Tóquio, Japão, 30/07/2010 – As reivindicações de aumento salarial, registradas em numerosas fábricas japonesas instaladas na China, não farão que deixem esse país. O gigante asiático é um enorme mercado de consumo em expansão. O Japão é o terceiro investidor na China.
Os trabalhadores reclamam aumento de salário e o direito de formar sindicatos. Os japoneses não se preocupam. Pelo contrário, interpretam isso como um bom sinal das mudanças que ocorrem nesse país, que passou de ser um centro de produção barato para uma sociedade e uma economia que se encaminham para formar um grande mercado de consumo.
A China é muito atraente para ser abandonada. Se, a princípio, o interesse nesse país foi a abundante mão-de-obra barata, agora é o enorme mercado que muitos aguardavam. Esse país logo será a segunda economia do mundo. Este ano contribuirá com um terço do crescimento global. O produto interno bruto aumentou 10,3% no segundo trimestre deste ano, em relação a igual período de 2009.
“Conscientes dos benefícios de uma economia rica, as empresas japonesas continuarão na China, e não irão para outros lugares mais baratos da Ásia”, afirmou Hisaki Nakai, especialista da Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro). “Os benefícios econômicos, ironicamente, facilitam uma reforma trabalhista”, completou.
Os trabalhadores da Honda Motor, em Foshan, na província de Guangdong, foram à greve para pedir aumento salarial. Duas semanas depois, a empresa concedeu aumento de 32%, segundo a imprensa. A greve na Honda revelou o mal-estar dos trabalhadores pela quantidade de extras, muita gente em espaços insalubres e salários que não davam para viver, e os protestos se repetiram em outras fábricas de automóveis. Não é apenas um fenômeno econômico, disse Tatsuo Matsumoto, economista da Associação de Executivos do Japão.
“Os trabalhadores chineses formam uma força de trabalho mais perfeita e influenciada pela Internet, onde pode ser encontrada informação sobre direitos e padrões trabalhistas”, disse Tatsuo. “O governo chinês, consciente dos problemas econômicos e políticos que representam as dificuldades trabalhistas, apoia as demandas dos trabalhadores”, acrescentou.
Muitas empresas japonesas, como as de outros países industrializados, mudaram durante décadas suas fábricas e linhas de montagem para a China a fim de aproveitar a mão-de-obra barata e manter sua competitividade no mercado global. Com o aprofundamento das reformas econômicas na China, depois dos anos 70, a classe média cresceu levada pelo incremento econômico de dois dígitos. O país se converteu em um formidável mercado.
A participação da China no consumo mundial passará de 5,2% para mais de 23% em 2020, previu o Crédit Suisse em janeiro. Então, a China superará os Estados Unidos como maior mercado consumidor. Os ricos aumentaram sua riqueza, representando 35,7% da renda familiar, segundo pesquisa feita por esse banco em novembro de 2009. A renda familiar da classe média aumentou 98% entre 2004 e 2009.
A mudança de situação alterou a relação entre Pequim e Tóquio. O Japão, antes um dos maiores doadores para a China, passou a ser um dos principais investidores, em especial depois da entrada desse país na Organização Mundial do Comércio, em 2002. Os investimentos diretos do Japão alcançaram US$ 4,1 bilhões, atrás dos de Hong Kong e Taiwan. Os investimentos japoneses aumentaram 12,7% ano após ano, segundo o Conselho Empresarial Estados Unidos-China, com sede em Pequim.
A China é um dos maiores mercados de exportação para o Japão, US$ 131 bilhões, ocupando a posição que costumava ser dos Estados Unidos, segundo a Jetro. As greves nas fábricas japonesas revelam a importância para os investidores de cuidar da relação com os trabalhadores. Envolverde/IPS

