Rio de Janeiro, 20/05/2010 – Embora o escudo financeiro da União Europeia (UE) para evitar o contágio da crise grega tenha reflexos positivos, na América do Sul não são descartados danos colaterais, sobretudo os derivados do corte fiscal decidido por Espanha e Portugal, e em estudo em outros países do bloco.
Castro disse que entre 30% e 35% da produção dos produtos básicos do bloco (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) têm como destino a UE, o segundo maior receptor depois da China, que compra 45%. A aprovação na UE, no dia 10, de um plano de resgate, que inclui um fundo de empréstimo de 750 bilhões de euros (US$ 940 bilhões) para socorrer membros em apuros, fez retroceder ao nível anterior à crise o preço das matérias-primas, que haviam registrado uma alta generalizada.
Castro disse que “esse pacote foi inicialmente positivo para o Mercosul, pois permitiu uma recomposição dos preços”. Porém, alertou para um possível contágio, inclusive fora da Europa, “se um plano desse tamanho fracassar”. Esta também é a opinião da economista argentina Marina Dal Poggetto, que não vê no momento uma incidência na economia sul-americana, além de uma flutuação da taxa de câmbio própria do nervosismo inicial causado pelos problemas gregos.
Poggetto disse à IPS que o Banco Central Europeu (BCE) atua como um “falcão” para impedir a queda das economias do bloco, ao contrário da atitude tomada por seu similar dos Estados Unidos, o Federal Reserve (FED), na crise que estourou em 2008 nesse país e que contagiou a economia global. O BCE “olha a inflação e o déficit, não o risco sistêmico”, ou seja, é “mais ortodoxo” e duro do que o FED, ao exigir reduções fiscais e ajustes em outras áreas das economias mais débeis da UE, explicou. “O risco é muito grande e os europeus não vão deixar que seu sistema financeiro entre em colapso”, ressaltou.
Os efeitos do pacote – com suas exigências de ajuste fiscal na Espanha, Grécia e Portugal – podem afetar o intercâmbio comercial com o Mercosul, pois deixará mais lento o ritmo de crescimento das economias europeias, complementou Castro. Este executivo também analisa um ângulo diferente da crise, e a respeito da Argentina. É que estourou justo quando Buenos Aires lança sua nova proposta de troca de bônus do Tesouro em mora por novos títulos, com deságio e maior prazo, para desse modo poder voltar ao mercado de capitais.
Se o “mercado financeiro internacional se fechar, a Argentina terá um problema adicional”, acrescentou Castro. O executivo entende que a Venezuela, que no passado ajudou com a compra de bônus, agora não pode fazer isso pela queda dos preços do petróleo, sua principal fonte de renda. Esse papel de financista da economia argentina poderia ser ocupado pelo Brasil, devido ao seu alto nível de reservas internacionais, que já chegam a US$ 250 bilhões, equivalentes a 16% de seu produto interno bruto. Mas é uma decisão política difícil de concretizar em um ano de eleição presidencial.
Fernando Cardim, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também coincide com Castro em que o plano europeu já surtiu efeito no curto prazo na região. O mais óbvio é a recuperação das bolsas de valores e do câmbio “na medida em que acalmou os especuladores”, disse à IPS. Em um cenário negativo, o economista acredita que poderia haver semelhanças com o início da crise global em meados de 2008, quando Brasil e Argentina “sofreram o impacto do retorno de capitais aos seus países de origem” para recuperar prejuízos.
Por sua vez, a secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, alertou para o fluxo dos investimentos estrangeiros diretos, que podem ser afetados se a crise grega contagiar o resto da União Europeia. Em uma entrevista no Chile, antes do anúncio do pacote da UE e do plano de ajuste espanhol, Bárcena se referiu em particular ao efeito sobre os setores de telecomunicações, bancário e elétrico, onde a presença europeia, especialmente espanhola, é muito importante para a região.
Cardim concorda que a Espanha é o limite da tranquilidade para a América do Sul. Afirmou que se a crise chegar a esse país, “deveremos começar a nos preocupar”, mas considera que essa probabilidade é “pequena”. Quem parece ainda menos preocupado é o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega. Ele disse a jornalistas que o país está em melhor situação fiscal do que a maior parte dos membros da UE, apesar de admitir que a crise pode ter impacto leve nas exportações brasileiras para esse bloco.
Explicou que o elevado nível de reservas dá uma blindagem à economia brasileira contra turbulências financeiras internacionais. As divisas em seus cofres superam a dívida pública, que gira em torno dos US$ 200 bilhões, enquanto o superávit comercial projetado oficialmente para esse ano é de US$ 20 bilhões, acrescentou Castro, ao enumerar os dados econômicos positivos do Brasil. “Uma crise tem de ser muito grande para afetar o Brasil”, disse Mantega.
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES), Luciano Coutinho, foi mais longe em seu otimismo. A crise europeia até poderia ter um “bom efeito”, pois moderaria o crescimento econômico brasileiro e com isso afastaria o fantasma de um foco inflacionário, disse ao jornal O Globo. O “reaquecimento da economia”, com crescimento previsto nos últimos dias de 7% para 2010, pode aumentar o ritmo inflacionário, que no começo do ano era projetado em 4,5% para este ano e já precisou ser elevado para 5,5%. IPS/Envolverde


