Pequim, 23/03/2010 – Escritórios em cada vez mais países, maior quantidade de produtos editoriais em diversos idiomas e uma reforma do jornal em inglês mais lido do país. Estes são os sinais de uma transformação na mídia estatal da China. Trata-se de um processo que o Presidente Hu Jintao descreveu como “uma luta cada vez mais dura pelo domínio das notícias e da opinião”. Conforme este país, o mais populosos do planeta, assume maior protagonismo nos assuntos políticos e econômicos, regionais e internacionais, também busca que suas opiniões sejam claramente expostas nos meios de comunicação.
No dia 1° deste mês o jornal China Daily, o mais lido em inglês, apresentou sua mais drástica mudança de diagramação em 29 anos de história. O formato agora tem estilo britânico e inclui nova seção de jornalismo investigativo. O jornal, com tiragem de 300 mil exemplares, agora também apresenta mais informação fornecida por suas redações no exterior. A mudança gráfica aconteceu depois do lançamento no ano passado da versão em inglês do jornal Global Times, que em sua variante chinesa tinha uma forte carga nacionalista. A versão em inglês foi mais longe do que qualquer outro jornal chinês. Em junho passado, por exemplo, foi o único a informar o 205º aniversário dos protestos e a repressão na praça de Tiananmen.
O governo informou ter destinado 45 bilhões de yuans (US$ 6,580 bilhões) para a expansão internacional da mídia estatal. Com parte dessa tendência, a estatal Televisão Central da China (CCTV) e a agência de notícias Xinhua produzirão conteúdos em diferentes idiomas, tanto para público asiático como ocidental. A CCTV criou canais em russo e árabe, que se somarão às suas emissões já existentes em francês e espanhol. O canal português será o próximo desafio. A rede tem um plano de três anos para expandir seus escritórios internacionais de 19 para 56. No ano passado o China Deily lançou uma edição nos Estados Unidos. Em 1° de janeiro, a Xinhua inaugurou a China Xinhua News Network Corp (CNC), uma emissora que transmite 24 horas conteúdo em chinês para países da Ásia Pacífico e Europa. Simultaneamente, foi lançado um canal sobre negócios e finanças. Em julho próximo, a CNC começará a transmitir programas em inglês, e depois em francês, espanhol, português, árabe e russo.
A agência Xinhua também expandirá seus escritórios no exterior de 100 para 186, e criará uma completa emissora em inglês, seguindo o modelo da pan-árabe Al Jazeera, para competir com a norte-americana CNN e a britânica BBC. Alguns sugerem que a CCTV e a Xinhua poderiam seguir o mesmo caminho da Al Jazeera, que foi recebida com cepticismo há uma década, mas agora é considerada fonte confiável e precisa de notícias internacionais, que dá ao público novas opções de informação. Funcionários estatais chineses deixaram claro que a campanha tem o objetivo de influenciar a opinião pública mundial.
No ano passado, um membro do Comitê Permanente do Escritório Político do Partido Comunista Chinês (PCCh), durante conferência sobre propaganda e ideologia, afirmou que o Estado deveria “destacar os êxitos do partido, do socialismo, da política de reformas e da pátria”. Wang Chen, chefe da divisão de propaganda no exterior do PCCh, disse que a mídia e os escritórios culturais deveriam ter “a capacidade de transmitir, influenciar positivamente a opinião pública internacional e de consolidar uma boa imagem” da China. Mas, além destas declarações, há uma crescente conscientização de que este país precisa se fazer ouvir melhor no cenário mundial.
O diretor do Centro de Pesquisas sobre Jornalismo e Desenvolvimento Social na Universidade Renmin da China, Zheng Baowei, explicou que, conforme cresce a influência de Pequim, também aumenta sua necessidade de deixar clara suas posições em temas internacionais. O acadêmico disse que o governo já começou a guiar os meios estatais de forma mais eficaz, e que a qualidade do pessoal e das instalações melhoraram. “Todos esses esforços ajudam os meios estatais a expandirem e aumentarem sua influência, mas, precisamos dar um tempo. O efeito é gradual”, afirmou Zheng.
Entretanto, o caminho para um império mundial de mídia tem seus obstáculos. O primeiro problema é financeiro. A renda dos meios de comunicação chineses em inglês é escassa, e há poucos indícios de que o governo possa recuperar grande parte de seus investimentos. Por exemplo, calcula-se que Global Times perderá 20 milhões de yuans (US$ 2,93 milhões) em seu primeiro ano de publicação. O governo não indicou quanto tempo pretende financiar esta expansão, e a própria mídia não definiu ainda como fará seus negócios.
Um segundo problema é o conteúdo. Apesar de notáveis melhoras, a prioridade da mídia estatal continua sendo promover a mensagem do governo e apresentar uma imagem positiva da China. Os temas delicados conhecidos com “Os três Ts” (Tibet, Tawian e Tiananmen) são, em geral, ignorados ou minimizados. Para convencer um público internacional, os meios de comunicação estatais deverão apresentar todas as posições nas notícias sobre a China, disse Chen Lidan, da Escola de Jornalismo da Universidade de Renmin. “Temos de nos aproximar da visão mundial (das audiências internacionais) em lugar de pressioná-los com nosso valores e opiniões. E, para fazer isso, precisamos informar não apenas o bom, mas também o ruim”, afirmou.
(IPS/Envolverde)

