Nova York, 03/05/2010 – “Você nunca sofrerá de uma doença como câncer ou úlcera se beber leite de égua”, afirmou Anna Postnikova, uma das participantes da sessão do Fórum Permanente da Organização das Nações Unidas para Questões Indígenas, que terminou no dia 30, pedindo mais ajuda para as comunidades aborígines. Para os que confiam nos tratamentos da medicina ocidental, a afirmação pode causar suspeitas.
Mas Postnikova, médica da região russa da Sibéria, está convencida de que muitos problemas de saúde podem ser facilmente curados com remédios tradicionais. “Os métodos tradicionais de tratamento podem salvar milhões de vidas”, afirmou em entrevista à IPS, durante a nona sessão do Fórum da ONU, realizado na semana passada. Larinova Varvara, que ensina música tradicional a crianças da Sibéria, concordou com a médica. A medicina tradicional não é a única forma de curar doenças, acrescentou. “Uma pessoa enferma também pode ser curada com canto e dança”, afirmou.
As duas garantiram que não se pode levar uma vida saudável sem aprender a viver em harmonia com a natureza, o que é impossível quando se trata o ser humano como uma mercadoria ou como um objeto. “Minha música fornece elementos que melhoram a saúde”, disse Varvara, que toca “humoso”, instrumento utilizado para tratamentos emocionais e físicos na Sibéria. “Em minha música todos os sons são únicos e visam a harmonizar os seres humanos com a natureza”, explicou.
Cientistas especializados em mudança climática e biodiversidade começam a se dar conta da importância que têm os conhecimentos tradicionais sobre plantas e animais para entender como preservar os recursos naturais. “A conservação da natureza está no centro dos valores e das culturas tradicionais”, disse Ahmed Djoghlaf, secretário-executivo do Convênio das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, onde se reconhece o significado do conhecimento tradicional e se pede urgência na adoção de medidas para sua promoção.
Porém, por acaso atuam de modo consequente os Estados que assinaram o tratado? A resposta de dezenas de artistas, curandeiros e músicos de diferentes partes do mundo foi um magnífico “não”. “Pagamos pela nossa viagem”, disse Alexandra Grigorieva, antropóloga e presidente da Yurta Mira, uma organização não governamental que preserva tradições e culturas autóctones da Sibéria. Grigorieva disse que foi muito difícil para sua comunidade participar do Fórum por falta de dinheiro. A organização para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) entregou, em 2005, aos yakut da Sibéria um prêmio por sua contribuição ao patrimônio mundial.
Representantes de outros povos também mencionaram preocupação porque a falta de dinheiro impede que possam trocar opiniões e ideias com governantes e ativistas em encontros internacionais. “O financiamento sempre é um problema para participar do Fórum da ONU”, disse à IPS o dirigente indígena norte-americano Arthur Manuel. “É caro viajar e viver em Nova York”, acrescentou. As comunidades autóctones vivem em condições de extrema pobreza, apesar de agora se expressarem em numerosos fóruns internacionais, diz o rascunho de um estudo feito pelo Banco Mundial e divulgado no mês passado.
Os indígenas representam 5% da população mundial, porém, mais de um terço é pobre, segundo declaração do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Aproximadamente cinco mil povos indígenas vivem em 70 países, de acordo com o Banco Mundial. “Nossa gente precisa de ajuda porque nossa economia não está centrada no dinheiro”, disse Manuel. “Alguns nos consideram pobres. Embora o sejamos em termos econômicos, temos culturas ricas e estreitamente relacionadas à terra”. Os dirigentes indígenas reclamaram das nações ricas e industrializadas que concedam mais recursos ao Fórum para viagens.
Faz pouco tempo que os indígenas norte-americanos recebem dinheiro para viajar, disse Manuel. Antes, os doadores “consideravam que tínhamos recursos suficientes. Isso não é verdade. As comunidades indígenas da América do Norte que lutam para proteger suas terras e sua cultura não têm dinheiro suficiente para participar do Fórum”, acrescentou. Grigorieva criou um museu na Sibéria, com escassos recursos, para divulgar o trabalho da ONU e informar as comunidades autóctones sobre as iniciativas mundiais para proteger seus direitos. Mas isso é feito de baixo para cima. IPS/Envolverde

