Nogales, México, 26/04/2010 – “Tenho que voltar ao Arizona, é meu lar”, diz o mexicano Sergio, de 26 anos, enquanto coloca sua última pastilha purificadora em um copo de água suja.
Em inglês fluente explica que imediatamente após sua deportação tentou cruzar o deserto, mas agentes da patrulha de fronteira dos Estados Unidos o capturaram e o colocaram na prisão por oito meses. Ele não tem vínculos familiares nos Estados da fronteira mexicana; toda sua vida está no Arizona, ressalta Sergio. No dia 13 deste mês, o Legislativo desse Estado aprovou um projeto de lei mais duro contra os imigrantes, que agora está em estudo pela governadora republicana, Jan Brewer.
Punindo as pessoas que não tiveram identificação adequada, o projeto exige que a polícia revise o status legal de qualquer suspeito de não ter documentos legais. Apenas dois dias depois, em uma enorme operação com 800 policiais de nove agências federais e locais, foram presas 50 pessoas que trabalhavam no setor de transporte. Funcionários da Imigração dos Estados Unidos disseram que a medida incluiu “uma cooperação sem precedentes com a Secretária de Segurança Pública do México”, em uma investigação que “implicou membros de alto nível de organizações de tráfico de seres humanos”.
No mesmo dia, integrantes da organização anti-imigrantes Tea Party fizeram várias manifestações no condado de Maricopa, também no Arizona. O ex-congressista republicano Tom Tancredo culpou os imigrantes ilegais de assassinatos, e usou como exemplo o crime de Rob Krentz, um fazendeiro do Estado, ocorrido no mês passado e ainda não esclarecido. “O sangue dessas pessoas está nas mãos de cada político que administra uma cidade santuário”, disse Tancredo na cidade de Tempe. Chama-se cidade santuário aquela onde não há normas federais nem estaduais em matéria de imigração.
Isabel García, copresidente da Coalizão para os Direitos Humanos, com sede em Tucson, disse na Pacifica Radio que ela culpa os governos federal e estadual por “fazerem do Arizona o laboratório para todas estas medidas anti-imigrantes’. Com pontos urbanos de cruzamento de fronteiras, como Nogales, uma cidade muito fortificada, os migrantes deportados para o México que desejam retornar com suas famílias ao Arizona fazem perigosas travessias pelo deserto. Segundo organizações norte-americanas de direitos humanos, a quantidade de migrantes que morrem por ano tentando entrar no Estado aumentou de nove, em 1990, para 200, em meados de 2000.
O governo de Barack Obama continua com a política de seu antecessor de usar a morte como medida de dissuasão, o que, segundo o direito norte-americano e internacional, é ilegal. Em 1994, com a aprovação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), o então presidente Bill Clinton (1993-2001) militarizou oficialmente a fronteira com a Operação Guardião e a Operação Defender as Linhas de Combate.
Ao redirecionar os recursos do governo para os principais pontos de cruzamento urbanos entre os dois países, onde é mais fácil ter acesso a água, alimentos e abrigo, sucessivos governos dos Estados Unidos usam explicitamente as inóspitas condições do deserto como método de dissuasão dos imigrantes. A freira Engracia Robles, das Irmãs da Eucaristia, ajuda a administrar um pequeno centro onde voluntários recebem deportados. “Frequentemente, pessoas dormem no chão do cemitério” próximo daqui, conta.
“Chegam com bolhas nos pés, cortes no rosto e hematomas. Estão famintos, não têm nada; seus sapatos estão gastos de caminhar durante dias pelo deserto”, acrescenta a freira.
A IPS presenciou uma emotiva reunião familiar no centro, quando duas crianças que passaram vários meses separadas de seus país finalmente os encontraram. Perto dali, na passagem Mariposa, centenas de caminhões cruzam a fronteira. “Esta é uma fronteira do Nafta”, explica Connie Romero, voluntária da organização No Más Muertes, com sede no Arizona. “O dinheiro se movimenta livremente, e as pessoas com dinheiro também, mas os pobres são empurrados para uma perigosa viagem pelo deserto”, disse.
No lado mexicano, Agustín García, operário da construção civil deportado disse à IPS: “Estivemos nos Estados Unidos nos últimos 18 anos, mas Joe Arpaio (chefe de polícia do condado de Maricopa) nos mandou de volta. Aqui não temos família. Não temos nada”. Outro trabalhador, há pouco deportado, não entende o motivo de um país tão grande e com tantas oportunidades não permitir ele trabalhe. “O xerife Arpaio não gosta das pessoas de pele escura. John McCain, senador pelo Arizona (e ex-candidato republicano à Presidência) me odeia porque tenho a pele escura. Obama é negro, e deveria compreender, mas também me odeia. Por quê?”, lamentou. IPS/Envolverde


