SOCIEDADE-ARGENTINA: Cresce a violência no futebol argentino

Buenos Aires, 25/03/2010 – “Esta presidente está disposta a enfrentar as hordas de opositores mais selvagens, mas nunca uma torcida de futebol”, confessou risonha a presidente Cristina Fernández. Quem trabalha para erradicar a violência nos estádios argentinos acredita que a piada explica, em parte, as causas dessa violência: falta de vontade para enfrentar os “barras bravas” e a conivência dos dirigentes de diferentes correntes políticas com elas, especialmente de distritos populosos.

Os barras bravas são a expressão mais violenta das torcidas de futebol e muitas vezes têm mais poder do que os próprios dirigentes de clubes e pressionam os jogadores, extorquindo-os em troca de incentivo nos jogos. Seus líderes estão no negócio das drogas, venda de camisetas, fotos ou de estacionamento fora dos estádios. Organizam jantares com jogadores em troca de entradas e cobram de turistas estrangeiros para assistir a partida no meio da torcida. Nas últimas semanas, os enfrentamentos desses grupos de fanáticos causaram cinco mortes.

A polícia suspeita que alguns crimes se relacionam com a luta para obter apoio para viajar à África do Sul para a Copa do Mundo. “Não há uma decisão política forte para acabar com a violência e a corrupção no futebol”, disse à IPS Mônica Nizzardo, presidente da Salvemos o Futebol, uma organização não governamental que trabalha para erradicar a violência. A entidade, que registra 249 mortes por violência no futebol desde 1924, afirma que os barras bravas contam com amparo das forças de segurança e cumplicidade de dirigentes políticos e esportivos do máximo nível.

Embora o fenômeno exista há muitos anos, nas últimas semanas a violência piorou. Observadores acreditam que o detonador foi uma iniciativa lançada em novembro por políticos próximos ao oficialismo, como Marcelo Mallo, que criou o grupo “Torcedores Unidos Argentinos”. Sua proposta, disse, é converter os fanáticos em líderes sociais não violentos que construam casas populares e outras obras para a comunidade. Mallo prometeu levar 500 barras à África do Sul. A organização se apresenta nos estádios com bandeiras contendo frases proselitistas. Um de seus cartazes se refere ao retorno à presidência de Nestor Kirchner (2003-2007), sucedido no cargo por sua mulher Cristina.

Mallo assegura que não houve acordo com os violentos para dar algo em troca de publicidade política. Também negou que haja dinheiro público para financiar a viagem dos torcedores ou que o governo esteja por trás do projeto. Contudo, admitiu que seu objetivo é que os chefes dos barras, a maioria com antecedentes penais, se convertam em dirigentes capazes de recrutar eleitores para as eleições ou fiscalizá-las. Entre as dezenas de barras convocados, não está o “La 12”, o grupo violento do Boca Juniors, e nem o “Los Borrachos del Tablón”, do River Plate, porque já têm apoio para viajar, segundo Mallo. Esses clubes são os mais populares do país.

A partir do lançamento houve graves fatos de violência, mas não entre barras rivais, mas dentro dos próprios pelo manejo de negócios paralelos e divisão de lucro. Gustavo Grabia, jornalista e autor do livro “La 12. A verdadeira história do barra brava do Boca”, afirma que estes grupos são “o braço armado” das torcidas e que os violentos são sócios da política tal como se revelou em diversos processos judiciais. “Há uma aceleração dos casos de violência e talvez a criação da Hinchadas tenha esquentado mais o assunto, porque prometeu levar 500 fanáticos à África do Sul e agora vê que não poderá levar nem metade”, disse Grabia à IPS.

De todo modo, para o jornalista, os últimos assassinatos excedem o futebol e podem estar vinculados a rivalidades pelo controle de negócios como narcotráfico. No dia 19 deste mês, Roberto Caminos, ex-líder do barra do Newell’s Old Boys, da cidade de Rosário, foi morto a tiros na porta de um bar. Pessoas próximas a ele asseguram que havia comentado que era seguido por policiais. Dias antes, foi assassinado também a tiros, na porta de sua casa, Juan Bustos, ex-chefe do barra do Rosário Central, o outro clube popular dessa cidade. E Marcos Galarza, integrante do barra do pequeno clube da segunda divisão Defensa e Justicia, foi morto com arma branca. E os casos continuam.

“Isto se acelerou com a Hinchadas”, diz Nizzardo. “A lei pune com um a seis anos de prisão os que apoiam grupos violentos, e aqui se vê claramente quem alimenta esta violência”, acrescentou. A Salvemos o Futebol apresentou em novembro uma denúncia penal para que a justiça investigue os vínculos entre a Hinchadas e membros do governo, entre eles o chefe de gabinete ministerial, Aníbal Fernández, que militou com Mallo.

Nizaardo afirmou que muitos dos barras convocados têm antecedentes penais. “Um está preso desde dezembro por extorsão e outros crimes e outro é processado por porte de arma e envolvimento em um crime. Como pessoas com antecedentes são recrutadas para ir à África do Sul?”, pergunta. A denúncia judicial não avança. Em quatro meses, ainda não se resolveu se o caso vai para a justiça comum ou para a justiça federal. IPS/Envolverde

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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