HAITI: Washington acelera perdão da dívida

Washington, 10/03/2010 – Os Estados Unidos realizam gestões urgentes para aderir ao perdão da dívida do Haiti e apoiar a reconstrução desse país devastado pelo terremoto de janeiro, antes da visita de hoje do presidente René Préval ao seu colega Barack Obama. O Senado aprovou, na sexta-feira, 5, uma resolução exortando os representantes dos Estados Unidos junto às instituições financeiras internacionais a apoiarem o perdão para todas as dívidas multilaterais do Haiti, de, aproximadamente, US$ 700 milhões, dois terços do endividamento do país, que é de US$ 1,2 bilhão.

A resolução também exorta os Estados Unidos e outros países doadores a proporcionar uma ajuda significativa para a recuperação e reconstrução daquele país, após o terremoto que matou mais de 200 mil pessoas, em uma população de 10 milhões de habitantes. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) calculou que a reconstrução do Haiti custará entre US$ 8 bilhões e US$ 14 bilhões, baseado em projeções de outras catástrofes naturais recentes. O mesmo estudo detectou que o terremoto “provavelmente seja o desastre natural mais destrutivo dos tempos modernos, em relação ao tamanho da população do Haiti e de sua economia”.

“Os haitianos precisam de nossa ajuda imediata, mas também deverão ter condições de construir seu próprio futuro… Uma base física, social e econômica sustentável para uma sociedade mais forte e mais estável”, declarou o presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, John Kerry. Entretanto, a Câmara de Representantes prevê votar uma resolução semelhante durante a visita de Préval na manhã de hoje, segundo funcionários do Congresso.

O subcomitê de Política Monetária e Comércio Internacional já aprovou a medida e está previsto que a câmara baixa a discuta em breve. “Há tempos proponho reduzir a dívida dos países de baixa renda para permitir que dediquem seus esforços a fornecer atenção médica, educação e outros serviços vitais aos seus cidadãos”, disse a legisladora Maxine Waters, autora da iniciativa da câmara baixa e que retornou, no final de semana, de uma viagem ao Haiti.

“Cada dólar disponível é urgente para a recuperação no curto prazo, e para a reconstrução e o desenvolvimento no longo prazo… O total perdão da dívida…, bem como a ajuda na forma de doações. darão ao Haiti a oportunidade de se colocar em um caminho sustentável para o sucesso”, disse Waters à IPS. A visita de Préval, acontece enquanto se acelera a retirada das tropas dos Estados Unidos de seu país, onde chegaram para manter a segurança e entregar ajuda humanitária junto com cerca de dez mil soldados das forças de paz da Organização das Nações Unidas, que permanecerão na ilha.

No começo de fevereiro, mais de 16 mil soldados e fuzileiros navais norte-americanos chegaram a estar em solo haitiano. “Nossa missão está em grande parte cumprida”, disse o general Douglas Fraser, em entrevista coletiva na segunda-feira. No final desta semana restarão menos de oito mil efetivos na área, a maioria embarcada. O objetivo da reunião de Préval com Obama na Casa Branca é demonstrar o interesse de Washington na recuperação daquele que era, antes mesmo do terremoto, o país mais pobre da América.

“O presidente deseja dar as boas-vindas ao presidente Préval na Casa Branca para destacar sua promessa ao povo haitiano de que têm um amigo e um sócio nos Estados Unidos”, diz uma declaração do escritório de imprensa da Presidência. Ambos “conversarão sobre o alívio da dívida, a recuperação e reconstrução do Haiti, e as importantes contribuições feitas pelos Estados Unidos e pela comunidade internacional”, acrescenta a declaração.

Washington – através do Pentágono (sede do Departamento de Defesa) e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) – gastou mais de US$ 700 milhões em ajuda humanitária, segundo dados do governo divulgados na semana passada. O governo está redigindo um projeto de lei de ajuda suplementar ao exterior para 2010 que inclua centenas de milhões de dólares mais para a ajuda à reconstrução. Porém, é improvável que essa iniciativa seja anunciada a tempo para a visita de Préval, já que ainda deve ser levada ao Congresso para sua aprovação, disseram funcionários do governo.

Esse anúncio provavelmente acontecerá nas próximas duas semanas, antes que os Estados Unidos participem com outros doadores de uma conferência sobre o Haiti, no dia 31 de março, na sede da ONU em Nova York, disseram funcionários em Washington. Além dos mais de US$ 700 milhões que os Estados Unidos já destinaram em ajuda pelo terremoto, cidadãos e empresas norte-americanos doaram mais de US$ 1 bilhão a organizações beneficentes que realizam tarefas humanitárias no Haiti, segundo o Centro de Filantropia da Universidade de Indiana.

A maior parte do dinheiro foi doada nas semanas seguintes ao tremor, enquanto as consequências do desastre ocupavam as telas dos noticiários das três principais redes de televisão dos Estados Unidos, vistos a cada noite por aproximadamente 23 milhões de norte-americanos. Em janeiro, as redes dedicaram um terço de sua cobertura nos noticiários noturnos a informações procedentes do Haiti, segundo o Tyndall Report, site que analisa os principais programas de notícias das televisões dos Estados Unidos.

Mas essa cobertura caiu abruptamente no mês passado, segundo o site. Além disso, os programas da noite deram mais atenção à prisão de missionários batistas norte-americanos acusados de tráfico de crianças haitianas para sua adoção nos Estados Unidos do que à ação humanitária, conclui o estudo. Organizações não governamentais que pediam o perdão da dívida multilateral do Haiti mesmo antes do terremoto se mostraram satisfeitas com as resoluções do Congresso.

“É um sinal muito importante porque os Estados Unidos são um jogador muito importante”, disse Elizabeth Stuart, da Oxfam International. Washington “promover a redução da dívida é algo que todos os demais protagonistas levarão em conta e, com sorte, agirão a respeito nas próximas semanas”, acrescentou. Os ministros da Economia do Grupo dos Sete países mais ricos, que dominam as diretorias das principais instituições financeiras multilaterais, acordaram, inicialmente, uma forte redução da dívida haitiana na reunião de emergência em Montreal, no Canadá, no final de janeiro.

O Haiti deve quase US$ 420 milhões ao BID, US$ 165 milhões ao Fundo Monetário Internacional e US$ 39 milhões ao Banco Mundial. O país mantém uma dívida de US$ 55 milhões com outras instituições multilaterais, entre elas agências do sistema da ONU, segundo os últimos dados divulgados pelo FMI. A Venezuela anunciou, após o terremoto, que perdoaria os US$ 300 milhões de sua dívida bilateral com o Haiti, enquanto Taiwan, outro grande credor do país, disse que vai analisar o cancelamento da dívida de US$ 95 milhões.

Em junho, o Haiti foi beneficiado com o alívio de US$ 1,2 bilhão de sua dívida multilateral, depois que o governo de Préval concluiu um programa de três anos com o FMI. Entretanto, mais da metade dessa dívida foi contraída por ditaduras, especialmente pelo regime da família Duvalier (1957-1986). Esse perdão não inclui a dívida que o país contraiu a partir de 2004, depois da derrubada do presidente Jean-Bertrand Aristide, sendo que grande parte foi concedida para ajudar na recuperação do país de devastadoras inundações causadas por furacões em 2008. IPS/Envolverde

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *