ferramenta para imigrantes transfronteiriços). Trata-se de uma aplicação especificamente desenhada para os latino-americanos que tentam fazer a perigosa viagem para o norte e entrar nos Estados Unidos. Normalmente conhecidos com “apps” (abreviação inglesa da palavra aplicação), este apetrechos está se tornando muito útil. Os celulares são ricas ferramentas para lidar com informação, enviar mensagens de texto, utilizar o Sistema de Posicionamento Global (GPS) e câmeras digitais em um único aparelho.

Dominguez disse que o objetivo principal é “oferecer a quem cruza a fronteira uma maneira de não morrer”. Ele calcula que esta ferramenta aumentará em 2% as probabilidades de sobrevivência para imigrantes perdidos no deserto. Seu desenvolvimento foi assumido pela CalLit2Lab, organização de especialistas em diferentes disciplinas que incentiva experimentos tecnológicos. Dominguez, artista visual, chama a si mesmo de “artivista” (em parte artista, parte ativista político), na tradição do movimento Dadá (1916-1924), que desafiou as noções convencionais sobre a função da arte e seu processo.

No final da década de 90, foi co-fundador do Electronic Disturbance Theatre (Teatro de Perturbação Eletrônica), um grupo de ativistas políticos que organizou ações contra os governos dos Estados Unidos e do México, por sua suposta perseguição aos rebeldes zapatistas e indígenas do Estado mexicano de Chiapas. Dominguez pretende distribuir o aparelho quando as temperaturas são particularmente elevadas. A intenção é fornecer informação em tempo real sobre a localização de tanques de água colocados especialmente em pontos remotos do deserto. Também será usado para transmitir poemas, para dar algum alento aos imigrantes. “O telefone é como uma Estátua da Liberdade virtual”, ressaltou o “artivista”.

A cada ano, legiões de imigrantes tentam vencer o escarpado terreno que separa San Diego, na Califórnia, do condado Imperial, na fronteira setentrional do México. Durante o dia, sofrem um calor abrasador e, à noite, temperaturas congelantes. Não contam com água potável a uma distância acessível. Como pesquisador principal, Dominguez e seus colegas estão testando o “app” no condado de San Diego, onde o obstáculo fronteiriço se estende por 22 quilômetros da costa do Pacífico, atravessando um território montanhoso.

Segundo Dominguez, este novo celular foi inspirado em uma obra de não ficção, “O caminho do diabo”, do escritor mexicano Luis Alberto Urrea. Trata-se de um relato sobre imigrantes perdidos que, em 2001, morreram por desidratação no deserto de Sonora. A rota que dá nome ao livro ligava a fronteira norte do México com o atual Arizona. Mas, entregar este telefone celular pode provocar um julgamento segundo a legislação federal, por “ajudar e induzir” os imigrantes a entrarem nos Estados Unidos, violando o Código dos Estados Unidos, que data de 1825.

“É como se alguém me dissesse que vai cruzar a fronteira ilegalmente e eu lhe desse água e uma lanterna ou, melhor, um mapa com uma linha vermelha desenhada nele”, disse Mark Rasch, ex-advogado do Departamento de Justiça e especialista em segurança. Meses antes de sua implementação, esse celular já demonstra ser polêmico. Converteu-se no centro de um acalorado debate entre atores vinculados à lei e à ordem, acadêmicos e ativistas pelos direitos humanos.

Nos últimos anos, deterioraram-se as condições ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México, na medida em que fugiu ao controle a violência do narcotráfico em cidades como Tijuana e Ciudad Juarez, afetando povoados limítrofes no sudoeste norte-americano. As operações de segurança e vigilância dirigidas contra a atividade na fronteira obrigaram traficantes e imigrantes a entrarem mais no deserto e se afastarem de centros povoados dos Estados Unidos como San Diego, Tucson (no Estado do Arizona) e Las Cruces (no Novo México), com consequências mortais.

Um informe divulgado pela União para as Liberdades Civis dos Estados Unidos (Aclu) estima que, nos 15 anos passados desde o lançamento da Operação Guardião, de vigilância fronteiriça, morreram entre cinco mil e seis mil imigrantes tentando cruzar a fronteira. “Se isto salvar uma vida, terá valido a pena”, escreveu Enrique Morones, fundador da Border Angels (Anjos Fronteiriços), a organização com sede em San Diego que coloca tanques de água e outras provisões em pontos remotos das regiões desérticas.

Daryl Reed, porta-voz da patrulha fronteiriça dos Estados Unidos, disse que, durante anos, os traficantes usaram celulares para controlar os movimentos policiais. Mas disse que a preocupação é que o novo celular possa criar uma falsa sensação de segurança, provocando uma perda adicional de vidas. “Nem todos podem fazer essa viagem”, afirmou. IPS/Envolverde

Enrique Gili

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