ÁFRICA: Exportações sem limite arruínam o desenvolvimento

Genebra, Suíça, 29/07/2010 – O livre comércio de recursos naturais poderia causar sérios estragos no meio ambiente e no desenvolvimento da África, alertam especialistas. Muitos países africanos seguem a estratégia de exportar todas as matérias-primas que podem, já que não competem no campo da manufatura nem de serviços, explicou à IPS o diretor do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), Mark Halle, ao comentar o Informe de Comércio Mundial 2010. O IISD é um instituto de pesquisa com sede em Genebra dedicado, entre outros temas, ao comércio e aos subsídios internacionais.

O informe, apresentado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) no dia 23, diz que pesca, silvicultura, combustíveis e mineração representaram 24% do comércio mundial em 2008. Os combustíveis significam três quartos deste intercâmbio e tiveram um rápido crescimento desde 2000. O comércio dentro da África continua em níveis extremamente baixos, enquanto a maioria das exportações do continente segue sendo de matérias-primas, em particular as relacionadas com energia. As regiões ricas em recursos naturais vendem, em sua maioria, para nações industrializadas. Em 2008, as exportações de matérias-primas africanas somaram US$ 408 bilhões, dos quais 86% foram de combustíveis.

Para Michele Ruta, da divisão de pesquisa econômica da OMC, o setor dos recursos naturais é mais afetado pelas regulamentações sobre exportações do que pelas aplicadas à importação. Os grandes exportadores, em geral, impõem restrições quantitativas e impostos às vendas ao exterior, enquanto as tarifas de importação nos países mais avançados são baixas, afirmou. “A maior atenção da OMC se volta para a redução das tarifas sobre importações, mas no caso dos recursos naturais não é o grande tema. Poucos países aplicam impostos à importação de petróleo, por exemplo”, disse Joost Pawelyn, professor de Direito Internacional no Instituto de Pós-Graduação para Estudos Internacionais e de Desenvolvimento, com sede em Genebra.

“As restrições à produção, os impostos sobre exportação e o consumo são medidas que não violam as disposições da OMC, mas algumas são prejudiciais e ineficientes”, acrescentou Michele. “Um organismo comercial como a OMC deveria fazer algo a respeito. O livre comércio é mais importante nos recursos naturais do que em outros setores”, afirmou. No entanto, Mark alertou para os perigos de liberalizar ainda mais as exportações. “As nações em desenvolvimento são forçadas a reduzir suas tarifas de importação por diferentes rodadas de comércio e perdem suas fontes de renda pública. Devem tentar se compor, e é isso o que fazem os impostos sobre as exportações”, disse à IPS.

“Esses gravames levam a uma ineficiência econômica? Sim, provavelmente, mas a resposta não é exportar mais recursos naturais para compensar a perda de renda, ao que podem estar tentados, porque isto trará problemas ambientais”, alertou o diretor do IISD. “O que procuram? Melhor desenvolvimento na África ou máxima eficiência comercial?”, perguntou. Segundo o informe da OMC, políticas internas, como os impostos sobre consumo, as normas técnicas e os subsídios, são amplamente usadas por países exportadores. Para Mark, os subsídios são um caso particular. A maioria não afeta o comércio. “Porém, é o melhor uso do dinheiro?”, questionou. Por exemplo, os combustíveis fósseis são subsidiados em vários países africanos. Os governos fixam um preço para a gasolina, e se o preço do mercado for mais alto pagam a diferença.

“A questão é o que o governo tenta fazer. Na maior parte do tempo a resposta é: tenta se reeleger. Entretanto, se a intenção é melhorar o transporte, então o dinheiro deve ser investido em transporte público para ajudar os mais pobres que não têm carro. Os subsídios beneficiam apenas a classe média, na maioria dos casos”, explicou Mark. Portanto, o dinheiro que um país precisa para a saúde e a educação é destinado em subsídios para a classe média, de uma maneira que promove a energia à base de carvão.

“É uma estratégia muito ruim. E não é um problema apenas africano. A União Europeia e os Estados Unidos fazem o mesmo. Os subsídios são quase sempre determinados por considerações políticas”, finalizou Mark. O informe da OMC também assinala que os recursos naturais sofrem uma alta volatilidade de preços. “Há muita conversa sobre a volatilidade de preços, mas a volatilidade de renda também é importante”, disse à IPS Claudine Sigam, encarregada de projetos da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) sobre otimização de recursos naturais na África.

Um dos perigos da excessiva dependência nos recursos naturais é a chamada “enfermidade holandesa”, explicou Claudine. Na década de 70, uma surpreendente descoberta de gás na Holanda causou uma onda de investimentos que elevou o valor da moeda local, encarecendo as exportações e deixando menos competitivo o setor manufatureiro. Um importante ponto da “enfermidade holandesa” é o tempo que transcorre ente a descoberta do mineral e o momento em que começa a entrar dinheiro, disse Claudine. Entre a assinatura dos primeiros contratos e o início do pagamento de impostos pelas companhias estrangeiras, o lapso de tempo é de sete anos, afirmou. Envolverde/IPS

Isolda Agazzi

Isolda Agazzi is a journalist with IPS, covering the United Nations, the WTO and international affairs. She lives in Geneva, where she also writes for Swiss and other international media in English, French and Italian. She holds a master’s degree in international relations and for more than 15 years has worked in international cooperation for donor agencies and NGOs, mainly in Switzerland and North Africa. She has taught in several universities, in Italy and elsewhere.

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