Belgrado, 18/03/2010 – A agricultura da Sérvia é o seu setor mais produtivo, sobreviveu à crise financeira global e registrou superávit comercial de quase US$ 1 bilhão em 2009, segundo fontes oficiais. Porém, os camponeses continuam pobres. No começo da colheita deste mês, o ministro da Agricultura, Sasa Dragin, anunciou que os subsídios para os pequenos agricultores aumentarão de US$ 130 para US$ 180 por hectare cultivado, para melhorar a produção de alimentos básicos como trigo, milho e verduras.
Entretanto, a maioria das famílias rurais, que costumam ter entre 10 e 20 hectares de terra cultivável, vive em uma situação crítica e luta para adaptar-se à economia de mercado, apesar dos êxitos do setor. “A maioria dos bons resultados é consequência de uma produção combinada de várias empresas privadas ou mesmo de companhias internacionais que surgiram em 2000”, disse à IPS Vojislav Stankovic, da Câmara de Comércio Sérvia.
“Adotaram o conceito de produção integrada, pela qual são obtidos recursos baratos de pequenos agricultores que são convertidos em bons produtos que rendem importante lucro”, explicou Stankovic. “Entretanto, para os pequenos produtores, a situação continua tão difícil como sempre e é necessário realizar um grande esforço para ajudá-los”, acrescentou. A Sérvia tem 4,8 milhões de hectares de terras cultiváveis, e metade dos 7,4 milhões de habitantes dos 4.512 povoados deste país é a base da produção agrícola. Cerca de 40% dos jovens sérvios vivem ali.
Aproximadamente 37,8% dos lares camponeses são pobres, com renda de US$ 129 mensais, segundo o último estudo sobre a situação dos agricultores sérvios, intitulado “Exclusão social em áreas rurais da Sérvia”, realizado pela organização não governamental Grupo de Iniciativa Social (Secons). Para a pesquisa, a organização contou com apoio da Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). “Podemos assegurar que 27,8% dos 1.621 lares pesquisados são pobres há anos”, disse à IPS Mina Petrovic, do Secons, quando foi divulgado o informe, em fevereiro.
A pesquisa estudou vários aspectos, desde exclusão social, pobreza, oportunidades de emprego, até educação, atenção médica, escassez material e participação social e cultural. “Também constatamos que os jovens emigram porque não encontram oportunidades para melhorar de vida”, afirmou. “Vendem barato a colheita de frutas e verduras, e apenas os grandes produtores obtêm lucro”, acrescentou. Cerca de 700 povoados, dos 4.512 do país, deixarão de existir em 15 anos pelo despovoamento do campo, segundo estimativas de organizações não governamentais e da própria Câmara de Comércio.
Além disso, mais de 200 mil homens acima dos 40 anos desses povoados nunca poderão se casar porque as possíveis candidatas emigraram para as grandes cidades em busca de vida melhor. “Os jovens camponeses não estão motivados para continuar estudando e 44% nunca terminam a escola secundária”, disse à IPS Marija Babovic, do Secons. “Pela tradição, os homens ficam para manter seus lares vivos, mas as jovens vão para as grandes cidades, tentam encontrar trabalho e escapar da vida dura do campo. O resultado é maior quantidade de casas com uma única pessoa, e empobrecida”, acrescentou.
Os povoados e as fazendas não se desenvolverão “a menos que haja uma estratégia para criar uma importante massa de intelectuais”, disse à IPS o vice-presidente da Câmara de Comércio, Stojan Jevtic. “A massa deve ser criada com especialistas dispostos a se mudar para zonas rurais, trabalhar e viver ali. Por seu lado, o Estado pode ajudar no desenvolvimento da infraestrutura para melhorar as condições de vida. Mas isso demorará muito tempo”, acrescentou.
Por sua vez, o governo anuncia planos para fomentar o cultivo de espécies certificadas de uvas, frutas e vinhos de exportação. Será concedido um pacote de estímulo de US$ 650 para cada família, para ser pago após a colheita do outono. Os fundos da UE serão utilizados para modernizar a atual frota de 700 mil tratores e outros tipos de máquinas agrícolas. A Europa investiu quase US$ 91 milhões no setor agrícola da Sérvia desde 2000, e são esperados mais US$ 33 milhões para este ano e 2011.
Parte desse dinheiro será destinado à construção de sistemas de irrigação, utilizados em 30 mil a 40 mil hectares, menos de 1% das terras cultiváveis deste país. “Gostaria que esse dinheiro fosse investido”, disse Marko Stanisavljevic, do povoado de Azanja, cem quilômetros ao sul de Belgrado e conhecido por ser um dos mais produtivos, com melhor aspecto e mais disciplinado. “É raro olhar o céu em pleno século XXI e se preocupar se vai chover, ou não”, acrescentou este camponês de 58 anos. IPS/Envolverde

