Manágua, 26/05/2010 – Mais de 1,8 milhão de nicaraguenses são vulneráveis às consequências de diversos desastres naturais que frequentemente afetam o país, segundo estimativas da Defesa Civil. O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, ordenou em março às Forças Armadas a formação urgente de uma comissão permanente para organizar a nação para enfrentar os desastres naturais. O cenário de fundo da proposta foram os destruidores terremotos registrados no Haiti, em 12 de janeiro, e no Chile, em 27 de fevereiro.
O diagnóstico sobre os riscos do país indica que cerca de um milhão de pessoas que vivem na costa do Pacífico correm graves riscos de serem afetadas por um terremoto, informa a Defesa Civil no Plano Especial contra Desastres Naturais 2010, apresentado este mês a Ortega.
O general de brigada Mario Perezcassar, chefe do corpo do Exército especializado em desastres naturais, explicou à IPS que a Nicarágua foi classificada como país “multiameaça”, por seus numerosos cenários de riscos devido a terremotos, erupções vulcânicas, deslizamentos, inundações, furacões, incêndios florestais e maremotos. No país, são 483 comunidades, com 123 mil pessoas em 1,5 milhão de hectares de florestas, sob risco de incêndios florestais em época de verão, entre novembro e abril. Esta ameaça aumentou em 2007 quando o furacão Félix arrasou milhões de árvores.
O Plano Terremoto, de acordo com os cálculos dos militares, indica que 48 municípios estão em alto risco em todo o território, principalmente na região do Pacífico onde ficam as principais cidades. “São pouco mais de um milhão de pessoas aglutinadas em uma área de 427 quilômetros da área costeira do Pacífico”, disse o general. O cenário de maior risco é Manágua, que já foi arrasada pelos terremotos de 1931 e 1972, que deixaram mais de 16 mil vítimas.
A capital tem a maior concentração de pessoas do país, com mais de um milhão e meio de habitantes e gente em trânsito. A cidade é atravessada por 18 falhas sísmicas e 25% de sua infraestrutura é considerada “vulnerável e obsoleta”. Segundo o Departamento de Urbanismo da prefeitura de Manágua, as casas são as estruturas mais vulneráveis da capital. A pobreza levou ao surgimento de assentamentos humanos espontâneos, levantados sem controle das normas técnicas do Regulamento da Construção.
Estima-se que mais de 200 comunidades e bairros marginalizados, com cerca de 120 mil casas e mais de 300 mil pessoas convivendo amontoadas, estejam assentadas sobre as falhas sísmicas de Manágua. Um estudo do Sistema Nacional para a Prevenção, Mitigação e Atenção de Desastres, apresentado em janeiro, estima que um terremoto acima dos 6,9 graus na escala Richter deixaria na capital nicaraguense cerca de 30.801 mortos, 123.202 feridos e 317.304 desabrigados, além de 52.884 casas total ou parcialmente destruídas. A Defesa Civil também estima que as ameaças com maiores possibilidades de ocorrer são inundações e furacões.
O Plano Inverno 2010, que, como o Plano Terremoto, integra o Plano Especial contra Desastres Naturais 2010, começou a ser executado em maio e cobre 76 municípios com ameaças graves. Foram identificados 1.036 “pontos críticos” passíveis de inundações no país, com uma população em risco que passa de 709 mil pessoas. Das cidades estudadas, as mais vulneráveis são Manágua e as duas Regiões Autônomas do Atlântico Nicaraguense, que ficam diante do Mar do Caribe.
A capital do país, assentada em um vale rodeado por montes na margem sul do Lago de Manágua, tem 114 quilômetros em situação de risco por deslizamentos e inundações, onde ficam 76 centros habitacionais, segundo o Plano Inverno. Com relação aos furacões, são mais de 350 mil pessoas em perigo permanente em 74 comunidades nas regiões norte e sul do Caribe. O Instituto Nicaraguense de Estudos Territoriais, encarregado da Meteorologia, previu para este ano até 15 tempestades tropicais e oito furacões, dos quais quatro podem ser intensos.
Além disso, existe um plano para maremotos com 24 pontos de alto risco localizados e monitorados, bem como sistemas de alerta nos seis vulcões ativos próximos da costa do Oceano Pacífico. O cientista e ambientalista Jaime Incer Barquero disse à IPS que a Nicarágua é “um dos países mais explosivos do mundo. Fica em uma cadeia vulcânica ativa e localizada geograficamente em um corredor natural de furacões e fenômenos climatológicos que anualmente se deslocam pela costa Atlântica”.
Segundo o que Incer publicou em seu livro Desastres Naturais na Nicarágua, dos 29 maiores desastres ocorridos na América Latina e no Caribe entre 1972 e 2007, nove aconteceram neste país. Diante do litoral nicaraguense, a 150 quilômetros do Pacífico, encontram-se ativas as placas tectônicas Coco e Caribe, geradoras dos principais terremotos na América Central nos últimos 200 anos. A seu ver, essa situação é uma das possibilidades de morte mais altas de todo o mundo, considerando que a possibilidade de falecimentos por desastres naturais em um país altamente sísmico como o Irã é de uma em 23 mil contra uma em dois milhões para quem vive no Estado norte-americano da Califórnia.
Diante dos riscos, o Exército e as instituições que integram o Sistema Nacional para a Prevenção, Mitigação e Atenção de Desastres executaram 95 projetos de organização e capacitação em 145 municípios. Foram elaborados 4.236 planos de respostas e realizadas 1.200 simulações com 12 mil voluntários, 12 mil militares e uma rede de colaboração de policiais, bombeiros e pessoal médico. IPS/Envolverde

