SANTIAGO, 16/03/2010 – (Tierramérica).- O Chile sofre falta de especialistas capazes de operar novas tecnologias antissísmicas e difundir seus conhecimentos entre as autoridades e a população.

Um homem vaga entre os escombros de Ojos del Mar, aldeia turística da região de Valparaíso, arrasada pela tsunami - Fernando Fiedler/IPS
“Essa é uma das grandes lições que se deve aprender”, acrescentou. Este chileno especialista em Sismologia, junto com outros cientistas nacionais e estrangeiros, detectou, no começo da década de 90, a existência de duas “lagoas sísmicas” neste país de 17 milhões de habitantes, onde poderiam ocorrer terremotos de grande magnitude pela interação das placas tectônicas Sul-Americana e de Nazca, cujos limites, ou falha, coincidem com o território chileno. A última publicação a respeito foi divulgada no ano passado.
Precisamente uma das zonas “maduras”, do ponto de vista sísmico, era o setor compreendido entre as centrais cidades de Constitución e Concepción, onde foi sentido com mais intensidade o terremoto de fevereiro, de 8,8 graus Richter. A ele seguiu-se um tsunami que arrasou várias localidades costeiras das regiões de El Maule e Bío-Bío, entre 200 e 500 quilômetros ao sul de Santiago, capital de um país que costuma ser elogiado como o mais avançado da América Latina em matéria de desenvolvimento econômico e social.
Após o terremoto, que deixou cerca de 500 mortos e milhares de casas no chão, os erros e a má coordenação entre o Serviço Hidrográfico e Oceanográfico (SHOA) da Marinha e o Escritório Nacional de Emergências (Onemi) impediram que fosse dado a tempo o alerta de maremoto, para proteger a população. A Onemi também justificou a lenta resposta estatal pela queda da rede de comunicações. “Um terremoto de 8,8 graus congestiona qualquer sistema de emergência na dimensão reativa, a um nível extremo. O impacto foi enorme, cerca de 500 quilômetros, sendo severamente afetado todo o suporte de comunicação do país”, admitiu Campos, recordando que o Chile é um dos países mais sísmicos do mundo.
Investigações de instituições científicas dos Estados Unidos e do Chile indicam que a força do tremor fez Concepción se deslocar mais de três metros para o ocidente. O mesmo ocorreu com Santiago (27,7 centímetros) e as cidades argentinas de Mendoza (13,4 centímetros) e Buenos Aires (entre dois e 3,9 centímetros). Entretanto, uma melhor infraestrutura tecnológica e, especialmente, uma massa crítica de cientistas poderiam ter minimizado o impacto do segundo terremoto mais forte a atingir o país, depois do registrado em 1960 com 9,5 graus na cidade de Valdivia, disse Campos.
A Rede Nacional Sismológica e Vulcânica criada como parte dos festejos do bicentenário da independência do império espanhol, comemorado este ano, tinha previsto estar operando completamente em 2012. Tampouco foi suficiente o processo de modernização dos últimos anos na Onemi. “Há uma notória falta de especialistas” capazes de operar a nova tecnologia disponível e disseminar seus conhecimentos entre os tomadores de decisões, o sistema educacional e a população, afirmou Campos.
“Este é um problema compartilhado na América Latina, porque nossos países destinam poucos recursos à formação deste capital humano de especialistas”, um assunto caro e que não rende dividendos políticos imediatos, ressaltou o cientista. Porém, a porção ocidental da região está muito exposta a catástrofes naturais como terremotos, erupções vulcânicas e maremotos.
Em matéria de tecnologia, Campos destacou a experiência do Japão, que “tem um dispositivo de sensores em todo o território nacional, conectado em tempo real com um sistema de comunicação forte, que não cai diante de um terremoto”. A informação gerada por estes sensores “é canalizada por uma central de processamento, na qual em poucos segundos são identificadas as zonas onde houve severos movimentos do solo e onde se localizam as áreas de máximo dano”, explicou. Um sistema deste tipo teria evitado que se passassem dias antes de se conhecer os lugares afetados pelo terremoto e pelo tsunami no Chile.
Segundo Campos, a informação utilizada pelo SHOA, gerada por um sistema de bóias, instaladas pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico para medir mudanças nas mares, não é o mais adequado para esta região. “Países da América Latina, como Peru, Equador, Colômbia e Chile, precisam de um sistema forte que permita detectar, por instrumentos, os movimentos fortes para saber rapidamente qual a região de dano máximo e a partir daí ativar as ações pertinentes de ajuda às pessoas afetadas”, insistiu o especialista. A América Latina deve desenvolver capacidade técnica e experiência própria para criar um sistema que se adeque aos seus problemas específicos, enfatizou.
O planejamento urbano é outra ferida aberta pelo terremoto, afirmam especialistas. Embora a legislação nacional obrigue as comunidades a terem planos reguladores que incluam análises das áreas de risco, estas ameaças nem sempre são “atendidas” pelas autoridades, pelos mercados imobiliário e turístico, e pela comunidade, disse ao Terramérica a arquiteta e planejadora Libertad Burgos, da consultoria privada Infracon. “A responsabilidade é compartilhada e tem a ver com a falta de consciência” geral sobre o extremo grau de vulnerabilidade do território nacional, acrescentou.
Em 2007, o Chile sofreu um terremoto na cidade de Tocopilla (norte) e em 2008 a erupção do vulcão Chaitén (no sul), que obrigou a reassentar uma cidade inteira. Como Campos, Burgos acredita que a rede de emergência exige maiores recursos para equipamentos e, sobretudo, capacitação. Para Paulina Acevedo, do não governamental Observatório Cidadão, a catástrofe “deixou evidente duas realidades: a lentidão e a falta de coordenação das autoridades, e a grande desigualdade social que caracteriza o país”, porque os maiores afetados foram os mais pobres, que moram em casas precárias em áreas que não possuem as melhores vias de acesso.
O Chile não tem “nenhum tipo de cultura sísmica para saber quais são as características geográficas do território e quais deveriam ser as formas de reagir diante de uma emergência. E não me refiro às pessoas se colocarem debaixo do batente da porta, mas como armazenar água ou manipular alimentos de forma higiênica”, disse a ativista ao Terramérica.
* A autora é correspondente da IPS.

