Investimento estrangeiro se recupera na América Latina

Santiago, 07/05/2010 – Os fluxos de investimento estrangeiro direto (IED) para a América Latina e o Caribe, que haviam caído 42% em 2009 devido à crise econômica mundial, aumentarão entre 40% e 50% este ano, segundo projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Mas, estas entradas são consideradas de “baixa qualidade”. A região recebeu no ano passado US$ 76,681 bilhões, longe dos históricos US$ 131,938 bilhões de 2008, diz o informe anual “O IED na América Latina e no Caribe 2009”, apresentado esta semana em Santiago.

No mundo, o IED caiu pelo segundo ano consecutivo. Desta vez o retrocesso foi de 39%, disse a Cepal. A secretária-executiva da organização, a mexicana Alicia Bárcena, disse que “as perspectivas de crescimento da região, as tendências de longo prazo dos fluxos e a informação preliminar” fazem prever que as correntes de IED podem crescer entre 40% e 50% este ano, voltando a superar os US$ 100 bilhões. “Cremos que a América Latina continua sendo um destino muito importante destes fundos, por ter matéria-prima e seus preços estarem em alta”, acrescentou.

Bárcena reconheceu, no entanto, a preocupação da Cepal pelo complexo momento que vivem alguns países da União Europeia, como a Grécia, que teve de ser socorrida por seus sócios no bloco com US$ 146 bilhões para atenuar seu déficit fiscal. “Se a crise grega se espalhar para Espanha, por exemplo, poderá haver um impacto muito forte no investimento estrangeiro direto que chega à América Latina”, disse Bárcena, que expressou sua esperança de que “seja contido o contágio”.

Por outro lado, a representante desta agência da Organização das Nações Unidas alertou que três quartos dos valores dos novos projetos de IED em manufatura, anunciados para a região, estão dirigidos a atividades de “intensidade tecnológica baixa e média-baixa”. Além disso, “o IED destinado a projetos de pesquisa e desenvolvimento continua sendo escasso”, diz o documento de 232 páginas.

“Isto mostra as dificuldades que a região ainda apresenta, não só para atrair investimentos em alta tecnologia ou para realizar tarefas de pesquisa e desenvolvimento, mas também para inserir-se nos elos de alto valor agregado das cadeias globais de produção”, acrescenta o texto.

Em conversa com a IPS, o diretor da Divisão de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial da Cepal, Mario Cimoli, explicou que, “quando alguém investe em setores de alta tecnologia, o faz em áreas que geram valor agregado, que podem pagar melhores salários e que reforçam a densidade produtiva e a capacidade tecnológica de um país”. Isto é, “ajudam a fomentar o crescimento e o desenvolvimento dos países”, enfatizou o especialista, o que exige uma série de políticas da parte dos governos, como incentivos focados para atrair IED de qualidade e formação de capital humano.

Entrando em detalhe do ocorrido em 2009, o documento da Cepal diz que a renda externa para investimentos na América do Sul caiu 40%, enquanto os destinados a México e Caribe diminuíram 45%. O Brasil continuou sendo o maior receptor da região, com US$ 25,949 bilhões no ano passado, 42% a menos do que em 2008. Em seguida aparecem Chile (US$ 12,702 bilhões), México (US$ 11,417 bilhões), Colômbia (US$ 7,201 bilhões) e Argentina (US$ 4,895 bilhões).

Os maiores investidores em 2009 foram Estados Unidos, com 37%, Espanha 9% e Canadá 7%. O setor de serviços continua como primeira atração desses capitais, seguido das manufaturas e dos recursos naturais. Outros 10% são responsabilidade das multinacionais latino-americanas, conhecidas como translatinas.

Precisamente, no período analisado também os fluxos de investimento direto procedentes da própria região registraram uma drástica diminuição de 69%, somando US$ 11,387 bilhões, queda explicada pela desaceleração do investimento brasileiro. O Chile, com US$ 7,983 bilhões, é o país que mais investiu no exterior e não só na América Latina e no Caribe, seguido do México com US$ 7,598 bilhões, Colômbia com US$ 3,025 bilhões e Venezuela com US$ 1,8 bilhão.

As maiores translatinas são, por ordem de importância, Petrobras, com vendas de US$ 101,948 bilhões no ano passado, e a Petróleos de Venezuela com US$ 68 bilhões. Em seguida, aparecem Itaú-Unibanco, do Brasil; a mexicana América Móvil e a mineradora brasileira Vale.

O informe da Cepal também analisa o desempenho das indústrias automotivas e siderúrgicas na América Latina e no Caribe diante da crise econômica internacional surgida em 2008 nos Estados Unidos. As políticas públicas contracíclicas implementadas por países como o Brasil, que produz 51% do aço na região, e México, com 27%, conseguiram mitigar os efeitos da conjuntura internacional, concluiu o organismo. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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