África cada vez com menos peso no Banco Mundial

Paris, 18/05/2010 – A reforma do Banco Mundial (BM), que aumentou o poder de voto das economias emergentes em 3,13%, pretendeu “melhorar a participação das nações em desenvolvimento e em transição”, segundo informou o organismo. Entretanto, diminuiu a dos países africanos em um terço. Dezoito Estados da África subsaariana perderam parte de sua ínfima influência no processo de decisão do BM. Nigéria e África do Sul foram os mais afetados. Seu poder de voto caiu cerca de 10%. Só aumentou o voto do Sudão, país petroleiro e cujo presidente, Omar al-Bashir, é acusado perante o Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, de cometer crimes de guerra.

Os países ricos terão 60% do poder de voto dentro do Grupo do Banco Mundial pelo menos nos próximos cinco anos e os de renda média, entre os quais potências emergentes como Brasil, China e Índia, ficaram apenas com um terço, segundo a organização britânica Bretton Woods Project. Por sua vez, as nações de baixa renda, principais beneficiários da ajuda do BM, terão apenas 6% nos diferentes órgãos, diz a organização dedicada a analisar o funcionamento de instituições internacionais de crédito.

A sociedade civil e os países mais favoráveis criticam, há tempos, a falta de representação dos beneficiários. A África subsaariana, onde são executados muitos programas para lutar contra a pobreza, tem menos de 6% do direito de voto. Em resposta às críticas, o Banco Mundial se mostrou disposto a reformar seu sistema de governabilidade para dar mais peso aos beneficiários. Na Declaração de Istambul, de outubro passado, a instituição se comprometeu em “proteger o poder de voto das nações pobres menores”.

Porém, no dia 25 de abril, quando modificou os direitos de voto, o BM aumentou a participação da China em 1,64%; Coreia do Sul em 0,58%; da Turquia em 0,55%; do México em 0,5%, e de Cingapura em 0,24%. Coreia do Sul e Cingapura são países de alta renda, enquanto México e Turquia de média e alta, segundo o critério da instituição.

A reforma reflete a mudança do produto interno bruto mundial, e beneficia as grandes economias emergentes, não as africanas de crescimento lento”, disse Duncan Green, diretor da campanha contra a pobreza da organização Oxfam, no artigo “O Banco Mundial quebra sua promessa sobre o poder de voto da África”, publicado na Internet. Também “é uma tentativa de agradar os países emergentes de maior peso, como Brasil e China, para que aumentem sua contribuição para o BM”, disse Sébastien Fourmy, especializado em instituições financeiras do capítulo francês da Oxfam.

“O fato coincide com as grandes dificuldades que a Europa tem para cumprir seus compromissos financeiros com o desenvolvimento”, disse Fourmy. “As nações europeias concordaram em reduzir seu poder de voto, mas a maioria se mantém aferrada a suas cadeiras”, acrescentou. “Naturalmente, os Estados Unidos continuam sendo o único membro com poder de veto”, ressaltou. Os votos no Banco Mundial são distribuídos segundo a proporção do PIB que cada membro tem no produto mundial.

Por sua vez, o ministro das Finanças da África do Sul, Pravin Gordhan, se mostrou decepcionado com a reforma porque diminuiu a representação dos países da África subsaariana, apesar das reclamações para melhorar a participação das nações em desenvolvimento nos processos de decisão do BM e do Fundo Monetário Internacional. “A mudança nos permite refletir melhor a nova realidade da economia mundial multipolar, na qual os países em desenvolvimento se converteram em atores fundamentais”, reconheceu o presidente do Banco Mundial, Roberto Zeollick. Mudar seu peso proporcional era “fundamental para a legitimidade” da instituição, acrescentou.

“O Banco Mundial continuará totalmente dominado pelos países ricos”, assegura um informe do Bretton Woods Project. “As nações em desenvolvimento concentram mais de 80% da população mundial e dos membros do Banco Mundial. É onde a maioria dos programas que financia é realizada e, no entanto, sua participação na governabilidade continua sendo ilegítima e antiquada”, acrescenta o documento. “Definitivamente, os fundamentos do processo de decisão foram cuidadosamente preservados”, disse Fourmy.

Além disso, “mesmo que a reforma tivesse beneficiado os membros pobres, as decisões continuariam sendo tomadas por consenso. Dos 24 países administradores que costumam tomá-las, apenas dois são da África subsaariana”, acrescentou Fourmy. “Falou-se de incluir um terceiro, mas há muito tempo não se fala nessa ideia”, disse. “Esperamos que as economias emergentes que agora têm mais direitos de voto assumam sua responsabilidade e melhorem os fundos para o desenvolvimento, mas é preciso aguardar. No momento, nenhum deles expressou algum compromisso concreto nem manifestou uma visão clara sobre seu enfoque em matéria de assistência ao desenvolvimento”, acrescentou. IPS/Envolverde

Hilaire Avril

Hilaire Avril écrit sur l'Afrique, l'actualité du Développement, et de la Société Civile et Gouvernance internationale pour IPS depuis 2008. Il partage son temps entre l'Europe (Paris, Londres) et le continent. Hilaire Avril has been reporting on Africa, development, governance and civil society for IPS since 2008. He shares his time between Europe (Paris and London) and the continent.

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