AMBIENTE-ISLÂNDIA: Cultivando com cinzas vulcânicas

Reikiavik, 22/04/2010 – Por incrível que possa parecer, a vida diária da vasta maioria dos habitantes da Islândia praticamente não foi afetada pela erupção vulcânica na geleira Eyjafjallajökull, que causou o cancelamento de vários voos na Europa e deixou em péssima situação milhares de passageiros em todo o mundo.

 - Lowana Veal/IPS

- Lowana Veal/IPS

Os ventos do oeste e do norte levaram a enorme coluna de cinzas para fora da Islândia, para o mar e para a Europa continental. No entanto, para as cerca de 700 pessoas que vivem na zona sul e leste da geleira, a história foi diferente. Os agricultores foram os mais afetados.

Finnur Tryggvason, da localidade de Raudafell, é um deles. Em sua fazenda, cerca de 15 quilômetros ao sul do local da erupção, cria cavalos e algumas ovelhas. “Aqui ficou negro como a noite durante todo o dia devido à nuvem de cinzas”, disse à IPS. No dia 18, a nuvem estava mais baixa, a três quilômetros de altura, e por isso quase não podia se dissipar. “Também houve muitos trovões, mas não dava para ver os raios”, acrescentou.

Por ser um país vulcânico ativo, as erupções não são algo estranho na Islândia. A última ocorreu um pouco mais a leste e acabou 36 horas antes de começar a de Eyjafjallajökull. Aquele evento, no entanto, foi muito menos prejudicial e passou a ser conhecido como “erupção turística”. As duas ultimas foram precedidas de terremotos. Geólogos acompanham de perto a situação, e o Departamento de Proteção Civil está em alerta.

Cerca de 800 pessoas foram acordadas e retiradas por volta das quatro horas da manhã do dia 14, antes da explosão do vulcão. Foram levadas para um centro da Cruz Vermelha instalado no povoado mais perto, já que a Proteção Civil previa um evento destas características e, inclusive, temia que houvesse uma inundação pelo derretimento da geleira.

Os agricultores puderam ir cuidar dos animais, mas logo tiveram de retornar ao centro. A ordem de evacuação finalmente foi levantada à noite para que todos, menos os moradores de 20 fazendas, que só puderam retornar às suas propriedades na noite do dia 17. Tryggvason foi um dos evacuados. “Na realidade, não havia necessidade. Minha fazenda fica bem no alto”, disse. Muitos também tinham sido retirados na erupção anterior, pelo medo de inundações.

“Foi terrível para os moradores. Tirando os fazendeiros, muitos abandonaram suas casas e foram viver com amigos ou parentes”, disse Urdar Gunnarsdottir, do Departamento de Proteção Civil. As equipes de resgate distribuíram máscaras contra pó e luvas para os afetados. Muitos selaram janelas e portas de suas casas e os estábulos para impedir a entrada de cinza. Mas isto nem sempre funciona. “As cinzas entraram nas casas, principalmente nas construções anexas que não foram seladas tão hermeticamente”, disse Tryggvason.

Gudrun Larsen é geóloga do Instituto de Ciências da Terra e esteve medindo a camada de cinza na área afetada. “Nas terras baixas, o grosso pode chegar a cinco centímetros, embora, em lugares onde a cinza havia se instalado antes de ser levada pelo vento, seja ainda maior”, disse à IPS. Quais os efeitos no longo prazo? “É impossível prever. Depende de quanto tempo durar a erupção, da força dos ventos e da espessura da camada de cinzas. Se for fina, pode ser diluída pela chuva, mas a situação fica pior se for grossa, pois tem alto conteúdo de flúor, que não é bom para os animais”, explicou por Grunnarsdottir.

O flúor pode se juntar ao cálcio e produzir fluoreto de cálcio, que enfraquece os ossos e os dentes do gado. As autoridades exortaram os agricultores a abrigarem seus animais, e quando isto não é possível (alguns cavalos não estão habituados aos estábulos) devem garantir que tenham água potável e feno. Apesar de tudo, alguns estão otimistas. Thorarinn Olafsson planta cevada. “Simplesmente estou misturando a cinza na terra. A cinza não é muito espessa onde estou, apenas um ou dois centímetros, menos do que em muitos lugares”, disse. Este produtor tenta semear cem hectares de cevada, embora no ano passado tenha semeado até 160. “Realmente, agora precisamos de muita chuva para eliminar o flúor e outros compostos tóxicos”, afirmou.

É perigoso cultivar misturando as cinzas no solo? “Não estudei o efeito químico, mas o flúor não é tóxico para a vegetação, por isso, em minha opinião, um pouco de cinza na terra não deve ser problema”, disse Sigurgeir Olafsson, da Autoridade Alimentar e Veterinária islandesa. Se a camada de cinzas é grossa, entretanto, pode ser muito prejudicial para a terra. A Associação de Agricultores teme que o feno não volte a crescer na região se as erupções prosseguirem.

A última explosão vulcânica causou inundações que prejudicaram estradas, pontes e diques. Isto causou escassez temporária de alimentos na localidade de Vik e problemas na coleta do leite. Como a direção do vento não mudou e a visibilidade é limitada, a escola desse povoado foi fechada no dia 19. Não está claro se a cinza chegará a Reikiavik. “É impossível dizer. Depende da força do vento, da sua direção, quanta cinza há e de outros fatores”, disse Gunnarsdottir.

A maioria dos aeroportos internacionais e locais da Islândia permaneceu aberta, ao contrário do ocorrido no resto da Europa. IPS/Envolverde

Lowana Veal

Lowana Veal reports extensively on environmental and conservation issues from Iceland. She has also written for IPS on pioneering development of renewable energy. Lowana was born in Britain, but wrote her first article on environmental issues for a student newspaper in Australia in 1974 while studying for a biology degree in Melbourne. After returning to the U.K., she became involved in various magazine collectives in which she wrote, edited and designed material. She moved to Iceland in 1996 and started writing for IPS in 2004. She balances her writing work by taking people out for horseback rides.

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