REPORTAGEM: Ativistas europeus contra a expansão mercantil

BERLIM, 13/04/2010 – (Tierramérica).- São economistas, sociólogos, especialistas em política e ambientalistas da Europa que criticam o “desenvolvimento sustentável” e propõem renunciar ao “consumismo desenfreado”.

Manifestações contra falta de ação dos governos na COP-15 em Copenhague - Ana Libisch/IPS

Manifestações contra falta de ação dos governos na COP-15 em Copenhague - Ana Libisch/IPS

A crise ambiental generalizada impõe a substituição do atual modelo capitalista de produção por um que promova o “decrescimento seletivo” da economia e a exploração reduzida e responsável dos recursos naturais, segundo especialistas e ativistas europeus. O movimento liderado pelo economista francês Serge Latouche, pela especialista política Marie-Dominique Perrot, a Associação Climate Justice Action (CJA) e a publicação mensal La Décroissance (O Decrescimento), entre outros, aponta também a necessidade de mudar as formas de consumo, de redistribuição da riqueza e de transferência de tecnologia para os países em desenvolvimento.

Alexis Passadakis, representante da CJA em Berlim, disse ao Terramérica que “as metas desta reestruturação da economia são a conservação dos recursos naturais e a democratização de sua utilização em favor dos povos que vivem nas zonas de exploração, como a Amazônia ou a bacia do Congo”. Disse, ainda, que é preciso “romper com a lógica do mercado que caracteriza os instrumentos atuais da luta contra a mudança climática, como o comércio de direitos de emissões de gases-estufa”. O chamado comércio de carbono tem o objetivo de administrar e redistribuir as emissões desses gases contaminantes, quando o objetivo central deveria ser reduzi-las na fonte, como no transporte ou na geração de eletricidade, tanto no mundo industrializado como nos países pobres, acrescentou.

A organização apresentada por Passadakis participará da Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra, que acontecerá de 19 a 22 deste mês na cidade boliviana de Cochabamba. Estará encarregada do painel “Construindo Pontes entre Continentes com Movimentos de Base pela Justiça Climática”. A CJA é uma federação de grupos ambientalistas e ativistas contra a globalização que se uniram em 2009 para coordenar suas ações em torno dos debates da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP-15), em Copenhague, em dezembro do ano passado.

Seus membros compartilham da crítica ao “desenvolvimento sustentável” feita por Perrot e da proposta de decrescimento econômico seletivo de Latouche, os quais, por sua vez, se baseiam nas considerações termodinâmicas aplicadas à análise ambiental da economia global na década de 70 pelo economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen. Em seu livro “A lei da entropia e o processo econômico”, publicado em 1971 e considerado o fundador da economia do decrescimento, Georgescu-Roegen utilizou o conceito de entropia, e as leis da termodinâmica associadas a ele, para analisar a irreversível degradação ambiental provocada pelo consumo das matérias-primas.

Seguindo a linha de argumento do autor e considerando o agravamento da crise ecológica mundial, Latouche defende o decrescimento econômico como condição indispensável para a sobrevivência da humanidade. “A lógica do crescimento econômico aplicada desde o século XVIII nos levou a superar de maneira gigantesca a capacidade física do planeta”, disse ao Terramérica este professor emérito de Economia da Universidade Paris-Sud 11. Por isso, o decrescimento se impõe como única fórmula econômica viável, não apenas em beneficio da natureza como também para “restaurar um mínimo de justiça social, sem a qual o mundo está condenado à destruição, garantiu.

Paralelo ao decrescimento, Latouche promove valores como a frugalidade, a sobriedade e a austeridade. Em resumo, a renúncia ao consumismo desenfreado das sociedades capitalistas contemporâneas. Comum a todos os grupos promotores do decrescimento é a admissão do direito ao desenvolvimento dos países emergentes, como Brasil, China e Índia. Mas também o é a crítica a muitas das medidas que os governos dessas nações aplicam para promover o crescimento. Passadakis destaca a redução do consumo de bens importados para promover produtos regionais. “Nesse sentido, a CJA adotou o programa da Via Camponesa de garantia da soberania alimentar dos povos por meio da promoção do consumo do que eles mesmos produzirem”.

Passadakis sugeriu que a ação dos movimentos alternativos se situe em dois planos. Por um lado, em nível nacional, promovendo uma visão ecologista e de decrescimento econômico, “por exemplo, com a oposição a novas centrais de geração de eletricidade baseadas no carbono e em favor da redução do tempo de trabalho para redistribuir emprego e renda”. No plano internacional, enfatiza que, no contexto das negociações para a 16ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP-16), “nossa visão deve ser de impedir o pior. Devemos convencer os governos de que o Banco Mundial não tem nenhum papel a desempenhar na luta contra a mudança climática”. Segundo Passadakis, “a sociedade civil e os povos indígenas devem deixar claro que tampouco aceitarão que essa conferência aprove o plano REDD como outro instrumento de lógica de mercado supostamente útil contra o aquecimento global”.

O REDD, sigla em inglês de Programa de Redução de Emissões de Carbono Causadas pelo Desmatamento e pela Degradação das Florestas, busca calcular um valor monetário das selvas tropicais para incorporá-las aos mecanismos de mercado, como os direitos de emissão de gases-estufa.

* O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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