Nações Unidas, 16/07/2010 – A Organização das Nações Unidas (ONU) considera que o mundo em desenvolvimento está a caminho de conseguir o primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de reduzir a pobreza até 2015. Entretanto, as estatísticas médias podem esconder graves atrasos em algumas latitudes. Houve algum êxito real e significativo na quantidade absoluta de pessoas que escaparam da pobreza no planeta? Nesta pergunta insistirão os líderes mundiais quando se reunirem em setembro, na sede da ONU, par avaliar os avanços rumo a essas meta.
Esses objetivos, definidos em 2000 pela Assembleia Geral, incluem reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem fome e pobreza (em relação a 1990), garantir a educação primária universal, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil e materna, combater a aids, a malária e outras doenças, garantir a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento, tudo isto até 2015.
No mundo, a quantidade de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza definida internacionalmente, com menos de US$ 1,25 diários, caiu de 1,9 bilhão para 1,4 bilhão. A maioria dos críticos argumenta que estes números são distorcidos, porque os casos de sucesso ocorrem em alguns poucos países, principalmente Brasil, China e Vietnã e, em menor grau, na Índia. China e Vietnã representam as maiores reduções na proporção de pobres, e com a Índia ocorre o mesmo na Ásia meridional, segundo a última avaliação internacional apresentada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
E a redução dos valores absolutos da pobreza na América Latina e no Caribe – outra “história de sucesso” – corresponde amplamente ao Brasil. Segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), o Brasil superou o Objetivo de reduzir pela metade a pobreza absoluta até 2015. Entre 1990 e 2008, a proporção de pessoas nessa situação no país diminuiu 81%.
Nesse caso, a redução da “pobreza mundial” é um mito político? “É verdade que a maior parte da redução da pobreza cabe à China, quando se mede em termos absolutos”, disse à IPS Rob Vos, diretor da divisão de Políticas e Análises para o Desenvolvimento, do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (Daes) da ONU. Segundo dados apresentados no “Estudo Econômico e Social Mundial” das Nações Unidas, a quantidade de pobres no mundo caiu de 1,9 bilhão, em 1981, para 1,4 bilhão, em 2005, quando foi feita a última pesquisa internacional. Somente na China, a pobreza caiu de 84% em 1981, para 15,9% em 2005, acrescentou.
E também houve muitos avanços em boa parte da Ásia oriental, segundo Vos. “A contribuição da Índia para a redução da pobreza mundial teve menos impacto”, afirmou, lembrando que em toda à Ásia meridional a quantidade absoluta de pobres aumentou de 548 milhões para 596 milhões entre 1981 e 2005.
À Cúpula Mundial sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que acontecerá entre 20 e 22 de setembro em Nova York, estarão presentes representantes dos 192 Estados-membros das Nações Unidas, principalmente chefes de Estado e de governo. Espera-se que na oportunidade seja adotado um plano de ação para acelerar o avanço no cumprimento dos oito Objetivos dentro do prazo fixado.
Dean Baker, codiretor do Centro para a Pesquisa Econômica e Política, com sede em Washington, disse à IPS que a China conseguiu enorme progresso econômico nas últimas três décadas, beneficiando muito a sua população. Entretanto, a situação em outras partes da Ásia não é tão homogênea: países como Bangladesh não estão conseguindo um desempenho muito bom neste sentido, ressaltou.
Roberto Bissio, da rede internacional Social Watch, se mostrou cético quanto aos números. Disse que o Banco Mundial não só subestima sistematicamente a pobreza no mundo – talvez para mostrar certo grau de êxito, já que diz ser uma instituição que luta contra a pobreza –, como também a esconde debaixo da sombra da China para dissimular as evidências.
Vos afirmou à IPS que a região onde houve menos progressos é a África subsaariana, onde “a quantidade absoluta de pobres aumentou nas últimas três décadas: o número de pessoas que vive com menos de US$ 1,25 por dia passou de 212 milhões para 388 milhões”. E acrescentou que “houve enormes êxitos na redução da pobreza, mas vimos muitos deles em algumas partes do mundo e muito poucos em outras”. IPS/Envolverde

