Oposição foge da censura pela Internet

Bangcoc, 05/05/2010 – Em seu escritório no andar térreo de um prédio de apartamentos na capital tailandesa, Chiranuch Premchaiporn analisa as alternativas para evitar novamente a censura. Enquanto isso, o governo parece chegar a um acordo com a oposição política para sair da crise que consome o país. A primeira vez foi em 7 de abril, quando Chiranuch teve bloqueado o site de notícias em língua tailandesa, o prachatai.com, no qual trabalhavam 12 pessoas. Mas no dia seguinte a equipe conseguiu continuar difundindo seu conteúdo político a partir de outro lugar da rede.

A segunda vez ela teve bloqueada a página de fanáticos da organização, criada há seis anos, que tinha na rede Facebook. “Tivemos de recorrer a um servidor proxy (intermediário) para continuar colocando informação no Facebook”, disse a diretora-executiva da prachatai.com. “É pouco prático, mas nos acertamos”, acrescentou. Chiranuch se converteu em um símbolo da luta pela liberdade de expressão nesta monarquia constitucional da Ásia, mas sob tutela das Forças Armadas desde o golpe de Estado militar de 2006.

A opositora Frente Unida para a Democracia e contra a Ditadura reclama, desde março, a dissolução do parlamento e a organização imediata de eleições gerais. O enfrentamento com o governo afundou o país em uma crise política que já causou vários mortos. O primeiro-ministro, Abhisit Vejjajiva, apresentou esta semana um plano para sair da crise que foi aceito pelos chamados “camisas vermelhas”, apesar de serem contra a data de 14 de novembro proposta para as novas eleições e decidirem desocupar progressivamente o luxuoso distrito comercial de Bangcoc onde estão entrincheirados.

Por sua vez, Chiranuch está disposta a despistar a censura. “Se bloquearem nosso domínio, conseguiremos um novo. Inclusive enviaremos informação por e-mail, mais difícil de censurar”, afirmou a diretora da prachatai.com, de 43 anos. É preciso ter muito valor para falar dessa forma no contexto da iniciativa do governo de deter o fluxo de informação pela Internet. A censura foi instalada depois de decretado o estado de emergência em Bangcoc e outras províncias vizinhas, no dia 7 de abril. O prachatai.com foi um dos 36 sites bloqueados pelas autoridades em uma tentativa de deter a divulgação de conteúdos da Frente Unida.

A censura aumentou conforme o movimento de protesto ganhou mais pessoas em sua mobilização em Bangcoc, desde meados de março. Outros 190 sites foram bloqueados em uma segunda ofensiva contra a oposição. No final de abril, já eram 420. A maioria dos sites censurados tinha uma posição semelhante à da Frente Unida, não a do prachatai.com, conhecido por criticar os sucessivos governos tailandeses desde 2004. Se transformaram em veículos da retórica antigovernamental e mostravam todo dia vídeos de manifestações em Bangcoc.

Os meios de comunicação favoráveis à Frente Unida divulgam versões diferentes das do governo sobre o ocorrido com os manifestantes que ocuparam as ruas da capital e acabaram violentamente reprimidos nos dias 10 e 11 de abril. A repressão deixou cerca de 30 mortos e milhares de feridos. O mais problemático para o governo são as imagens que já circulam sobre a ofensiva militar contra partidários da Frente Unida, dentro de suas camisas vermelhas, e que contradizem a versão oficial dos canais de televisão estatais e grandes jornais oficialistas.

“As mensagens contra o governo na mídia são preocupantes”, disse o porta-voz, Panitan Wattanayagorn, para justificar a censura atual. “Especialistas em segurança analisam a mídia para ver como afetam nossa segurança nacional”, acrescentou. A coalizão liderada pelo Partido Democrático, de Abhisit, que governa há 16 meses, criou um centro para organizar a censura após decretar o estado de emergência. A situação complica a divulgação de informação, reconheceu Kokaew Pikulthong, dirigente da Frente Unida.

A falta de liberdade de expressão preocupa ativistas. “É claro que o governo teme a Internet”, disse Supinya Klangnarong, a vice-presidente da Campanha por uma Reforma Popular da Mídia, com sede em Bangcoc. Mais de 6.200 sites foram bloqueados nos últimos dois anos por insultarem a família real, segundo defensores da liberdade de imprensa. Mais de quatro mil são vigiados por detetives informatizados por seus comentários contra a monarquia.

Há duas leis que forçam os tailandeses a permanecerem calados. A mais antiga, a draconiana lei contra o crime de lesa majestade, prevê pena máxima de 15 anos de prisão para quem se atrever a manchar a imagem da monarquia. A segunda, sobre crimes na Internet, pode deixar alguém preso por cinco anos por uma única transgressão. O futuro de Chiranuch, do site prachatai.com, é complicado devido a uma mensagem que apareceu em seu site em 2008. Se for declarada culpada, passará muitos anos na prisão. IPS/Envolverde

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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