DESTAQUES: Agonizam as águas do Atitlán

GUATEMALA,, 20/07/2010 – (Tierramérica).- O que já foi um belo lago azul rodeado por vulcões, hoje se encontra em meio a toneladas de produtos contaminantes e proliferação de bactérias tóxicas.

As chuvas da tempestade Agatha arrastaram lodo, pedras e lixo para o Lago Atitlán, na Guatemala - Cortesia Prolago

As chuvas da tempestade Agatha arrastaram lodo, pedras e lixo para o Lago Atitlán, na Guatemala - Cortesia Prolago

“Agora não vêm tantos turistas, e quase todos os hoteis estão vazios”, diz Rosa Rosales, empregada do Hotel Pa Muelle, às margens do Lago Atitlán, na Guatemala, um tesouro nacional assediado pela contaminação. “O Lago tem boa vista e a água é bem azul”, descreveu Rosa ao Terramérica, mas os turistas não confiam, reconheceu esta empregada de um dos 281 hoteis em volta do Lago, no departamento de Sololá.

Segundo a Câmara de Comércio de Panajachel, o município com maior infraestrutura hoteleira às margens do Atitlán, mais de 60% das reservas para o final de ano foram canceladas por causa do aparecimento da cianobactéria Lyngbya hieronymusii nas águas. O Atitlán é um dos principais pontos turísticos deste país, e atrai 20% dos visitantes estrangeiros, segundo o Instituto Guatemalteco de Turismo. A perda de visitantes é uma das principais consequências que a contaminação desta joia natural, de aproximadamente 125 quilômetros quadrados, deixa para agricultores, artesãos e pescadores dos 11 municípios que margeiam o Lago e dele vivem.

“Desde o surgimento da cianobactéria, a venda de pescado baixou muito porque as pessoas pensam que é tóxica”, informou ao Terramérica Juan Chocoy, da Associação de Pescadores Artesanais Chajil Ch’upup (guardiões do tul, em idioma maia tzutuhil), de San Juan La Laguna. As duas espécies de tul (taboa, Typha dominguensis e junco, Scirpus californicus), que crescem nas margens do Atitlán e ajudam a oxigenar suas águas, quase desapareceram porque sua fibra foi explorada para fabricar sombreiros, cestas e outros produtos.

Em outubro de 2009, a superfície do Lago foi coberta por um manto marrom produzido pelo esgoto das áreas povoadas e por resíduos usados na agricultura. Os cientistas identificaram a cianobactéria, uma alga que se alimenta de fósforo e nitrogênio, capaz de produzir toxinas que afetam peixes, crustáceos, plantas aquáticas e os humanos que têm contato com a água. A notícia causou a mobilização do governo, de ambientalistas e moradores em busca de soluções. Porém, nove meses depois, a situação não melhora.

A tempestade tropical Agatha piorou a conjuntura no final de maio, porque “arrastou lama e pedras para o fundo do Lago. Não encontramos formas de trabalhar porque os peixes se dispersaram e não encontram onde desovar”, lamentou o pescador. “A Agatha deixou o Lago em uma situação mais crítica porque os sedimentos levaram grande quantidade de nutrientes”, que servem de alimento à cianobactéria, disse ao Terramérica a diretora-executiva da não governamental Amigos do Lago de Atitlán, Anna D’Apolito. O problema real é a falta de recursos que impossibilita a instalação de unidades de tratamento de esgoto e lixo sólido para impedir que cheguem ao Lago, afirmou.

Um estudo do Instituto de Agricultura, Recursos Naturais e Ambiente da Universidade Rafael Landívar, encontrou, em 2008, Escherichia coli e outras bactérias fecais causadoras de enfermidades diarreicas. A pesquisa concluiu que, entre 2002 e 2003, o Lago recebeu cerca de 972 toneladas de nitrogênio e 381 de fósforo procedentes da agricultura. Outros fatores, como a introdução de espécies de fora e a mudança climática, também favorecem a contaminação, segundo os cientistas.

Juventino Gálvez, diretor do Instituto, confirmou ao Terramérica que as causas estruturais continuam intactas. Assuntos como uso da terra, manejo de lixo sólido e líquido, e a escassa capacidade das entidades públicas ambientais “continuam funcionando igual”. A gravidade do caso levou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) a incluí-lo no informe “América Latina e Caribe: Atlas do Nosso Mutante Meio Ambiente”.

Segundo o Atlas, em 22 de novembro de 2009, a agência espacial norte-americana (Nasa) detectou que 38% da superfície do Lago estava afetada pela cianobactéria. Um adiantamento desse estudo foi apresentado na XVII Reunião do Fórum de Ministros do Meio Ambiente da América Latina e do Caribe, realizada de 26 a 30 de abril, no Panamá. “Dizem que semearam tul e puseram arejadores, mas quem sabe se funcionam”, questionou ao Terramérica o presidente da Associação de Prefeitos de Sololá, José da Cruz. “O governo gastou mais recursos em publicidade e promoção, mas seu apoio para resolver a contaminação do Lago não basta”, queixou-se.

Por outro lado, Nery Paz, diretor da Autoridade para o Manejo Sustentável do Lago de Atitlán e seu Entorno, afirmou ao Terramérica que este não é um problema exclusivo do governo. “As pessoas continuam achando que o governo deve resolver tudo, quando todos somos responsáveis. De que serve fazer uma unidade de tratamento de lixo sólido se as pessoas continuam jogando lixo na rua?”, perguntou. Em janeiro, governo e comunidades acordaram algumas ações, como criar o Regulamento de Lixões para Corpos Receptores da Bacia do Lago de Atitlán e seu Entorno, aprovado em fevereiro, a reestruturação de drenagens e a instalação de usinas de tratamento. As medidas estão em andamento, segundo Nery, e “todos devemos participar”.

* O autor é correspondente da IPS.

Danilo Valladares

Danilo Valladares, valladaresgt@gmail.com. Comunicador social con 10 años de experiencia en Guatemala, escribe para IPS sobre desarrollo y derechos humanos en su país y el resto de América Central. Ha trabajado en las secciones nacionales de los diarios guatemaltecos Prensa Libre y elPeriódico. Fue asesor de medios de comunicación de los ministerios de Educación y Comunicaciones del país y tiene experiencia en el campo de la comunicación estratégica en campañas sociales y en la elaboración de estrategias de comunicación municipales.

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