Bulawayo, Zimbábue, 15/07/2010 – “As pessoas costumavam rir de mim. Diziam que eu disputava os ossos com os cães, mas isso não me desanimava”, disse, sem sinal algum de rancor, Sibongile Mararike, uma zimbabuense de 36 anos. Esta mãe de quatro filhos, com uma suja sacola no ombro, percorre as ruas dos populosos bairros de trabalhadores em Bulawayo, a segundo maior cidade do Zimbábue, com dois milhões de habitantes.
Ela visita de lixões a casas particulares, recolhendo ossos que depois vende para uma fábrica processadora. Neste país da África austral, é comum, há anos, a reciclagem de ossos em uma grande variedade de indústrias informais. Diante da crise econômica, muitos zimbabuenses foram para as ruas recolher ossos para vender. Para eles, o tempo de bonança agora se mede com a quantidade de restos ósseos que caem das mesas de outras casas. No entanto, os ossos desapareceram nos últimos anos, já que o consumo de carne se tornou quase um luxo.
Sibongile aprendeu o quanto pode ser dura a vida neste país, apesar da euforia gerada pela formação do governo de unidade em 2009. As esperanças de novos empregos se desfizeram. Agências humanitárias alertaram que a quantidade de zimbabuenses que precisam de ajuda alimentar aumentará este ano para metade da população. “Não queria que meus filhos soubessem da pobreza onde vivem, mas não há nada a fazer. Não quero recolher ossos, mas cada centavo que consigo com eles faz diferença”, explicou Sibongile. Esta mulher também manda os filhos recolherem ossos depois da escola. “Agora estão acostumados, pois sabem que o dinheiro vem dali”, disse.
Sibongile mantém contato com algumas famílias que ainda se dão ao luxo de comer carne, que guardam os ossos e ela vai buscar uma ou duas vezes ao mês, dependendo de quanto pesam. Ela deve cumprir uma cota de ossos por peso para levar à fábrica recicladora. Apenas umas poucas empresas como esta permanecem em Bulawayo. A queda no consumo de carne fez com que menos pessoas se dedicassem a esse tipo de coleta. “Já não vem tanta gente aqui vender ossos como no final dos anos 90”, disse Topson Mwale, veterano empregado de uma fábrica.
Para cada quilo de ossos são pagos pouco mais de US$ 0,30. Os restos ósseos são submetidos a um processo no qual se desmancham e depois são transformados em copos, chaleiras e pratos, entre outras coisas, explicou Topson. Os cascos de vaca são considerados aqui uma delícia gastronômica. Sua venda também gera renda para muitos comerciantes informais, como Gift Ncube, de 29 anos, que parece poder reciclar tudo o que chega a suas mãos e transformar em objetos úteis e atraentes.
“Recolho cascos de vaca em casas e bares do meu povoado e transformo em curiosidades, como saleiros, caixas para rapé, ou chaveiros, entre outras coisas”, descreveu Gift. “Esses objetos são atraentes para os turistas”, disse à IPS de seu local de trabalho na porta da Prefeitura de Bulawayo, onde ele e outros comerciantes estão instalados de maneira permanente.
Japhet Tshuma, colega de Gift, tem um título universitário, mas ganha mais trabalhando com estes artesanatos do que em um emprego formal. “As pessoas não acreditam que essas coisas sejam feitas com casaco de vaca. Conseguimos uma forma de vida vendendo ossos de mortos”, disse ironicamente, acrescentando que, às vezes, faz a longa viagem até o balneário de Victoria Falls para vender seu artesanato.
O prédio da Prefeitura se converteu em centro para turistas e curiosos. Comumente se vê mochileiros observando de perto os produtos. “Claro que explicamos do que são feitos, e isso causa mais interesse”, disse Japhet. Embora inconscientemente, as poucas famílias que podem comprar carne asseguram um sustento a pessoas como Sibongile, Japhet e outras.
“Os zimbabuenses aprenderam que não há nada que não possa ser vendido. Vender ossos é uma das muitas coisas que demonstram o desespero das pessoas”, disse Peter Sifelani, da Associação de Comerciantes Informais de Bulawyao. IPS/Envolverde

