Pressão política, a fórmula para defender o clima

La Paz, 17/05/2010 – Passar da mobilização para a pressão política sobre os líderes dos países industrializados é a fórmula escolhida pelo movimento ambientalista 350.org para reduzir o aquecimento global, explicou sua cofundadora, a norte-americana Kelly Blynn, em entrevista à IPS.

Ativista Kelly Blynn. - Franz Chávez/IPS

Ativista Kelly Blynn. - Franz Chávez/IPS

Blynn, especialista em Meio Ambiente e Geografia, viajou à Bolívia para fortalecer a seção local da organização e impulsionar movimentos juvenis que assumam a luta contra a mudança climática como prioridade.

O número 350 representa as partes por milhão que cientistas especializados em mudança climática, como o norte-americano James Hansen, consideram o limite máximo seguro de concentração de dióxido de carbono (CO²) na atmosfera, para a vida do planeta. Blynn defende que os jovens tenham participação própria na 16ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-16), que acontecerá em Cancún, no México, em novembro. Também dá força à iniciativa de “um dia de soluções locais para a mudança climática”, marcado para 10 de outubro em nível mundial.

No ano passado, em uma jornada semelhante foram realizadas 5.245 atividades diferentes em 181 países, graças a uma rede de milhares de organizações em todo o mundo, para as quais 350 se converteu em um lema unitário.

IPS: Quais lições tirar da mobilização de 2009?

KELLY BLYNN: Nosso maior êxito foi colocar o número 350 como meta científica da sociedade civil e como representação de sobrevivência. Estamos organizando para 10 de outubro um dia de realização de projetos comunitários como plantar árvores, apresentar paineis de educação, organizar passeios de bicicleta e promover o uso de paineis solares. Queremos passar uma mensagem política e fazer uma transição para um futuro sustentável, chamando a atenção dos líderes políticos e pedindo para que façam algo. Em meu país queremos incidir para que o governo adote alguma ação, porque nosso governo não quer mudar. Vimos na COP-15, de dezembro em Copenhague, que 115 nações apoiaram as medidas contra a mudança climática, mas os países com maior poder não ouviram. É importante dedicar mais tempo e campanhas para estes países e criar uma pressão política.

IPS: Como surgiu o movimento e quais são os alcances do projeto?

KB: Nasceu como um grupo de pessoas e organizações de diferentes partes do mundo, dispostas a gerar um movimento global para fazer pressão sobre os políticos. Em 2007, o cientista James Hansen, junto com outros pesquisadores, publicou um relatório, após examinar as geleiras e o Ártico, alertando que havíamos passado do nível limite de emissões de dióxido de carbono (CO²) e sugerindo que 350 partes por milhão deveria ser o limite na atmosfera. Assim, deveríamos fazer algo rapidamente. Em 2008, tomamos este número e depois contatamos vários grupos e decidimos organizar esta mobilização mundial. Pensamos que ao concentrar a ação em um único dia teríamos mais impacto. A existência da rede global ajudou muito a pressionar Washington e a mostrar que há pessoas interessadas em salvar o planeta em todos os países do mundo.

IPS: Por que o poder não ouve os pedidos para enfrentar as causas da mudança climática?

KB: O fundador da 350.org e docente da Universidade de Middlebury, dos Estados Unidos, Bill McKibben, escreveu, em 1988, o livro “O fim da natureza” e vários artigos sobre a mudança climática, mas estava cansado porque não via resultados. Formamos um grupo de estudantes e junto com McKibben unimos esforços e começamos uma campanha nacional para pressionar o Congresso a participar dos programas de redução das emissões de carbono. Junto com outras entidades, em 2007 realizamos duas mil atividades para pedir ao Congresso a redução em 80% das emissões de carbono até 2050, e pré-candidatos à Presidência, como Barack Obama e Hillary Clinton, incluíram esta meta em seus programas.

IPS: Por que o presidente Obama não pode traduzir sua proposta em ações?

KB: É difícil saber as razões. Creio que não há vontade política no Congresso e Obama sabe disso. Creio que não fizeram da mudança climática uma prioridade e, se não o fizerem, o movimento juvenil ficará decepcionado porque estará perdida a esperança que o levou à Casa Branca.

IPS: A que se deve o poder crescente das indústrias com alto grau de contaminação?

KB: Nos Estados Unidos, este ano uma decisão da Suprema Corte deu mais poder às corporações para influírem na política, tornando difícil a ação da sociedade civil, mas na Austrália e em outras nações há correntes que começam a ganhar força a favor das campanhas ambientais. As corporações são grupos importantes e as multinacionais têm mais poder do que os próprios governos.

IPS: Na Bolívia, o governo responsabiliza o capitalismo pela contaminação. O que diz a respeito?

KB: Concordo que o capitalismo causou muitos problemas, mas um sistema muito grande não muda da noite para o dia. O que fazemos por meio da 350.org e nossos aliados é gerar consciência entre as pessoas para uma mudança no modo de vida. Acabar com o consumismo é uma prioridade no momento. A mudança deve vir das bases, partir das comunidades e ser projetada para um crescimento sustentável e sem emissões excessivas de carbono. IPS/Envolverde

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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