Genebra, 25/06/2010 – O engenheiro e empresário Raj Rajendran foi a Ruanda fechar uma fábrica têxtil em 1990, mas descobriu condições agroclimáticas propícias para cultivar bicho-da-seda e foi o começo de uma grande empresa.
Com tenacidade, Rajendran criou, em dez anos, a marca Silk Hills, que leva o rótulo “Made in Rwanda” (Fabricado em Ruanda). A companhia exporta produtos de seda e algodão para Canadá e Estados Unidos, entre outros países, e é a empresa privada que mais contrata no país. “O empresário indiano demonstrou que é possível conseguir mudanças em um país africano, por meio do intercâmbio econômico e de conhecimentos com grandes Estados em desenvolvimento como Brasil, China e Índia”, disse Gore, responsável pelo informe anual da Unctad “Cooperação Sul-Sul: África e novas formas de associação para o desenvolvimento”, divulgado no dia 18.
O documento confirma que China e Índia são os principais motores do comércio e dos investimentos das nações africanas. “Maior intercâmbio de bens e produtos e investimentos entre os países em desenvolvimento, com redução das barreiras comerciais, poderia representar benefícios reais em matéria de emprego e renda”, disse à IPS, em Genebra, a assessora da organização humanitária Oxfam, Isabel M. Mazzei.
“Também pode servir para melhorar as relações políticas entre os Estados e diminuir a dependência das nações industrializadas”, acrescentou Mazzei. Entretanto, “devido às grandes diferenças entre as economias, não é desejável liberalizar o comércio Sul-Sul”, alertou. “O grande desafio para os governantes é encontrar o equilíbrio adequado entre liberalização e proteção de setores vulneráveis como o agrícola e a indústria incipiente”, acrescentou.
Cada vez se reconhece mais que a cooperação Sul-Sul, que acelera os investimentos e o comércio entre as grandes nações em desenvolvimento, como Brasil, China e Índia, com os países africanos, pode facilitar a transferência de tecnologia e conhecimentos, disse o secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi, na apresentação do informe. As grandes economias do Sul devem ir além do comércio e dos investimentos e criar um novo clima econômico e social, e reverter a histórica tendência da África de ser vendedora de produtos agrícolas e matéria-prima e compradora de mercadorias, afirmou Supachai.
“Creio que haverá uma mudança de modelo nos próximos anos com a crescente ajuda ao desenvolvimento que flui dos principais países do Sul para a África, estimada em US$ 2,8 bilhões em 2006”, disse Supachai à IPS. A China também aumentou a ajuda a esse continente no último ano, acrescentou. Há uma corrente subjacente que muda gradualmente o cenário do comércio Sul-Sul, diz o informe de 116 páginas. O comércio entre as nações africanas e os grandes países emergentes aumentou para US$ 283 bilhões em 2008, contra US$ 34 bilhões em 1995. Por outro lado, o comércio da África com as nações ricas aumentou de US$ 138 bilhões para US$ 588 bilhões no mesmo período.
“A maior participação das nações em desenvolvimento no comércio da África levou a um menor intercâmbio com sócios tradicionais da Europa e América do Norte”, diz o informe. “Houve crescimento nos intercâmbios comerciais entre os países em desenvolvimento e os africanos, mas a tendência continua sendo as importações superarem as exportações, acrescenta. As potências emergentes não africanas são as grandes investidoras nesse continente, o que possibilita a criação de novos bens econômicos, como fábricas e outros projetos de infraestrutura.
Contudo, os autores do documento alertam que a maior presença chinesa não deve ser considerada como um assunto exclusivo desse país e da África, mas como parte de uma tendência geral em intensificar as relações do Sul com esse continente, particularmente com os grandes países emergentes. Os países africanos devem adotar uma posição ativa, planejar projetos econômicos de longo prazo e fazer valer suas próprias necessidades internas nas negociações dos acordos de cooperação com outras nações em desenvolvimento, insiste o informe. Além disso, devem se concentrar em desenvolver sua própria “capacidade produtiva” para elaborar uma variada gama de produtos com maior valor agregado, acrescenta. IPS/Envolverde


