LIBÉRIA: Mulheres liberianas no Centro do círculo

MONROVIA, 20/07/2010 – Vivian Howard é uma mãe solteira que cozinha e limpa como qualquer outra mulher na Libéria – mas, na sua vida profissional, é responsável por 22 homens fortes e atléticos. A primeira e única mulher árbitro na Libéria licenciada pela FIFA, Howard está em pé de igualdade com os homens da Libéria.

Existe a percepção – especialmente na comunidade internacional – que, num país governado pela primeira mulher presidente eleita, as mulheres na Libéria estão a tomar a iniciativa em todos os aspectos.

É verdade que há mais ministras no governo de Ellen Johnson-Sirleaf do que em qualquer outra altura no passado, que foi aprovada legislação que protege e promove os direitos das mulheres, e que foram concedidas a algumas mulheres oportunidades na vida que nunca tinham conhecido antes.

No entanto, as mulheres ainda se encontram no patamar mais baixo da sociedade. São os membros mais vulneráveis da comunidade em termos de acesso à educação, à saúde e à justiça.

Isto torna a figura de Vivian Howard, que assume o controlo de um jogo amigável no Estádio de Antoinette Tubman em Monrovia envolvendo algumas das estrelas da Libéria que normalmente vivem no estrangeiro, ainda mais impressionante.

“Sinto-me muito feliz quando estou no campo,” disse Howard. “Sinto-me como um homem, apesar de ser mulher. Mas o desafio é esse: o que os homens fazem, também posso fazer. Por isso, estou aqui para encorajar outras mulheres árbitro a fazerem o que eu faço.”

Os que os homens fazem, as mulheres podem fazer – ouve-se frequentemente isto na Libéria. Depois de 14 anos de guerra civil, os liberianos votaram em Johnson-Sirleaf e as mulheres em todo o lado encontram hoje a energia para avançarem nas suas vidas.

Howard vive a 40 minutos de automóvel do Estádio Antoinette Tubman, passando por um longo e poeirento caminho que acaba numa pequena habitação de betão protegida do sol por uma enorme mangueira.

A vida de mãe solteira não é fácil. Não recebe qualquer apoio do pai da filha, Blessing, e está totalmente dependente do seu rendimento de árbitro. A Associação de Futebol Liberiana paga-lhe perto de 90 doláres americanos por mês.

“Na Libéria chamamos a essa situação viver da mão para a boca,” disse, “porque, quando se recebe…é preciso ir ao mercado comprar comida e tomar conta da família.”

Howard não deixa que nada disso a iniba quando controla um jogo com futebolistas que jogam em várias ligas. Muitos dos jogadores que participam no jogo fazem uma rara visita a casa, voltando a familiarizarem-se com o país que envida grandes esforços para completar a transição para a paz após 14 anos de guerra civil.

David Gbemie, que joga nos Bolton Wanderers na Liga Inglesa, só visitou o país pela segunda vez depois de ter sido contratado pelo clube inglês há oito anos, quando tinha 13 anos.

“Mete medo, pensei que ainda se vivia uma situação de guerra e era uma loucura. Mas está tudo normal, é como se estivesse a viver em Manchester!”

Os liberianos ficam encantados por verem com os seus próprios olhos os melhores jogadores. Gbemie é uma grande celebridade em Yekepa, a terra natal no distrito de Nimba.

“Não consigo dormir porque as pessoas dormem à volta da minha casa à espera que eu saia. É surpreendente. Coisas que não se passam na Inglaterra acontecem aqui, o que é uma loucura.”

O mais conhecido jogador da Libéria, George Weah, agora aposentado, foi possivelmente o melhor jogador africano no início da década de 90, tendo ganho o prémio de Jogador Africano do Ano três vezes e sido reconhecido como Jogador Mundial do Ano da FIFA em 1995.

A selecção nacional, conhecida como Lone Star, nunca atingiu o mesmo patamar, mas muitos têm grande esperança nela na sequência da nomeação do antigo treinador da Hungria, Bertalan Bicskei, como treinador nacional.

Anthony Laffor, um ponta de lança dos campeões do Super Sport United da Liga Sul Africana, pensa que chegou a altura de a Libéria estabelecer a sua reputação no cenário mundial de futebol.

“[Os adeptos] querem realmente que alguma coisa aconteça no país. Vocês sabem que, desde que George Weah e os outros rapazes se foram embora, os adeptos dizem que não fizemos nada. Penso que chegou a altura de lhes devolvermos alguma coisa. Aplaudem quer à chuva quer ao sol, mas penso que desta vez nos podemos qualificar para a Taça Africana das Nações em 2012.

Para Vivian Howard, o reconhecimento internacional não significa apenas mais dinheiro para a equipa masculina, mas também mais dinheiro para os árbitros e ainda para o futebol feminino.

“Só quero exortar os outros árbitros femininos, porque o que posso fazer elas também podem fazer. E algumas podem fazer melhor do que eu, por isso peço-lhes que venham ao jogo, porque não estou aqui só como Vivian, estou aqui a representar a Libéria.”

Tamasin Ford

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