PORTO PRÍNCIPE, 19/05/2010 – (Tierramérica).- Os paineis fotovoltaicos aparecem timidamente no Haiti, junto às luzes da rua, em uma demonstração do uso que se pode fazer do Sol em um país com severos problemas energéticos.
O Haiti tem, em média, seis horas de sol diárias na temporada seca, quase igual à cidade de Phoenix, considerada a mais ensolarada dos Estados Unidos. Mesmo na época de chuva, esse potencial não é muito menor. Aproveitar um recurso abundante e gratuito como este para gerar energia pode parecer óbvio neste país caribenho, o mais pobre da América, que depende de combustível importado, pois não possui petróleo e foi despojado de árvores, em parte para a produção de carvão.
Para tornar o óbvio uma realidade, os jovens haitianos Jean-Ronel Noel e Alex Georges puseram mãos à obra há cerca de seis anos, após se formarem em universidades do Canadá, o primeiro em Engenharia e o segundo em Administração de Empresas. Assim nasceu a Energias Renováveis S/A (Enersa), a primeira empresa haitiana a produzir módulos fotovoltaicos e luzes de baixo consumo para vias públicas. A ideia ocorreu a um amigo comum cuja “lâmpada mental” acendeu quando estava parado, junto com Noel, sob um farol vermelho.
Além dos benefícios da energia limpa, a iniciativa tem por finalidade empregar e capacitar jovens. Estima-se que o desemprego no Haiti seja de 70% a 80% da população economicamente ativa, enquanto o salário médio é de apenas US$ 5,5 por dia. “Aqui não criamos apenas equipamento solar, mas cidadania. As pessoas precisam sentir que têm futuro no país”, disse Noel ao Terramérica. A empresa começou graças a um projeto de pesquisa e desenvolvimento em uma incubadora de empresas, possibilitando que alugasse um local a preço baixo por três anos. Esse apoio veio da organização não governamental Haitian Partners for Christian Development (Sócios Haitianos para o Desenvolvimento Cristão), localizada no bairro de Varreux, na capital.
Apesar dos distúrbios políticos de 2005 e 2006, que os forçaram a fechar temporariamente, em setembro de 2009 superaram o apadrinhamento e se mudaram para sua sede atual, moderna, que ocupa quase 930 metros quadrados nos arredores de Porto Príncipe. A empresa, que diz ter faturado apenas US$ 40 mil em 2007, projeta para este ano um volume de vendas de US$ 2 milhões. Seus clientes são o governo, organizações não governamentais e o setor privado nacional. A Enersa instalou, até agora, cerca de 500 farois solares em aproximadamente 60 localidades, ao preço unitário de US$ 1,4 mil. Mas seu objetivo de longo prazo é colocar 35 mil lâmpadas em 500 municípios.
No estacionamento da fábrica são conservados, como lembrança da tragédia, os escombros da destruição causada pelo terremoto de 12 de janeiro em Porto Príncipe e arredores, que deixou mais de 220 mil mortos e prejuízos de US$ 7,8 bilhões. Todos os empregados da Enersa saíram ilesos, mas uma parede externa e todas as salas internas foram destruídas. Apesar de tudo, na noite desse dia muitos farois da Enersa continuaram iluminando.
“Antes que aparecessem as organizações de assistência estrangeiras, as pessoas montaram seus próprios acampamentos de refugiados em torno dessas luzes na rua”, disse ao Terramérica Richard J. Komp, da empresa norte-americana Skyheat Associates. Komp é especialista mundial em energia solar e funcionou como mentor de Noel e Georges. Três meses depois do terremoto, a Enersa ressurgiu das cinzas, reconstruiu o prédio, voltou a produzir e espera ampliar sua oferta de produtos. Seus 22 funcionários são principalmente homens jovens da vizinha Cité Soleil. A maioria tem pouco estudo e é treinada na empresa. Não fosse este emprego, suas únicas opções seriam o tráfico de drogas ou integrar uma gangue criminosa.
Noel explica que a Enersa é a única fabricante de farois solares de rua no Haiti, embora haja outras duas empresas que os distribui. Os tubos de aço e as lâminas de metal para sua elaboração são comprados de fornecedores nacionais. Komp ensinou o pessoal da Enersa a fabricar seus próprios módulos fotovoltaicos, os paineis solares que transformam a luz solar em eletricidade, com componentes importados dos Estados Unidos. A Enersa também produz seus próprios “inversores simples”, dispositivos usados para controlar a voltagem dos circuitos de recarga de telefone celular.
A inovação mais recente é uma caixa presa à parte inferior do poste de luz contendo tomadas especiais. Neles as pessoas podem recarregar seus celulares, vistos por toda parte no Haiti. No último Natal, a empresa entregou motocicletas a quatro trabalhadores que se destacaram. As barulhentas e prateadas motos circulam pela cidade como exemplo de uma possibilidade de vida decente no Haiti.
* O autor é correspondente da IPS.


