Pequim, 15/03/2010 – Os superiores do sargento de polícia Chen Lusheng, que morreu após uma noite de farra e muito álcool, declararam que era um “mártir” caído “no cumprimento do dever”, para que a família pudesse receber uma indenização maior. O policial morreu em dezembro, na cidade de Shenzhen, depois de beber muito junto com outros companheiros que não estavam de serviço. A morte de Chen poderia entrar na categoria “cumprimento do dever” se for considerado o papel que tem o consumo de álcool no trabalho e na vida social dos funcionários públicos deste país.
O episódio, que chamou a atenção pública para o alcoolismo em algumas funções que se caracterizam pelo esbanjamento, não foi um fato isolado. Três membros do governante Partido Comunista morreram em 2009 após consumirem álcool em exagero. Um funcionário bêbado perdeu o emprego no ano anterior em Shenzhen, após a divulgação de fotos e vídeos nos quais aparecia fazendo insinuações sexuais para uma menina de 11 anos. Esses incidentes deixaram evidente a grande quantidade de reuniões com muito álcool.
O problema se espalhou da administração pública para os jovens, o que levou o governo a pedir que fosse dado o exemplo e houvesse menos gasto em festas e banquetes oficiais. Muitos chineses costumam beber uma ou duas garrafas de cerveja no jantar, mas as reuniões oficiais se caracterizam pelo excesso de álcool. Consome-se “baiju”, ou “licor branco”, um destilado de arroz ou sorgo, que se bebe de um gole. “No mais, é considerado falta de respeito não ir a esses encontros. O consumo de bebidas alcoólicas é um ingrediente a mais nas relações sociais, nos vínculos corporativos e nos encontros para selar acordos. Mas as consequências costumam ser piores do que se recuperar de uma terrível ressaca.
“Tive de sair antes. Não por fazer mal o meu trabalho, mas porque o fiz muito bem”, escreveu o ex-funcionário Long Bowen em um artigo publicado no China News Net, do Partido Comunista. Long, um promissor jogador de basquete, teve de se aposentar porque os médicos diagnosticaram que tinha diabete, cirrose e excesso de líquido entre os tecidos que separam o abdômen dos órgãos abdominais. “Meu corpo se ressente por ter feito um trabalho muito bom todos esses anos” continuou. Mas, ele é dos funcionários com sorte.
O subdiretor do Escritório de Água de Wuhan, capital da província de Hubei, morreu de infarto em 13 de julho de 2009, aos 47 anos, devido ao excessivo consumo de álcool. Nesse mesmo mês, Lu Yanming, um inteligente e muito respeitado funcionário da cidade de Zhenjiang, na província de Jiangsu, entrou em coma após consumir álcool em demasia, morrendo duas semanas depois. Shen Hao, secretário do Partido Comunista na província de Anhui, morreu em outubro passado intoxicado pelo excesso de álcool ingerido em uma festa com empresários e funcionários.
As reuniões com muito álcool se converteram em um alvo de críticas do público. Especialistas chineses estimam que apenas os funcionários gastem cerca de US$ 73 bilhões por ano em festas oficiais. O governo proibiu reiteradamente os banquetes luxuosos para combater a corrupção e o gasto excessivo. O Partido Comunista divulgou, em fevereiro, um novo código de conduta com 52 normas, entre elas proibição de casamentos e funerais luxuosos. Mas o excesso de álcool não acontece apenas nos círculos oficiais.
Nos últimos anos, o problema se propagou para a juventude, com o crescimento da classe média e o surgimento de bares ao estilo ocidental. Todos os finais de semana, os grandes locais de baile ao redor do Estádio dos Trabalhadores, no centro de Pequim, estão repletos de clientes, quase exclusivamente chineses. São jovens com dinheiro que gostam de beber. “O alcoolismo entre os jovens é um problema que chama a atenção”, afirmou o professor Hao Wei, do Instituto de Saúde Mental da Universidade Centro-Sul. O consumo de álcool aumentou com o desenvolvimento econômico. O governo respondeu com leis para controlar o problema, mas não há programas nacionais de prevenção, acrescentou.
Cao Yon trabalha em um banco e gosta de karaokê e dos “bares barulhentos” com amplas pistas de dança, aonde vai quase todos os finais de semana e gasta entre US$ 29 e US$ 40 cada vez. “Meus pais não sabem por que não vivem em Pequim. E não vou contar para eles”, disse o rapaz de 25 anos. Liu Qingyun é gerente de projeto em uma empresa de informática e vai aos bares pela mesma razão que os demais: porque é divertido. “São locais de reunião e é possível fazer novas amizades. Além disso, depois de um dia ou uma semana de trabalho, é relaxante ir a um bar e beber uns tragos”, acrescentou. Nenhum deles se mostrou preocupado com o alcoolismo. Mas há estudos que mostram ser este um problema que cresce entre os jovens.
O consumo nesse setor da população aumentou 500% nos últimos 20 anos, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde de 2006. Além disso, mais de 80% dos leitos hospitalares psiquiátricos estão ocupados por pessoas com problemas derivados do alcoolismo. Outro estudo desse mesmo ano, realizado por professores da Universidade de Pequim, mostra que 51,1% dos 54.040 estudantes entrevistados, do 7º ao 12° ano, disseram ter consumido álcool, e 14,1% reconheceram ter ficado bêbados em 2005. Os estudantes com antecedentes de alcoolismo têm mais possibilidades de começar a fumar, usar drogas, brigar e ter comportamentos de risco, conclui o estudo. IPS/Envolverde

