Dolorosos relatos de mulheres chinesas em livro

Londres, 08/06/2010 – Em um país como a China, onde é costume exorcizar fantasmas do passado, pouquíssimas pessoas compreendem tão bem como a escritora Xinran a importância de preservar a história oral.

Xinran, escritora chinesa, autora de Message from an Unknown Mother. - Antoaneta Becker/IPS

Xinran, escritora chinesa, autora de Message from an Unknown Mother. - Antoaneta Becker/IPS

Como jornalista, que na década de 80 trabalhou para um canal de televisão reservado que se contrapunha à infiltração da mídia ocidental na China, Xinran conheceu histórias que os dirigentes do Partido Comunista preferiam ler apenas em boletins internos. Como mulher, conheceu relatos pessoais transmitidos de mãe para filha em uma cultura confuciana machista.

Agora, conhecida no estrangeiro como escritora chinesa que reside na Grã-Bretanha, Xinran resiste em ser considerada uma intelectual dissidente. Mas seus livros não podem ser publicados na China, porque se enchem de dolorosas histórias pessoais que não aparecem nos meios de comunicação locais. Desafiando tabus políticos e sociais, ela se atreve a incentivar as pessoas a se oporem à poderosa máquina estatal.

Durante a viagem para divulgar seu livro mais recente, “Message from an Unknown Mother” (Mensagem de uma Mãe Desconhecida), que reúne histórias de mulheres que perderam suas filhas por infanticídio ou abandono, a IPS entrevistou Xinran.

IPS: A senhora parece atribuir a decisão de muitas famílias de matar ou abandonar suas filhas à “preferência pelo homem”, característica da cultura confuciana. Que incidência tem sobre essa situação a política de filho único imposta há 30 anos? Seria ela responsável por muitas mortes e por haver mais de 120 mil órfãos na China, a maioria meninas que acabam sendo adotadas por estrangeiros?

XINRAN: Muitos acreditam que essa situação é culpa da política de filho único, mas é apenas parte do problema. A população rural chinesa tem uma cultura silenciosa na qual se fala pouco e há muita ação. É muito difícil compreender o que ocorre além das ações superficiais. Uma vez intercedi por uma camponesa cujo marido a tratava quase como se ela fosse uma escrava sexual e a agredia porque não teve filho homem. Nessa noite, sua mãe colocou veneno de rato na minha comida. Ao ser interrogada pela polícia, a senhora me acusou de ser uma “mulher ignorante da cidade” e de arruinar as possibilidades de sua filha ter um herdeiro. Os camponeses chineses têm arraigada a crença de que uma “boa” mulher dever parir um homem ou não terá futuro.

IPS: Quando foram encontrados 21 bebês e fetos em um rio nos arredores de Jining, no leste da China, a imprensa oficialista atribuiu o fato a “práticas antiquadas” e de outra época. A senhora concorda?

XINRAN: Definitivamente, não. Fiz minha própria investigação. Todos os bebês mortos tinham uma espécie de pulseirinha do hospital de Jining nos pés. Tiveram aquele destino porque nasceram com deformidades ou porque violavam a política de filho único. Nas cidades do leste da China, a lei é aplicada de forma draconiana.

IPS: A política de planejamento nacional em vigor funcionou em todo o país?

XINRAN: Nunca deixou de haver oposição. A lei foi adotada pelo Partido Comunista em 1979, mas foi promulgada em 2001. Durante anos se impôs a política sem apoio do parlamento. A implementação foi desigual. Há muita corrupção e, nos últimos tempos, quem pode burla a lei.

IPS: Fala-se muito sobre os desequilíbrios de gênero na China e que uma das consequências da política de filho único é que milhares de solteiros não podem encontrar noiva. Que incidência tem isso sobre as pessoas?

XINRAN: Os filhos únicos são muito mimados e protegidos em excesso. Não têm senso de responsabilidade, são imaturos e têm a vida moldada desde muito pequenos. Devem cumprir as expectativas familiares, ser excelentes estudantes e aprender a serem muito competitivos. Mas não têm liberdade para refletir sobre muitas coisas nem desobedecer. Tampouco sabem tomar decisões ou lidar com situações difíceis. A juventude da China me preocupa.

IPS: Ao ler suas histórias de perdas e mortes de entes queridos, alguém pode perguntar como faz para suportar a condição de depositária desses relatos orais.

XINRAN: Estava tão deprimida na China que tive de partir. Aqui tenho pesadelos, mas escrever me permite compartilhar esses sentimentos. IPS/Envolverde

Antoaneta Becker

Antoaneta Becker is IPS’s senior China writer. After twelve years of field reporting in China, in 2010 Antoaneta relocated to the U.K. where she covers China’s interactions with the outside world, the new paradigms of E.U.-China-Africa relations, China’s attempts to forge a new development model and the country’s impact on global markets for commodities. Antoaneta studied at Beijing University—China’s most prestigious academy—obtaining a bachelor’s and a master’s degree in Chinese contemporary literature and film. She has reported on China for IPS, USA Today, The Economist Intelligence Unit, Outlook magazine and others. Fluent in Mandarin, Antoaneta has travelled extensively in greater China researching topics from environmental degradation to the overhaul of the country's state industries, the reform of the welfare system and the country’s increasingly large regional footprint.

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