PUNTA DEL ESTE, Uruguai, 01/06/2010 – (Tierramérica).- Como nos estádios de futebol, na África do Sul joga-se outra partida renhida e de resultado imprevisível, entre projetos de eficiência ambiental e outros contaminantes
A primeira Copa Mundial da Fifa na África deixará uma pegada de carbono mais de oito vezes superior à da edição anterior, de 2006 na Alemanha, segundo estudo feito em fevereiro do ano passado a pedido do governo da África do Sul e da embaixada da Noruega nesse país. O transporte local, a construção de estádios e o uso de energia nesses recintos e nos serviços de alojamento emitirão em conjunto 896.661 toneladas de dióxido de carbono. Outras 1.856.589 toneladas deste gás-estufa, principal causador do aquecimento global, serão resultado das viagens internacionais.
Para diminuir estas emissões e conscientizar os sul-africanos e os visitantes sobre assuntos como a eficiência energética, Pretória implementa dois projetos com apoio do Fundo para o Meio Ambiente (GEF). Em 2008, começou a ser melhorado o transporte público de passageiros de sete das nove cidades que são sedes do Mundial, que começará no dia 11 de junho, como forma de aliviar o elevado uso de automóveis particulares entre a população de rendas média e alta.
O aporte monetário do GEF para esta iniciativa, que é executada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), se aproxima dos US$ 11 milhões, enquanto o investimento nacional é superior a US$ 328 milhões. Entre as principais mudanças estão a criação de um sistema de trânsito rápido para ônibus e a circulação de bicicletas, embora estas últimas sejam muito limitadas e também não esteja claro em que grau os motoristas de automóveis aceitarão a mudança cultural que implica dividir ônibus, assentos e rotas com passageiros pobres.
Aproveitando esta conjuntura esportiva que mobiliza grandes investimentos internacionais, “a ideia é deixar uma melhoria definitiva do sistema de transporte público das cidades” sul-africanas, disse ao Terramérica Marcel Alers, assessor técnico principal para a Mitigação da Mudança Climática do Pnud. Alers participou, entre os dias 24 e 28 deste mês, da Quarta Assembleia Mundial do GEF na cidade turística uruguaia de Punta del Este, onde a experiência sul-africana foi bem-vinda. Outro projeto ambiental relacionado ao Mundial, de quase US$ 10 milhões, busca reduzir o consumo de energia em seis sedes, com a instalação de paineis solares e luzes eficientes nas ruas, nos semáforos e nas propagandas, além de ações de conscientização pública.
Entretanto, a vocação ambiental da África do Sul e dos organismos internacionais ficou em xeque com a aprovação em abril de um crédito do Banco Mundial (BM) em torno de US$ 3 bilhões para construir nesse país uma central elétrica alimentada a carvão, que estará entre as maiores do mundo. A decisão do BM de apoiar o projeto Medupi, da estatal sul-africana Eskom, gerou críticas do governo dos Estados Unidos e de alguns países europeus – que se abstiveram na votação do organismo – por seu potencial para agravar a mudança climática.
Ativistas denunciaram que esta central vai lançar na atmosfera 25 milhões de dióxido de carbono por ano. O diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, tentou amenizar as críticas. Não se pode julgar um país por uma decisão voltada para as urgentes necessidades da população sul-africana, afirmou.
Entretanto, a África do Sul não é o único caso. O Brasil, que vai sediar a Copa de 2014, pretende organizar o torneio “mais ecológico” da história, segundo as autoridades, que exigirão certificação ambiental para conceder financiamento aos projetos de reforma e construção de estádios. O avanço em planos de transporte mais limpo e promoção de produtos orgânicos também está previsto, afirmam as autoridades. Porém, o goleiro aposentado da seleção uruguaia, Fernando Alvez, convidado para a Assembleia do GEF, disse ao Terramérica que o Brasil deveria frear o desmatamento da Amazônia como verdadeiro sinal ambiental antes de realizar o Mundial.
O ex-diplomata Raúl Estrada Oyuela, presidente da Academia Argentina de Ciências do Meio Ambiente, afirmou ao Terramérica que “uma infraestrutura para emitir menos quantidade de gases-estufa e educar a população durante o Mundial da África do Sul são duas coisas boas”. “Daí a contribuir realmente para solucionar o problema ambiental vai uma grande distância”, acrescentou o argentino, que disse não ter aceitado, em 2007, uma proposta para dar assessoria na reforma do sistema de transporte da África do Sul diante da falta de dados básicos.
“Brasil, África do Sul, China e Índia (que se uniram para enfrentar as negociações internacionais sobre mudança climática) têm uma atitude teórica que até agora não incide nos dados de gestão ambiental”, acrescentou Oyuela, ex-presidente do comitê que elaborou o Protocolo de Kyoto e membro do organismo controlador do seu cumprimento.
Entretanto, as iniciativas “verdes” associadas ao futebol não cessam. A multinacional de artigos esportivos Nike anunciou que as nove seleções às quais fornece uniformes, entre elas Brasil, Portugal e Holanda, usarão camisas confeccionadas com material reciclado, na razão de oito garrafas plásticas para cada uniforme. No final do ano, será feita uma análise crítica dos projetos ecológicos realizados na África do Sul para o Mundial, com a finalidade de identificar o que funcionou e o que não funcionou, prometeu o GEF.
* A autora é correspondente da IPS.


