Rio de Janeiro, 01/04/2010 – Especialistas de diferentes partes do mundo tentam atrair a atenção para doenças pouco conhecidas e deixadas de lado pelos grandes laboratórios farmacêuticos, como leishmaniose visceral e doenças do sono e de Chagas. As chamadas doenças esquecidas, entre as quais também figuram malária, dengue e esquistossomose, representam, junto com a tuberculose, 11,4% do volume mundial de enfermidades, mas apenas 1,3% dos 1.556 novos remédios registrados entre 1975 e 2004 foram desenvolvidos especificamente para atacar esses males.
A prioridade dada a essas doenças pelos laboratórios “é zero”, disse à IPS Tânia Araújo-Jorge, diretora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), anfitriã do fórum internacional de especialistas e gestores de saúde que terminou ontem no Rio de Janeiro. O encontro, aberto no dia 29, foi promovido pela Organização Mundial da Saúde a fim de orientar recursos e formular estratégias destinados aos estudos e tratamentos para essas enfermidades.
“Não existe nenhum incentivo para investimentos privados porque não dão lucro, não têm mercado”, explicou Tânia. Os governos das nações onde estas doenças são endêmicas, que poderiam configurar um eventual mercado, “não possuem políticas de compra asseguradas”, e, portanto, tampouco são atraentes, acrescentou. Segundo a Iniciativa Medicamentos para Enfermidades Esquecidas (DNDi), da não governamental Médicos Sem Fronteiras, estes males matam e deixam incapacitadas milhões de pessoas e representam uma necessidade médica importante que continua sem receber atendimento.
Precisamente, um dos objetivos da reunião, realizada em colaboração com o Instituto Oswaldo Cruz e a Organização Pan-Americana de Saúde, foi discutir como compensar esse buraco na saúde pública. “Atualmente, há mais oportunidades de financiamento de empresas e fundações, mas ainda não existem prioridades definidas. Há dispersão de financiamento em estudos”, resumiu Tânia. Os resultados de encontros com este servirão de base para elaborar um informe global em 2011, que orientará as agências e os países envolvidos. “O objetivo é harmonizar e articular o esforço de financiamento determinando as prioridades”, acrescentou a diretora da Fiocruz.
O fórum centrou-se nas doenças mais esquecidas dentre as esquecidas, o Mal de Chagas, a doença do sono e a leishmaniose visceral, todas parasitárias e que afetam mais de 500 milhões de pessoas no mundo. Em entrevista à IPS, a coordenadora de projetos para a América Latina da DNDi, Isabela Ribeiro, destacou que são doenças com uma enorme carga socioeconômica em termos de saúde pública. Isabela mencionou o caso do Mal de Chagas, causado pelo parasita Trypanosoma cruzi, transmitido, em geral, pelo barbeiro.
O Mal de Chagas, que afeta cerca de oito milhões de pessoas no mundo e que é endêmica em 21 países da América Latina, frequentemente não é diagnosticado e em casos extremos causa cardiopatias e problemas digestivos, incapacidades com alto impacto social e econômico “comumente não reconhecido”, disse Isabela. A DNDi menciona com consequência o desemprego e a “redução da capacidade produtiva”. Outro estudo citado por esta entidade, feito entre 1979 e 1981 no Brasil, determinou que, em 15 anos, perdeu-se mais de US$ 1,3 bilhão em salários e produtividade industrial por causa de trabalhadores com esta doença no país.
Estima-se que a doença do sono, causada por duas subespécies de protozoários kinetoplástidos, transmitida aos humanos pela mosca tse-tsé, atinge entre 50 mil e 70 mil pessoas e causa 48 mil mortes por ano. Este mal afeta principalmente os países africanos e gera, segundo a DNDi, graves consequências sociais e econômicas. No final do século XX, as epidemias atingiram até 50% da população de várias aldeias rurais africanas.
A leishmaniose visceral também está vinculada à pobreza. Calcula-se que sua forma mais grave afeta hoje em dia 500 mil pessoas em 88 países. Os mais afetados são Brasil, Bangladesh, Etiópia, Índia, Quênia, Nepal e Sudão. É uma doença com “diferentes níveis de mortalidade e morbidade”, mas todas com um “potencial impacto socioeconômico importante, segundo Isabela Ribeiro. Por estarem associadas às “populações mais vulneráveis” e, “em geral, fora do sistema”, não geram muito interesse para o desenvolvimento de medicamentos e estudos, acrescentou.
Apesar do panorama geral, Isabela se mostra otimista e destaca o surgimento cada vez maior de “modelos de associação” entre os setores público e privado para desenvolver esses medicamentos, promovidos por organizações como a DNDi. No Brasil, por exemplo, o laboratório público Farmanguinhos, da Fiocruz, desenvolve remédios para doenças como malária e promove estudos específicos sobre o Mal de Chagas. No setor privado, mencionou o caso de uma associação que promoveu com o laboratório multinacional Sanofi-Aventis para um medicamento contra a malária com preço de custo para o setor público.
Outra luz no caminho, de acordo com Tânia, da Fiocruz, é o fato de organizações internacionais terem começado a dar “mais voz e protagonismo” aos países onde essas doenças são endêmicas. O fato de escolher um país como o Brasil para um encontro como esse é uma demonstração da “descentralização do debate, fora de Genebra”, onde fica a sede da OMS, ressaltou. IPS/Envolverde

