SIERRA GORDA, México, 29/06/2010 – (Tierramérica).- Na Sierra Gorda mexicana é testado um modelo de proteção da riqueza natural que terminaria com a pobreza humana.
A comunidade fica na Reserva da Biosfera Sierra Gorda, na parte norte do Estado de Querétaro, o local de maior diversidade de ecossistemas do país. Em seus 384 mil hectares, um terço de Querétaro, a Reserva abriga ecossistemas diversos – semideserto, floresta de névoa, floresta temperada e selvas baixas, entre outros –, distribuídos entre 350 e 3.100 metros de altitude. Ali habitam 360 espécies de aves, 130 de mamíferos – entre eles seis felinos, como o jaguar (Phantera onca) –, 71 de répteis, 23 de anfíbios e 2.308 espécies de vegetais.
A região foi recuperada graças ao impulso de Martha Ruiz Corzo, professora de música, e de Roberto Pedraza Muñoz, seu marido e contador público, que fundaram, em 1987, o Grupo Ecológico Sierra Gorda, encarregado de administrar a Reserva. O esforço de 23 anos, que envolveu toda a família, conseguiu a adesão de fundações privadas e agências internacionais, como o Fundo para o Meio Ambiente (GEF) que, por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), contribuiu com US$ 6,7 milhões entre 2001 e 2009.
A gestão local permitiu obter renda de US$ 4 para cada dólar entregue pelo GEF para desenvolver um modelo de manejo entre o governo e a sociedade civil de uma área natural protegida, único no México. Graças à organização civil Floresta Sustentável, filial do Grupo Ecológico Sierra Gorda, foram colocados no mercado internacional certificados de mais de 28 mil toneladas de dióxido de carbono – principal gás-estufa –, absorvido mediante reflorestamento de áreas degradadas de floresta.
A renda é destinada ao financiamento de projetos da Floresta Sustentável, mas o objetivo é que o dinheiro seja usado para pagar as comunidades para protegerem a área. A equipe liderada por Martha Ruiz, diretora da Reserva, desenvolve Unidades de Retorno Social do Investimento (SROI), que combinam indicadores econômicos, sociais e ambientais para estimar os benefícios das ações.
A intenção é criar “certificados de saúde planetária para a bolsa de valores”, que incluam a proteção da biodiversidade e o combate à pobreza, explicou Martha Ruiz ao Terramérica. “Precisamos que as pessoas locais recebam pagamento por conservarem”, acrescentou, e para isso é necessária uma “aliança” com as comunidades de extrema pobreza. “Como pedir para manter e conservar se são os mais afetados do planeta?”.
As alterações no regime de chuvas e as secas dos últimos anos propiciaram o ataque do caruncho descascador, do visgo e da broca contra carvalhos (gênero Quercus), zimbros (Juniperus) e pinheiros (dez espécies do gênero Pinus) em cerca de 27 mil hectares, um terço da área florestal da Reserva. “São florestas debilitadas pelo estresse climático”, afirmou Roberto Pedraza Ruiz, chefe técnico da Reserva.
As pragas não são as únicas ameaças para Sierra Gorda, protegida pelo governo federal em 1997, e proclamada, em 2001, Reserva da Biosfera Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A Comissão Federal de Eletricidade (CFE) há quatro anos gerencia a compra de terrenos para instalar uma rede elétrica de 47,5 quilômetros para levar energia de San Luis Potosí até Guanajuato, dois Estados vizinhos de Querétaro.
“As consequências seriam incontáveis. Para começar, uma em cada três espécies de anfíbios estaria em perigo”, disse Roberto Pedraza. A lei de proteção de áreas naturais proíbe redes elétricas nestes locais. Mas a CFE insistiu em duas oportunidades com a proposta, rejeitada pela administração de Sierra Gorda. Integrantes da organização de moradores Conselho Cidadão de Sierra Gorda asseguram que a CFE continua tentando comprar terrenos e inclusive pagou por alguns.
No México, mais da metade dos 107 milhões de habitantes vive com menos de US$ 5 por dia. Apesar de 80% das florestas serem propriedade comunitária, a posse da terra não está bem documentada e os terrenos são muito pequenos para dar acesso a mercados globais. Por isso, em Sierra Gorda são poucas as propriedades comunitárias que recebem pagamento por serviços ambientais, que variam entre US$ 18 e US$ 27 ao ano por hectare conservado.
A intenção é que todos os habitantes de Sierra substituam a exploração de madeira, a pecuária e a agricultura, que eram as únicas atividades da região, por serviços ambientais. Para isso foi proposta a criação de um fundo estatal que pague compensações aos proprietários pelos serviços ambientais de suas florestas. “Precisamos que tirem o gado da floresta, que mantenham locais para os animais beberem água, que realizem saneamento de pragas e que haja uma ativa vigilância civil”, disse ao Terramérica o subdiretor da Floresta Sustentável, Mario Pedraza Ruiz, especialista em alternativas pecuárias ambientalmente amigáveis.
O mais jovem da família Pedraza Ruiz está convencido de que conservação e pecuária são compatíveis. “Confine os animais, eles fazem suas necessidades, e com os pés quebre a camada de solo que está aplainada por suas pisadas, raspe, lavre, e nesse território não voltam a pisar até que se recupere”, descreveu.
Duas comunidades, Landa de Matamoros e Arroyo Seco, iniciaram um pastoreio controlado mediante cercas elétricas, que permite recuperar a forragem. Ali também se desenvolve uma forragem hidropônica, cultivada sem terra. “A pecuária é parte do entendimento cultural dos habitantes das comunidades, ainda que tenham duas vacas magras. É impossível mudar a mentalidade das pessoas, e nesses casos, e melhor fazê-lo bem”, disse Mario Pedrazza.
* Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org).


