ÍNDIA: Violentos distúrbios em defesa da burca

Kolkata, Índia, 05/03/2010 – Um artigo contra o traje muçulmano burca, atribuído à escritora Taslima Narin, que ela nega ter escrito, desatou distúrbios esta semana em duas cidades da Índia, confirmando que as tensões religiosas e nacionalistas não cessam neste país de quase 1,2 bilhão de habitantes. O estopim dos distúrbios de rua em Shimoga e Hassan, no Estado de Karnataca, no sul, foi um artigo do jornal Kannada Prabha, onde a escritora, de Bangladesh no exílio, teria se expressado contra o uso da burca, uma túnica feminina que cobre todo o corpo, dos pés à cabeça, apenas com uma rede para permitir a visão.

As manifestações causaram a morte de duas pessoas, dezenas de veículos queimados e danos em várias lojas, na segunda-feira e na terça-feira. As autoridades declararam toque de recolher, que continua vigorando em algumas áreas. O governo federal enviou soldados para controlar a situação. Nasrin afirma que não escreveu o artigo e se declarou “horrorizada” com os distúrbios. Em 1994, ela teve de se exilar em países ocidentais, depois que fundamentalistas muçulmanos de Bangladesh exigiram sua morte, acusada de “blasfemar contra o Islã” com seu livro “Vergonha”.

O jornal afirma que Nasrin, ganhadora do Prêmio Sakharov para a Liberdade de Consciência, declarou que o profeta Maomé não acreditava que as mulheres devessem usar burca e que esta sufoca a liberdade feminina. “A publicação do artigo é atroz. Em nenhum de meus escritos jamais mencionei que Maomé fosse contra a burca. Assim, é um artigo distorcido”, disse Nasrin à imprensa da Índia, enquanto se encontra em Nova Délhi para renovar seu visto.

“Suspeito de uma tentativa deliberada de difamação, além de ser um uso incorreto de meus escritos para gerar distúrbios na sociedade. Desejo que impere a paz”, acrescentou a escritora. Depois de sua passagem pelo Ocidente, em 2004, Nasrin se instalou na Índia, até que foi expulsa em 2008, após cumprir oito meses de prisão domiciliar pelo assédio a fundamentalistas islâmicos.

Os distúrbios atuais são a última lembrança da sensibilidade causada pelos temas religiosos neste país com 83% de hindus, 13% de muçulmanos e 4% de cristãos, sikhs, jains, budistas e parsis. Isso significa uma comunidade muçulmana de 140 milhões. Em fevereiro, grupos nacionalistas hindus protestaram contra um filme de Bollywood – os estúdios cinematográficos da cidade de Mumbai –, protagonizada pelo ator indiano Shahrukh Jan, um muçulmano que apoiou a inclusão de jogadores do Paquistão, país majoritariamente islâmico, em uma liga de críquete da Índia.

Um grupo regional chamado Shiv Sena, que defende a causa do povo marathi, do Estado de Maharashtra, quebrou as vidraças das salas de cinema e rasgou os cartazes para impedir a exibição do filme “My name is Jan”. Também exigiu o exílio de Jan no Paquistão. O filme finalmente estreou no mês passado, com forte proteção policial. Os cinéfilos, especialmente jovens e seguidores de Jan, encheram as salas apesar das ameaças do Shiv Sena.

“O auge da intolerância na Índia se deve ao apoio administrativo dado aos fundamentalistas”, disse o respeitado sociólogo Dipankar Gupta. “Esta gente (fanáticos) pode matar por uma causa, mas não morrer por ela. Lamentavelmente, com frequência gozam do apoio administrativo dos governos e partidos no poder, como ocorreu em Mumbai com o filme”, disse. “O caso de Taslima foi armado e por trás há motivos políticos”, disse Gupta em uma entrevista.

Na semana passada, os custos do extremismo também vieram à luz quando o reconhecido pintor M. F. Hussain, de 95 anos, assumiu a nacionalidade do Catar, após as ameaças recebidas de grupos nacionalistas hindus. O artista exilou-se em 2006 em Dubai e outros lugares, depois que esses extremistas o assediaram para se retratar por suas deusas nuas. Hussain decidiu mudar sua cidadania porque não se sentia protegido pelo governo da Índia, explicou. “A Índia é minha pátria. Nunca poderei odiar minha pátria. Amo a Índia, mas ela me rejeitou”, disse o pintor em uma entrevista.

Sharmila Tagore, atriz hindu de Bollywood, casada com um jogador de críquete muçulmano há mais de 40 anos, qualificou de vergonha nacional um dos mais famosos pintores da Índia ter de se exilar e aceitar a nacionalidade do Catar. “É uma grande perda. Para mim, a Índia é um país laico e democrático. É lamentável que um ícone cultural como Hussain tenha que demonstrar seus méritos nesta idade”, disse ao canal local NDTV em um debate sobre o assunto.

Sobre o caso Nasrin, a escritora e assistente social da cidade de Kolkata (antiga Calcultá), Mahasweta Devi, acredita que tem direito de viver na Índia e escrever o que quiser. “Não sei o que escreveu (se é que escreveu) que tenha causado os distúrbios. Mas sei que limita-se a escrever. Por que não pode permanecer em Kolkata, de onde foi expulsa antes em nome dos distúrbios?”, perguntou Devi, que em 1997 ganhou o Prêmio Ramon Magsaysay de Literatura, considerado o Nobel da Ásia. “Esta cidade permite a estadia de delinquentes, mas não de uma escritora como Taslima. È vergonhoso”, acrescentou.

“Efetivamente, estamos ficando intolerantes como sociedade. É preciso tomar o caminho da moderação”, disse Sadia Dehlvi, conhecida colunista e escritora. Mas ela acredita que a forma de escrever de Nasrin não deve ser incentivada. “Somos testemunhas do extremismo dos dois tipos, dos fanáticos religiosos e dos defensores da livre expressão. Não sigo nenhum porque a moderação é o pilar da sociedade indiana”, disse. IPS/Envolverde

Sridhar

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