Buenos Aires, 14/06/2010 – Ninguém admite seu apoio a eles, mas centenas de “barrabravas” da Argentina viajaram à África do Sul para a Copa do Mundo de futebol, e ameaçam com distúrbios caso os dirigentes do futebol não forneçam ingressos para os jogos. Estes grupos de fanáticos são a expressão violenta dos torcedores argentinos de futebol, com capacidade para pressionar dirigentes políticos, esportivos e jogadores, em troca de seu incentivo nos jogos ou em atos público-partidários.
Mais de 300 destes torcedores estão na África do Sul. Doze foram deportados por crimes cometidos na Argentina, por meio do uso do direito de admissão pelas autoridades sul-africanas. Um deles, condenado por tentativa de homicídio, estava em liberdade condicional e saiu do país sem maiores problemas, ao que parece porque as autoridades de fronteira não receberam a respectiva comunicação do juiz, embora outras versões falem em corrupção.
Muitos dos que ficaram na África do Sul não têm ingressos e ameaçam com distúrbios se não conseguirem as entradas. Um dirigente esportivo admitiu ao jornal argentino Clarín que, para evitar “problemas sérios”, é preciso dar ingressos a eles. Sergio Danishewsky, sociólogo e jornalista esportivo, disse à IPS, da África do Sul, que o fenômeno destes torcedores “é muito complexo” e “foi se garantindo” sem que ninguém se anime a desarticulá-los.
“Primeiro crescem como força de choque, se acertam com a direção para apoiar técnicos ou jogadores e colaborar no processo eleitoral. Em troca, manejam espaços de poder econômico como a venda de ingressos, estacionamento perto dos estádios ou passagens de aviões”, assegurou Sergio. “Depois, são agregados os vínculos políticos, cresce o poder, a influência, ganham protagonismo como fator de pressão e é cada vez mais difícil que sejam desmantelados”, assegurou. Os líderes ostentam hoje boa posição econômica e têm advogados caros.
O governo nega que dá apoio. A direção esportiva e o corpo técnico da seleção, dirigida por Maradona, também rechaçam qualquer vínculo. Para o sociólogo Diego Murzi, da Universidade de Buenos Aires, os torcedores organizados agem desde os anos 60 e, na época, a violência era exercida em defesa “da equipe contra os adversários, enquanto agora se transformaram em clãs que buscam posições de poder e se movimentam com fins econômicos”.
Na medida em que o futebol cresceu como negócio, “os ‘barras’ passaram a reclamar maior pedaço desse bolo. O “barrabrava” é um ator do universo do futebol que tem um enorme poder não institucional, à margem do sistema”, disse Murzi. O que surpreende hoje é que cresceu o número deles com capacidade de viajar para assistir a Copa do Mundo na África do Sul, acrescentou. Também, como no passado, são vinculados a funcionários do governo e dirigentes partidários, especialmente do governante Partido Justicialista.
“Sempre houve um punhado de “barrabravas” que ia a campeonatos mundiais apelando para seus contatos nos clubes, mas desta vez viajou um contingente”, disse Murzi, que qualificou como “um marco” a existência de uma relação “evidente” com o Estado. Murzi se referia a uma “organização não governamental” criada em novembro, chamada Torcedores Unidos Argentinos, que prometeu levar 500 simpatizantes à África do Sul para convertê-los em “líderes sociais” trabalhando a favor da comunidade.
O grupo, liderado por Marcelo Mallo, fez publicidade nos estádios a favor do ex-presidente Nestor Kirchner, marido da atual mandatária, Cristina Fernández, e possível candidato à sua sucessão em 2011. Entretanto, o chefe de Gabinete, Aníbal Fernández, rechaçou esse vínculo e considerou “uma catástrofe” a criação dessa organização. Reiterou que o governo “não financiou” fanático algum para viajar à África do Sul.
Mallo, dirigente do grupo Compromissos K e que admite conhecer Fernández de sua militância política e como frequentador do Clube Quilmes, levou mais de 240 torcedores à África do Sul, que estão alojados em uma escola. Dali voltou a negar que tenha apoio governamental ou recebido dinheiro público em troca de publicidade política nos estádios, mas não explica como financia seu grupo.
Organizações não governamentais que trabalham contra a violência no futebol argentino contabilizam 249 mortes relacionadas a esse esporte desde 1924 e acusam a direção política, esportiva e a polícia de apoiar os torcedores violentos. As associações pediram à justiça que investigue como fanáticos com processos judiciais viajaram à África do Sul, bem como seus eventuais vínculos com o oficialismo e a fonte de financiamento da viagem, estimada em US$ 2,7 milhões.
A não governamental Salvemos o Futebol acredita que Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol Argentino e primeiro vice-presidente da Fifa, é um dos que amparam estes grupos há décadas. Grondona nega. “A relação deles com Maradona e Carlos Bilardo(o coordenador da seleção) nasceu em 1986”, disse Grondona este mês, referindo-se às gestões de ambos para que 60 torcedores viajassem ao México quando a Argentina venceu o Mundial disputado nesse país.
Desde então, os “barras” viajam para os mundiais, mas este ano foram tantos que ultrapassaram o protagonismo dos jogadores. Maradona negou tal relação, enquanto Bilardo chegou a admitir vínculos com alguns, alertando que não poderia conseguir os ingressos, após o dirigente do Boca Juniors e chefe da delegação argentina na África do Sul, Juan Crespi, envolvê-lo. “Eles estão aqui todos os dias, perguntam por Bilardo, dizem que ele prometeu ingressos, e Bilardo nos diz para consegui-los, mas não sei como”, disse Crespi ao jornal argentino Clarín.
O psicólogo Marcelo Roffé e o jornalista José Jozami compilaram um livro, apresentado este mês em Buenos Aires, intitulado “Futebol e Violência: Olhares e Propostas”, que revela a complexidade das relações sociais nesse esporte. “O livro surgiu para reduzir o número de mortes dentro e fora dos estádios”, disse Roffé à IPS. Para o psicólogo, a violência “não diminuirá enquanto se mantiver a conivência entre ‘barrabravas’, policiais e dirigentes”, e acrescentou que estes torcedores são “apenas a ponta de uma matriz social muito mais complexa”, criada pela corrupção. IPS/Envolverde

