Luxor, Egito, 25/02/2010 – “Não me tirarão de casa sem uma compensação justa”, afirma o ancião egípcio Haji Khodari, levantando seu punho desafiador diante da máquina que demole a casa de seu vizinho.
“No mês passado, o governo cortou nossa água e eletricidade durante o dia para nos pressionar a irmos. Há uma semana vieram e nos disseram que deveríamos partir. Ir para onde? Para as ruas, para o deserto, para Israel?”, disse Khodari. Centenas de famílias pobres perderam suas casas desde que funcionários da cidade de Luxor aprovaram um controvertido plano para escavar em uma antiga rota de procissão e desenvolvê-la como importante atração turística.
Enterrada durante séculos sob o solo e as casas, a “Avenida das Esfinges”, de 2,7 quilômetros de comprimento, outrora ligou os templos de Luxor e Karnak, no que então era a cidade de Tebas. A rota, usada primeiro durante o reinado do faraó Amenhotep III (1386-1349 a.C.), ganhou sua forma final no governo de Nectanebo I (380-362 a.C.). Cerca de 1.300 esfinges de pedra estão alinhadas na avenida pavimentada, que caiu em desuso no século V d.C., após uma inundação que a cobriu com uma grossa camada de lama.
“Sempre foi nosso desejo deixar descoberta esta rota sagrada entre os templos de Luxor e Karnak”, disse Mansour Boraik, diretor para a área de Luxor no Supremo Conselho de Antiguidades (SCA). “É a rota religiosa mais longa jamais construída no mundo antigo. Não tem paralelo em nenhuma parte da Terra”, afirmou. O SCA controla a demolição de edifícios localizados sobre ou ao lado do antigo caminho. Foi aberta uma espécie de trincheira de cem metros de largura através de bairros densamente povoados e de cultivos ao longo de seu trajeto. Espera-se que dois dos quatro trechos sejam abertos ao público no começo de março.
Poucos duvidam que no processo sejam encontrados tesouros arqueológicos. As escavadoras já revelaram antigas capelas, uma fábrica romana de vinhos e 620 esfinges, algumas delas em condições muito boas. Mas os críticos afirmam que o ambicioso projeto turístico tem custos sociais inaceitáveis. “Não se faz arqueologia com uma planadora”, disse um dos arqueólogos estrangeiros que preferiu não se identificar. “Pode demorar anos escavar e registrar um sítio. O trabalho na Avenida das Esfinges está sendo apressado para deixá-la pronta para o turismo, e vários edifícios históricos foram destruídos deliberadamente”, acrescentou.
Segundo os moradores do lugar, o governo usa a arqueologia como pretexto para arrasar bairros pobres que considera como aberrações. Cerca de 800 famílias foram reassentadas à força desde o começo do projeto, há três anos. “Até agora, foram derrubadas cerca de 95% das casas na Avenida das Esfinges”, disse o governador de Luxor, Samir Farrag. “Demos às famílias a escolha da compensação: um novo apartamento ou 75 mil libras egípcias (US$ 13,5 mil). Os novos apartamentos estão a apenas 200 metros dos antigos. Se escolherem o dinheiro, recebem um cheque e podem retirar no banco”, acrescentou.
Porém, as famílias desalojadas, com as quais a IPS conversou, afirmam que não foi esse o pacote oferecido. Algumas dizem que receberam apenas 30 mil libras egípcias (US$ 5,5 mil) por suas casas. Outras se queixaram de que as novas moradias, quando são entregues, não estão acabadas ou ficam em remotas áreas desérticas. Um morador da região, que se identificou apenas como Ramadán, afirmou que foi oferecido um novo apartamento no deserto que fica além do aeroporto da cidade, mas “era muito pequeno e muito afastado”.
Assim, aceitou 40 mil libras egípcias (US$ 7,2 mil) para cada um dos três andares de sua casa e se mudou para um apartamento alugado nos arredores da cidade. Ramadán estima que custará 750 mil libras egípcias (US$ 136 mil) comprar uma nova casa como a que tinha. “Somos oito homens com nossas mulheres e filhos vivendo sob um mesmo teto”, contou. “O dinheiro do acordo acabará em poucos meses, e não sabemos para onde iremos depois”, acrescentou. As demolições são parte de um plano apoiado pelo governo que pretende proteger o antigo patrimônio cultural de Luxor, bem como aumentar seu lucro com o turismo.
O plano prevê a abertura dos sítios arqueológicos da cidade e o reassentamento dos moradores em novas comunidades. Propõe melhorias em matéria de infraestrutura e novas instalações turísticas, para criar o maior museu do mundo ao ar livre até 2030. Porém, o plano também recebeu uma chuva de críticas. Segundo um analista, “em lugar de incentivar a mistura dos turistas com a população local, o que enriqueceria a experiência dos visitantes e geraria valiosa renda para os habitantes do lugar, a política do governo egípcio promove a segregação dos dois grupos”.
Enquanto isso, a Avenida das Esfinges causa atritos entre o governo e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que controla os sítios dos templos de Luxor e Karnak, declarados Patrimônio Cultural da Humanidade. Uma missão conjunta do Centro do Patrimônio Mundial da Unesco e o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios informou, em abril de 2008, que vários edifícios históricos foram demolidos, enquanto as escavações do SCA pareceram apressadas.
Também preocupa que o plano derive na “disneyficação” da antiga cidade egípcia. Os empresários do turismo projetam aldeias temáticas sobre faraós, bem como a dramatização de antigas procissões ao longo da Avenida das Esfinges. Caravanas de ônibus circularão pelos dois caminhos paralelos à avenida restaurada. Os turistas poderão descer e visitar a exibição ao ar livre. “Não construiremos réplicas das esfinges, porque a destruição das esfinges é história, mas estamos restaurando as que encontramos”, disse Boraik.
Embora os funcionários resistam em fornecer números, um especialista em turismo prevê que, ao término das obras, a Avenida das Esfinges vai gerar, pelo menos, US$ 50 milhões por ano, com a venda de ingressos e maior gasto em hoteis. Por outro lado, o governo destinou apenas US$ 5 milhões para compensações destinadas às famílias reassentadas “Isso realmente faz com que o pacote de compensações do governo pareça patético”, disse um homem cuja casa será demolida. IPS/Envolverde


