Buenos Aires, 13/04/2010 – “Nunca havia trabalhado, e agora faço quilos de fruta desidratada para vender. Me ensinaram a secar pêssego, tomate, pimentão, uvas, e eu, por conta própria, testei com melão e pêra, que ficaram espetaculares”, contou à IPS a produtora rural argentina Susana Robledo.

Uma produtora rural argentina em pleno trabalho invisível. - Cortesia da Estudos e Projetos Associação Civil
Antes, o excedente de fruta apodrecia. Agora que conhece as diferentes técnicas de desidratação, conservação e os segredos da comercialização, Robledo guarda quilos de diferentes variedades no congelador e os vende em diferentes feiras que acontecem nessa região de Mendoza, onde reinam vinhedos e adegas.
A associação busca desenvolver a capacidade empreendedora das mulheres rurais para favorecer sua autonomia econômica. E para isso trabalha nos direitos das mulheres à posse da terra, no acesso ao crédito, no direito a decidir sobre a quantidade de filhos ou denunciar a violência machista.
“Quando o contexto de direitos é facilitado, as mulheres se apropriam e os exigem”, afirmou à IPS Liliana Seiras, diretora do projeto. “Entramos pelo lado da produção, mas vemos sempre quão profundo é o tema dos direitos, para que aos poucos elas possam ir tendo poder”, explicou.
A única reprovação que as mulheres fazem às capacitadoras é “por que não vieram antes?”, tal como disse Paulina Gil, uma das mulheres de El Colorado, de mais de 70 anos.
“Nosso trabalho antes nada valia. Os homens brincavam conosco, nos batiam, nos mandavam embora de casa com os filhos e traziam outra mulher”, denunciou.
O testemunho, recolhido em um vídeo da organização, revela a violência, a falta de direitos e oportunidades destas mulheres, tudo aumentado pelo isolamento geográfico e também pelo isolamento delas entre si, um fenômeno que o programa buscou mudar ao promover sua associação, inclusive para empreendimentos conjuntos.
Além de detalhes, a situação das mulheres rurais na Argentina não difere do resto dos países da América Latina, onde constituem quase a metade da população.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), na região há 24 milhões de produtoras invisíveis, mas essa invisibilidade é mais acentuada no campo, onde elas trabalham no mesmo lugar onde fazem as tarefas domésticas e de reprodução.
A engenheira agrônoma Cristina Biaggi, autora de “Estudos de Mulheres Rurais na Argentina”, disse à IPS que devido a razões culturais, que as leva considerarem a si próprias como ajudantes de seus maridos, “o trabalho das mulheres no campo está invisível”.
Os dados oficiais mostram que apenas 21% das mulheres rurais argentinas se consideram “ocupadas” e 10% “desocupadas”. Os 70% restantes não têm um trabalho remunerado nem buscam. Assim, aparecem nas estatísticas como “‘inativas’, embora trabalhem de sol a sol.
“A categoria inativas tem um viés de ocultação. É inadequada para captar o trabalho feito pelas mulheres rurais”, disse Biaggi, assegurando que a forma como elas experimentam seu trabalho contribui para esse subregistro.
Mulheres como Robledo, que diz “nunca” ter trabalhado, não só atendem as tarefas domésticas e a criação dos filhos. Ajudam na semeadura, colheita, retirada do mato, criação de pequenos animais, na fazenda, na ordenha e na produção de artesanato.
Assim fez Robledo, de 55 anos e com dois filhos, um já casado, embora ainda explique que não se considera produtora rural, apesar de ser isso junto com seu marido na pequena chácara que possuem.
Em El Colorado, as mulheres se conscientizaram de suas capacidades a partir do abandono. “É incrível ali a quantidade de mulheres que ficaram sozinhas com os filhos”, revelou Seiras.
Quando o governo provincial deixou de subsidiar o cultivo de algodão, os homens partiram da cidade e a maioria não voltou.
As mulheres ficaram encarregadas do sustento da família, sem renda e sem a posse da terra, uma carência que as impede, por exemplo, de obter crédito. Por isso, o programa de capacitação para empreendedoras teve tanto sucesso ali.
“A primeira coisa que fizemos foi um silo e uma debulhadora de cereal para guardar excedentes que sirvam de alimentos para os animais”, contou Seiras. Com pequenas mudanças e a capacitação para a melhoria da produção, as mulheres chegaram às feiras livres onde agora vendem seus produtos.
Mas foi necessário primeiro trabalhar a baixa autoestima e o desconhecimento de seus direitos, insistiu Seiras.
Em Mendoza, a primeira atividade da Estudos e Projetos foi convocar as participantes uma vez por semana para uma sessão de manicure e cabeleireiro. “Ensinamos a arrumar o cabelo, preparar cremes à base de mel, leite ou pepino”, contou.
“Depois de um mês de ‘salão de beleza’ foi como ter adubado um campo, melhoraram a autoestima e começaram a capacitação”, recordou a coordenadora.
As mulheres treinam em diversas especialidades, até encontrarem a que melhor se adapta às suas oportunidades e capacidades. Entre elas, desidratação de frutas, tecido, secagem de ervas aromáticas, massa para pizza e salsichas.
Muitas procedem da Bolívia, de onde chegaram como temporárias para colher alho ou cebola, e ficaram. Mas vivem em condições de grande submissão, disse Seiras, que apenas começam a se dar conta. IPS/Envolverde

