MOZAMBIQUE: Coexistir com as cheias

GABEORONE, 18/05/2010 – O mês de Abril assinala o fim da época das cheias em Moçambique. Os gestores dos recursos hídricos do país vão brevemente poder avaliar os efeitos das políticas em mudança. Todos os anos, os principais rios que atravessam Moçambique a caminho do Oceano Índico – o Pungwe, o Limpopo e o Zambeze – aumentam com as chuvas e transbordam das margens durante a época das chuvas, entre Novembro e Abril. Em 2001, as cheias mataram perto de 700 pessoas e deixaram outras 500.000 deslocadas.

Os especialistas em gestão de recursos hídricos e catástrofes que participaram num seminário para organizações que estudam bacias hidrográficas em Gaberone, nos dias 20-21 de Abril, disseram à IPS que começaram a alterar a sua análise das cheias anuais com vista a ajudar as pessoas que vivem nas zonas baixas a encontrarem uma coexistência lucrativa com a água.

“As cheias existirão sempre e chegou agora a altura de começarmos a viver com elas e de procurarmos uma forma de beneficiarmos delas,” disse Olinda Costa Sousa, directora da agência de gestão de recursos hídricos da zona sul do país – ARA-SUL (Administração Regional de Águas do Su).

Tradicionalmente, a gestão das cheias tem-se centrado na redução da ocorrência ou gravidade das cheias nas zonas onde existem populações, mas as instituições regionais responsáveis pelos recursos hídricos de Moçambique estão a explorar alternativas. O nível elevado das águas também espalha nutrientes nas planícies afectadas pelas cheias, e regeneram as zonas húmidas onde existe peixe. Isto atrai pessoas para viver perto dos rios, onde as suas casas podem estar em perigo.

“Ter a percepção que as cheias são perigosas é importante para os habitantes locais mas, ao mesmo tempo, educá-los sobre como utilizar os atributos positivos, como solos férteis e recursos piscatórios, são algumas das coisas que o governo está a tentar transmitir aos habitantes das bacias dos rios,” disse Sousa.

Sergio Sitoe, do Secretariado Interino da Comissão da Bacia do Limpopo, dá explicações adicionais. “Como medida de equilíbrio entre o aproveitamento dos efeitos positivos das cheias e a gestão dos seus impactos, o Departamento de Recursos Hídricos de Moçambique está a tentar formular planos que permitam aos habitantes das bacias hidrográficas locais coexistirem com as cheias, visto que a questão das cheias é perene.

Para garantir que as pessoas que vivem nas planícies ujeitas a cheias ao longo das bacias hidrográficas conheçam as vantagens e desvantagens da sua localização, o país criou comissões para a gestão de catástrofes a nível local, visando ajudar a educar as pessoas sobre como se podem proteger, enquanto beneficiam das vantagens existentes.

Soluções

Isto inclui encorajar os aldeões a terem duas casas – uma perto das explorações agrícolas ou das zonas usadas pare pescar ao longo dos rios, e outra numa zona mais alta que ficará acima da linha da água mesmo nos anos mais chuvosos.

Noutras áreas onde as cheias não são tão severas, os habitantes são encorajados a construirem casas elevadas que deixam a água fluir por debaixo delas sem perigo de serem arrastadas.

“Se encorajamos as pessoas a permanecerem nas zonas onde há cheias, temos de educá-las sobre a forma como devem reagir aos sistemas de alerta e como devem encontrar as rotas de fuga que podem ser usadas durante a evacuação para zonas seguras quando os níveis da água sobem,” disse Helio Banze, director da bacia Umbeluzi-Maputo.

Não existe uma solução única para organizar uma participação comunitária eficaz n gestão das cheias, cabendo também aos habitantes compreender que a sua segurança é de importância primordidal e que as cheias são muito perigosas.

Apesar de isto parecer evidente, muitas pessoas recusam-se a sair das zonas sujeitas a cheias devido a razões culturais e a crenças. “Estas são as pessoas que muitas vezes morrem devido às cheias porque ignoram por completo os sistemas de alerta”, disse Sitoe.

Um outro obstáculo à gestão eficaz das cheias é o facto de a maior parte dos habitantes considerar o seu gado um símbolo de riqueza económica, e não subir para zonas mais elevadas porque os seus animais não conseguem subir encostas íngremes,” disse Banze.

Mas o maior desafio são os habitantes que continuam a viver nas planícies sujeitas a cheias e que sobreviveram às cheias, explicou Cacilda Machava, directora da agência de gestão de recursos hídricos no rio Zambeze em Moçambique.

“Estas pessoas acreditam que podem resistir às cheias, não reagindo a quaisquer sistemas de alerta; o maior receio que os grupos de gestão de catástrofes têm é que a cheia seguinte tenha maior dimensão e as destrua.”

Marshall Patsanza

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *