REPORTAGEM: Sociedade civil toma a palavra em Cochabamba

SANTIAGO, 20/04/2010 – (Tierramérica).- Ativistas de toda a América dirigem-se à Bolívia, para um encontro com pouca convocação governamental, buscando unir vontades com vistas à cúpula climática de novembro.

Participantes bolivianos em uma das sessões do Klimarofum 2009, em Copenhague. - Daniela Estrada/IPS

Participantes bolivianos em uma das sessões do Klimarofum 2009, em Copenhague. - Daniela Estrada/IPS

O sucesso da conferência sobre mudança climática, que acontecerá na cidade boliviana de Cochabamba, dependerá do grau de unidade de ação que alcançarem as organizações sociais para incidir na próxima cúpula mundial do México, afirmam ativistas latino-americanos. A Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra, convocada pelo presidente boliviano, Evo Morales, pretende reunir entre 19 e 22 deste mês, cerca de 12 mil pessoas de 130 países, entre personalidades internacionais, representantes de organizações sociais e funcionários governamentais.

O grosso do debate será protagonizado pela sociedade civil, em geral contrária aos instrumentos de mercado defendidos pela maioria dos governos para solucionar a crise climática, o que gera dúvidas entre alguns sobre o real impacto do fórum nas negociações oficiais que acontecerão na Organização das Nações Unidas. Em Cochabamba estarão apenas mandatários próximos a Morales, como Rafael Correa, do Equador; Fernando Lugo, do Paraguai; Daniel Ortega, da Nicarágua, e Hugo Chávez, da Venezuela. Outros governos, como os do Brasil e do Chile, não participarão e muitos ainda não confirmaram se enviarão delegados.

“Creio que é um espaço de encontro muito importante, onde será possível discutir e coordenar nossas posições e estratégias, mas esse êxito depende das organizações que participarem”, disse ao Terramérica a colombiana Lyda Fernanda Forero, integrante do secretariado da Aliança Social Continental. A Aliança, que reúne organizações e redes do Canadá ao Chile, terá maior presença do que no Klimaforum 2009, a cúpula da sociedade civil realizada em dezembro, em Copenhague, paralelamente à 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15).

“Graças ao chamado de Morales, temos um arco de entidades sociais e políticas por trás deste tema que não teríamos sonhado há quatro meses”, como estudantes e sindicatos, disse, por sua vez, Eduardo Giesen, coordenador para a América Latina do programa de justiça climática da rede Amigos da Terra Internacional. Para Alejandro Yianello, da Associação Ecológica Piuké, da Argentina, “é um avanço que haja outros atores, diferentes da COP-15, discutindo o tema”. Também demonstrou sua alegria ao Terramérica pelo fato de Cochabamba mudar o eixo do debate para os “direitos da Mãe Terra”

Itelvina Massioli, do brasileiro Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da coordenação da Via Camponesa Internacional, disse ao Terramérica que a conferência não será “uma feira de negócios, mas um importante espaço de informação, reflexão, diálogo e articulação entre os povos”.

As 17 mesas de trabalho tratarão de questões como as causas estruturais do aquecimento global, e as propostas bolivianas para criar um tribunal internacional de justiça climática e convocar um referendo dos povos do mundo. Também analisará a situação dos indígenas e dos “migrantes climáticos”, e as possíveis soluções para financiar e transferir tecnologias necessárias para a adaptação a esse fenômeno.

“A convocação de Morales consegue sintetizar o que de maneira fragmentada, atomizada, vem sendo pedido por muitos movimentos sociais na América Latina”, o que imprime um grande desafio às organizações, disse ao Terramérica o diretor do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais do Chile, Lucio Cuenca. O México, que em dezembro organizará a COP-16, chamada a reverter o fracasso da reunião na capital dinamarquesa, estará representado por delegados de pelo menos sete entidades ambientalistas.

“Nossa proposta geral é dizer ‘não’ às falsas soluções contra a mudança climática, oferecidas por quase todos os governos, como os mecanismos de mercado, que não têm efeitos na mitigação” do problema, disse ao Terramérica o ecologista Miguel Valencia, um dos organizadores do Klimaforum 2009. “Cochabamba pode ser um espaço democrático e de desenvolvimento de capacidade organizacional para construir acordos dentro da sociedade civil”, disse ao Terramérica a ativista Claudia Gómez, do não governamental Centro Mexicano de Direito Ambiental.

Porém, nem todos veem nesse fórum uma oportunidade para fortalecer a sociedade civil. A não governamental Fundação Vida Silvestre, que em março liderou na Argentina a campanha para apagar a luz contra a mudança climática, não participará “por uma questão de orçamento” e porque “é mais uma convocação para organizações indígenas”, disse ao Terramérica uma de suas integrantes, María José Pachá. “Não é uma reunião da ONU”, disse. Também Hernán Giardini, delegado do Greenpeace Argentina, que irá à Bolívia, disse ao Terramérica esperar que a conferência não se converta em um processo alternativo ao que se segue na ONU, porque é nesse contexto que as decisões são tomadas.

Por outro lado, a diretora do não governamental Programa Chile Sustentável, Sara Larraín, acredita que o encontro representa precisamente a possibilidade de recuperar a “governabilidade democrática internacional” diante do fracasso das reuniões oficiais. “Cremos que a conferência dos povos é um espaço fundamental porque, se não for gerado um polo de subversão e contestação, e se não for tirado o chão dos governos, não haverá possibilidade de as negociações avançarem”, disse Larraín ao Terramérica. “Vamos com a expectativa de que será um movimento social, popular, genuíno, que considerará as questões ambientais, neste caso a crise climática, como uma problemática social, sociopolítica, e que se constituirá além das organizações não governamentais ambientalistas’, disse Giesen.

* Com contribuições de Emilio Godoy (México), Marcela Valente (Buenos Aires), Franz Chávez (La Paz) e Fabiana Frayssinet (Rio de Janeiro).

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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