DESENVOLVIMENTO: Todos para a fila do banheiro

Nações Unidas, 23/02/2010 – É provável que a campanha “a fila mais longa do mundo para ir ao banheiro”, prevista para o dia 22 de março, não seja um acontecimento repleto de celebridades como um espetáculo de Hollywood. Mas pode ganhar um lugar no Livro Guiness dos Recordes. Espera-se que milhares de pessoas se unam a essa fila por ocasião do Dia Mundial da Água, do lado de fora de banheiros públicos, como parte de uma campanha global para destacar a terrível situação de aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas que ainda carecem de saneamento adequado no mundo. O recorde para uma fila única é de 868 pessoas.

O acontecimento é um esforço conjunto do Conselho Colaborador de Abastecimento de Água e Saneamento e de duas organizações não governamentais, a Rede de Ação pela Água e End Water Poverty. “A meta é fazer com que o mundo se una em torno de uma só campanha de ação maciça”, disse Serena O’Sullivan, encarregada de campanhas e comunicações na End Water Poverty, uma coalizão mundial de aproximadamente cem organizações que lutam para solucionar a crise da água e do saneamento, com sede em Londres. “No momento temos filas registradas em 45 países”, acrescentou.

Para participar, é preciso apenas organizar um grupo de pessoas para que formem fila pelo menos durante dez minutos na porta de um banheiro, disse O’Sullivan. Os folhetos da campanha explicam que o banheiro pode ser verdadeiro ou falso, ou mesmo alguém fantasiado como tal. “Esperamos que cada organizador de filas tenha clara a mensagem, um plano de mídia e se conecte com os chamados mundiais à ação, assim teremos uma boa oportunidade de mobilizar a opinião pública”, acrescentou à IPS.

Os organizadores da campanha afirmam que existe uma crise mundial em matéria de saneamento: cerca de quatro mil crianças menores de cinco anos morrem por dia por falta de banheiros e água, “e os políticos estão ignorando sua difícil situação”. O acesso a saneamento e água deveria ser priorizado por todos os governos, para combater efetivamente a pobreza e a má saúde, afirmaram. Mas a maioria dos governos não faz isso, ressaltaram os organizadores, destacando que metade das meninas que deixam de ir à escola primária na África, o fazem, pelo menos em parte, devido à falta de banheiros.

Ministros de vários países da África, Ásia, Europa, América do Norte e América Latina se reunirão, no dia 23 de abril, em Washington, para o primeiro encontro de alto nível da história sobre saneamento e água. “Levaremos os resultados da “fila mais longa do mundo para ir ao banheiro” à reunião de Washington, disse O’Sullivan. Houve “muitos avanços” desde 2008, Ano Internacional do Saneamento, acrescentou. “Porém, devemos lembrar que este é um problema complexo com soluções complexas”, disse, ressaltando que os três sócios da atual campanha exigem uma mudança maciça na maneira como a ajuda é abordada.

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas definiu, em 2000, os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Um deles é assegurar a sustentabilidade ambiental, o que inclui “reduzir pela metade, até 2015, a proporção de pessoas sem acesso sustentável a água potável e a serviços básicos de saneamento”. O fracasso no cumprimento da meta do saneamento se deve à carência de fundos destinados de maneira adequada e efetiva e também a uma falta de vontade política, segundo O’Sullivan.

Em um informe divulgado no ano passado, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que apesar dos significativos esforços feitos por governos, organizações não governamentais e outros atores, foram “lentos e desiguais” os avanços para alcançar esse Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A quantidade de pessoas sem saneamento básico passou de 2,6 bilhões antes do Ano Internacional do Saneamento, para 2,5 bilhões atuais. Até 2015, espera-se que esse número caia para 2,4 bilhões. Mas isto significa que faltará atingir 700 milhões de pessoas para cumprir a meta, diz o informe.

Esse estudo também afirma que a maioria dos países em desenvolvimento não pode cumprir suas metas de saneamento sem a cooperação e o apoio da comunidade internacional de doadores. As nações doadoras podem ajudar as pobres destinando maiores porções de ajuda oficial ao desenvolvimento para programas de saneamento, incentivo a inovações, dando mais ajuda financeira sob a forma de subsídios e melhorando a coordenação dos doadores nos esforços de implementação. “A comunidade internacional, os governos nacionais e os setores privado e sem fins lucrativos ainda têm muito trabalho pela frente até 2015”, afirmou o secretário-geral no ano passado.

O’Sullivan disse à IPS esperar que a campanha conscientize sobre o saneamento enquanto área abandonada do desenvolvimento, e que também sirva para pressionar os políticos para que freiem a crise. “Um dia de mobilizações sobre saneamento e água é algo nunca visto antes, por isso esperamos que, com fortes cobranças políticas e uma campanha divertida e interativa, possamos causar um impacto na reunião de Washington”, acrescentou. “Se houver participação suficiente de pessoas, poderemos quebrar o Recorde Mundial do Guinness para ‘a fila mais longa do mundo para ir ao banheiro’ e atrair a atenção da mídia global”, ressaltou. IPS/Envolverde

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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