DESTAQUES: Outro modo de viver das baleias

BUENOS AIRES, 14/07/2010 – (Tierramérica).- A Argentina lidera o turismo de observação de cetáceos na América Latina, uma atividade próspera que exige rígido controle para não afetar o habitat das baleias.

Baleia franca austral em Puerto Madryn, Argentina - Gentileza Eduardo Rojas Tupaud

Baleia franca austral em Puerto Madryn, Argentina - Gentileza Eduardo Rojas Tupaud

Para observar a carismática baleia franca austral (Eubalaena australis), o local mais visitado é a Península de Valdés, na Argentina, um enclave no Atlântico que vive do turismo e por isso é contra a caça de cetáceos. De maio a dezembro, chegam a essa área cerca de mil baleias para se reproduzir. Na austral província de Chubut, a península é uma área natural protegida e, em 1999, foi declarada Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Estes animais, com cerca de 15 metros, que podem chegar a 60 toneladas, tem apenas uma cria a cada dois ou três anos, e os momentos de namoro, reprodução e nascimento dos filhotes são quase sagrados. Os mamíferos podem ser observados da praia ou em mar aberto, em embarcações cuja operação está regulamentada. A observação de baleias tem sido vital para uma centena de comunidades locais, diz o “Estado do Avistamento de Cetáceos na América Latina”, publicado em 2008 pelo Fundo Internacional para a Proteção dos Animais e seu Habitat, pela Global Ocean e pela Sociedade para a Conservação das Baleias e dos Golfinhos.

A atividade, que não existia há 40 anos, cresce ao ritmo de 11,3% ao ano desde 1998, três vezes mais do que o turismo internacional, concluem os autores, Erich Hoyt e Miguel Iñíguez. Os observadores de cetáceos chegarão a mais de 1,4 milhões em 18 países da região em 2010, e a Península de Valdés é o lugar mais visitado, com mais de 240 mil pessoas por ano. Em seguida estão o Brasil, onde também as baleias francas podem ser vistas, e o México. Desde 1998, cerca de 6,4 milhões de pessoas observaram cetáceos em toda a região. “A Argentina é líder”, segundo o informe, e é um dos sete países que mais avançaram na regulamentação.

“Comecei em 1970, e em todos estes anos participamos de numerosos paineis com biólogos e ambientalistas para elaborar um guia sobre como aproximar-se das baleias sem assustá-las”, disse ao Terramérica o operador Peke Sosa. Com a assessoria de técnicos, foi criada a Técnica de Avistamento Patagônio.A observação deve durar no máximo 90 minutos, com meia hora entre cada saída de barco, a velocidade de navegação não deve superar dez nós e deve cair para cinco nós quando próximo do animal.

Até 31 de agosto não é permitida a aproximação a mães com filhotes, nem manobras que interfiram entre eles ou nos grupos em acasalamento, e deve ser mantida uma distância de 50 metros em relação aos animais quando estes saltam. Recomenda-se aos turistas que não joguem lixo, não gritem e não tentem tocar nas baleias. “São curiosas e sociáveis”, mas não devem ser assediadas, disse Peke. A técnica e o Código de Boas Práticas para o Avistamento de Baleias foram formalizados em uma lei de 2007 e um decreto de 2008.

A lei prevê um máximo de seis empresas operando, com uma embarcação na área por vez e com capacidade máxima de 70 passageiros. Os barcos devem ser silenciosos e usar motores sem óleo, para evitar a contaminação. “O importante é que seja feito de forma responsável”, explicou ao Terramérica Roxana Schteinbarg, do Instituto de Conservação de Baleias (ICB). A atividade deve estar acompanhada de estudos sobre as reações das baleias diante das embarcações.

Roxana disse que a legislação foi elaborada com participação de organizações não governamentais, como o ICB, operadores, cientistas e funcionários. Entretanto, “o sucesso ou fracasso das leis dependerá da correta fiscalização”, alertou. “Cada passageiro deve conhecer as normas e se comprometer a cumpri-las”, recomendou. Para isso o ICB elaborou um folheto em espanhol e inglês para entregar aos turistas. “O limite é dado pela quantidade de prestadores autorizados a operar e ao número de embarcações”, explicou ao Terramérica a diretora de Áreas Protegidas do Ministério do Turismo de Chubut, Natalia Leske.

O monitoramento fica a cargo da Fundação Patagônia Natural, que recomenda esperar para conseguir o avistamento dos animais, e não persegui-los caso se mostrem renitentes. Na Argentina esta atividade movimentava, em 2006, US$ 62 milhões, segundo o estudo de Erich Hoyt e Miguel Iñíguez. Na última reunião da Comissão Baleeira Internacional, de 21 a 25 de junho, no Marrocos, os operadores latino-americanos apresentaram um documento contra a caça de cetáceos.

* A autora é correspondente da IPS.

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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