AGRICULTURA-NAMÍBIA: Proteínas plantadas na areia

Windhoek, 05/04/2010 – Obed Kamburona tentou cultivar diferentes produtos, mas o solo seco e arenoso da Namíbia sempre o impedia.

Chimwamurombe (à direita) e um agricultor local levantam uma marama, tubérculo que pode chegar a pesar dez quilos. - Moses Magadza/IPS

Chimwamurombe (à direita) e um agricultor local levantam uma marama, tubérculo que pode chegar a pesar dez quilos. - Moses Magadza/IPS

“Tenho uma grande fazenda, mas não posso cultivar porque o solo não é adequado. Crio gado e cabras”, contou. A Namíbia é um dos países mais secos da África subsaariana. Seus dois desertos, Namib e Kalahari, aumentam a cada ano. Os solos pobres e a escassez de água são fatores que limitam agricultores como Kamburona. Este país importa 80% de seus alimentos da África do Sul.

Kamburona – que vive na região de Omaheke, 400 quilômetros ao norte de Windhoek – foi um dos primeiros a se oferecer como voluntário quando ficou sabendo que a Universidade da Namíbia iniciara o cultivo experimental de vagem de “marama”. Esse é o nome em língua setswana da Tylosema esculentum, legume perene presente em toda África austral e que hoje se encontra sob ameaça devido à urbanização e à superexploração.

Em lugares onde ainda é cultivada, como Namíbia, África do Sul e Botsuana, a colheita não é controlada e, em geral, é feita prejudicando o tubérculo, rico em amido. As sementes desta planta contêm muito óleo e são altamente nutritivas, com um conteúdo de proteínas superior a 30%. Podem ser cozidas com milho ou transformadas em pó para uso em bebidas quentes. Cresce com força em solos profundos e arenosos como os encontrados em Omaheke.

Percy Chimwamurombe, principal pesquisador do projeto da marama, disse que os cultivos experimentais começaram com muito entusiasmo em fevereiro. Ele e outros dois cientistas uniram-se a 12 agricultores da região, incluindo Kamburona, para preparar dois hectares de terra e plantar as sementes. Outros 44 agricultores em todo o país trabalham em outros campos experimentais tentando domesticar a marama. O projeto é financiado pelo Kirkhouse Trust of the United Kingdom, pela Universidade da Namíbia e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

“É necessário, com urgência, em todo o mundo, uma diversificação de cultivos, considerando os efeitos da mudança climática na agricultura. Todos os cultivos e animais domésticos um dia já foram selvagens. Vimos como algumas plantas e animais se extinguiram. Nossa tentativa é de impedir que isto ocorra com a vagem da marama”, disse Chimwamurombe à IPS. Cientistas dos Estados Unidos indicaram, no início da década de 60, que a marama tinha possibilidade de ser domesticada. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), já está sendo produzida na Austrália.

Chimwamurombe informou que o primeiro objetivo era apenas o de demonstrar que a marama pode ser cultivada, colhida e vendida. Sua equipe vai estudar o crescimento e o desenvolvimento da planta nos campos experimentais para selecionar e depois reproduzir as de qualidade mais adequadas para uma produção sustentada. “A pobreza e o desemprego são os maiores desafios em nossa região. Graças à sua grande quantidade de proteína, a planta pode ser facilmente convertida em um cultivo comercial, gerando empregos e renda em nível nacional e para as famílias”, afirmam os pesquisadores.

Chimwamurombe disse que na África austral existe uma grande deficiência de proteínas e, se a vagem puder ser cultivada para ser uma cultura economicamente viável, especialmente em terra que não está sendo usada, será uma opção viável para agricultores em toda a região. O processo de investigação também permitirá o desenvolvimento de habilidades no manejo de cultivos. “A região da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) tem muitos recursos, mas poucos especialistas para liderar sua exploração. Espera-se que o programa treine muitos cientistas durante o período projetado de 18 anos”, explicou Chimwamurombe. Kamburona e outros agricultores comunitários se ofereceram como voluntários para participar do plano, confiantes de que pode mudar suas vidas. IPS/Envolverde

Moses Magadza

Winner of the prestigious SADC Media Award (2008) and nine other journalism awards, Moses Magadza is a Zimbabwean journalist and editor. He lives in Windhoek, Namibia, where he is studying further.

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