Unctad “esquece” ameaças reais para agricultores da África

Berlim, 01/07/2010 – O último informe da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) a respeito de ciência e tecnologia repete o chamado a uma “revolução verde” na agricultura da África, mas não menciona os perigos reais do comércio e do contexto financeiro internacional para os produtores desse continente. No informe “Melhorando a segurança alimentar na África por meio da ciência, da tecnologia e da inovação”, esta agência da ONU alerta que a África subsaariana tem muitas possibilidades de não alcançar o primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de erradicar a fome e a pobreza extrema até 2015.

A região estaria impossibilitada de alcançar essa meta devido às suas ineficazes técnicas agrícolas e às pouco econômicas práticas aplicadas depois das colheitas. Para evitar esse fracasso, a Unctad quer que seu secretário-geral, Supachai Panitchpakdi, chame por “uma nova revolução verde para a África”, não baseada em modelos estrangeiros, mas “construída sobre a base da tecnologia e dos conhecimentos aborígines, bem como sobre as necessidades nutricionais e de segurança alimentar de seu povo”.

Esta revolução deveria considerar “as capacidades dos milhões de pequenos agricultores africanos para enfrentar a variabilidade climática do continente. Construir capacidades para a ciência, a tecnologia e a inovação relevantes para a agricultura é o único caminho”, destaca o informe. Para a Unctad, uma revolução verde deve, ao mesmo tempo, responder aos desafios globais atuais, como a adaptação à mudança climática e à queda geral dos investimentos no setor agrícola, além de atender as novas demandas, como a necessidade de bioenergia.

Além disso, prossegue o informe, a futura agricultura africana deveria resolver as limitações estruturais, particularmente as dificuldades de acesso ao crédito para parte dos agricultores locais, que determinam a capacidade de “enfrentar os crescentes preços da terra, das sementes e de outros insumos”. Para cumprir esses objetivos, as políticas deveriam focar nos pequenos produtores, que demonstram ser efetivos na hora de contribuir com o crescimento econômico e com a segurança alimentar.

Os agricultores de pequena escala constituem mais da metade da população na maioria dos países em desenvolvimento. Suas fazendas são, em geral, administradas de maneira eficiente e gozam de significativo potencial de crescimento, destacaram os autores do trabalho. Embora bem intencionado, o informe da Unctad é “outra coleção de sugestões nada inovadoras”, disse Uwe Hoering, especialista alemão em comércio e agricultura, para o boletim mensal World Economy and Development, publicado em Luxemburgo.

Segundo Hoering, a Unctad intencionalmente esqueceu de mencionar que as piores ameaças à agricultura africana residem no contexto internacional criado pelo setor agroindustrial multinacional, em instituições como o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio e nas políticas agrícolas e comerciais do Norte industrializado. “Os maiores inimigos dos pequenos agricultores da África são o setor agroindustrial, os preços instáveis dos alimentos nos mercados mundiais, causados pela especulação, e os chamados acordos de livre comércio”, disse o especialista à IPS.

“O setor agroindustrial domina a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia para a agricultura”, disse Hoering. “Todos esses fatores levam a agricultura local e mundial na direção oposta à pedida pela Unctad: para as monoculturas e para mais patentes privadas de sementes e de outros insumos agrícolas caros”. O informe dessa agência das Nações Unidas tampouco faz referência a problemas como a chamada “apropriação de terras”, isto é, a compra ou o arrendamento maciços de grandes áreas cultiváveis em muitos países africanos por empresas estrangeiras e fundos estatais.

Esta prática é considerada prejudicial para os pequenos produtores da África subsaariana e para a soberania alimentar do continente. Pelo fato de a Unctad simplesmente ignorar esses fatores reais, seu informe não oferece “argumentos convincentes e nem uma visão verdadeiramente promissora de um ponto de retorno para a agricultura africana”, disse Hoering. O informe é “uma coleção de sugestões arbitrárias, que tentam se fazer passar pela realidade”, acrescentou. As críticas de Hoering coincidem com as de outros especialistas e ativistas da Europa.

Em um informe conjunto, os escritórios alemães das organizações humanitárias Oxfam e Food First Information and Action Network (Fian) queixaram-se de que, três anos após o começo da crise alimentar, o “setor agroindustrial nos países industrializados, com ajuda de governos, continua impulsionando poderosamente a liberalização dos mercados de alimentos e a aceitação da agricultura geneticamente modificada”.

O estudo, intitulado “Sem fronteiras e barato”, demonstra que a indústria alimentar dos países do Norte aproveita a paralisação das negociações comerciais internacionais para avançar em acordos bilaterais com nações do Sul, e assim ter acesso a novos mercados para seus alimentos. Oxfam e Fian criticaram os governos europeus por continuar apoiando as exportações de bens agrícolas para países do Sul, particularmente com destino à África.

“Em lugar de promover as exportações de alimentos, o mundo industrializado deveria aprovar o comércio justo”, disse à IPS a especialista em agricultura do escritório alemão da Oxfam, Marita Wiggerthale. “Quando a Europa exporta bens agrícolas para os países mais pobres do mundo, especialmente na África, não ajuda os africanos. Muito pelo contrário, essas exportações ocupam o lugar da produção local”, ressaltou.

Uma das principais lições a se aprender com a crise alimentar internacional é que os países em desenvolvimento, em particular os mais pobres da África, “necessitam incrementar sua produção alimentar local e romper sua dependência dos mercados mundiais. Os países em desenvolvimento também precisam proteger melhor seus mercados das importações”, disse Wiggerthale.

A Unctad não mencionou nenhum desses fatores. Por outro lado, o documento inclui 12 recomendações, sendo a principal a de colocar os “pequenos produtores no centro das políticas para que a pesquisa agrícola, o desenvolvimento e os serviços atendam suas necessidades reais”. IPS/Envolverde

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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