JOANESBURGO e LUSAKA, 02/08/2010 – James Banda, de 27 anos, é um jovem desempregado, embora seja contratado de vez em quando como motorista de autocarro na Estação de Autocarros Kulima Tower. Pode não ter um emprego permanente mas é facíl encontrá-lo. Qualquer pessoa que por ele procure só precisa de ir à estação de autocarros. Toda a gente sabe quem ele é. Benda, ou ‘ba-Jay’ como lhe chamam, é um jovem que inspira muito respeito entre os amigos – é um rufião de aluguer. Pode ter dificuldade em arranjar emprego durante o ano mas, durante as eleições, os serviços de Banda são muito procurados. É contratado, juntamente com os amigos, por diferentes partidos políticos para dirigir as campanhas.
Mas Banda não tem cartão de membro de nenhum partido político. E o tipo de campanhas que é contratado a dirigir não envolve a explicação de políticas ao eleitorado mas refere-se antes à intimidação de opositores e eleitores. Os funcionários partidários dão-lhe dinheiro e álcool, para ele e para os amigos, e alugam uma carrinha para se deslocarem pelo círculo eleitoral para interromper as reuniões dos partidos rivais e intimidar os eleitores da oposição.
Quando o pessoal ou os eleitores rivais resistem, são espancados ou ameaçados com catanas.
“O nosso trabalho é simples, é só convencer as pessoas como devem votar no partido que estamos a apoiar numa eleição específica. Qualquer que seja o partido que chegue em primeiro lugar, que apresente uma boa oferta pecuniária, aceitamos,” disse.
Banda, como muitos outros jovens, cita a falta de oportunidades de trabalho como o motivo pelo qual se deixa ser usado em violência política.
E a investigação demonstra que não é o único. O relatório do Trust da África Austral intitulado ‘Acabar Com a Idade da Maioria Marginal’, publicado no dia 20 de Junho, constatou que muitos jovens na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) eram vulneráveis à violência como vítimas ou perpetradores quando não tinham acesso a estruturas ou redes de apoio.
O estudo registou que a região da SADC tem sido caracterizada pela violência e pelo conflito e que essa violência se tornara normal na sociedade na região. Em resultado, era “raro que as pessoas envolvidas ou afectadas por essas formas de violência as considerassem criminosas.”
Emily Mabusela, directora do Programa de Prevenção de Violência Juvenil no Centro para o Estudo de Violência e Reconciliação, afirma que uma das razões para a violência entre a juventude é a natureza subtil dos actos violentos na nossa sociedade.
“A violência está em todos os nossos espaços, nas nossas casas, nas nossas comunidades, as crianças nas nossas escolas são assassinadas, não podemos evitá-la. O que é que ensinamos aos jovens quando vêem ataques xenófobos e raiva ao volante?” perguntou.
Mabusela realçou que, a não ser que ocorra uma intervenção, jovens violentos tornam-se adultos violentos. “A violência é como aprender a ler, quando se é jovem, não se é muito bom, mas quando se cresce, faz-se melhor. Quando se começa a ser violento numa tenra idade, é muito provável que a pessoa fique pior,” acrescentou Mabusela.
De acordo com Helene Perold, directora executiva do Serviço de Informação e Voluntariado da África do Sul, e uma das investigadoras que contribuiram para o relatório, durante a adolescência os jovens muitas vezes tentam criar as suas identidades e atravessam um período de mudanças confuso.
Durante este período, os jovens são susceptíveis a diversas influências. Sublinhou que era importante aproximar-se dos jovens e integrá-los na sociedade.
“Vivemos numa sociedade onde se aceita que os pais batam nos filhos e os maridos batam nas mulheres. Afirmamos aqui que é preciso haver uma forma de incluir a juventude; a maior parte dos jovens sente-se alienada da sociedade porque os seus problemas não são colocados em contexto,” acrescentou Perold.
Masebula considerou ser importante que se fizessem intervenções com vista a atenuar a violência entre a juventude. “Se ignorarmos a violência ela torna-se-á cada vez pior. Sabemos que o comportamento violento é aprendido. As crianças começam a empurrar-se umas às outras e, gradualmente, passam a dar bofetadas e a baterem umas nas outras. Quando alguém aprende que ser violento o torna mais poderoso, então vê aí uma maneira de resolver problemas no futuro.”
Actualmente, a África do Sul tem alguns programas e políticas que tentam reabilitar os jovens. Ansa Verster é directora do Programa de Diversão para jovens no Centro de Justiça Reparadora. O centro age como mediador no sentido de se chegar a uma resolução entre vítimas e perpetradores de crime e oferece também programas que ministram competências para a vida a jovens que já tiveram problemas com a lei. Ela acredita que os jovens violentos podem mudar, se receberem o apoio correcto e a orientação apropriada.
Os resultados do relatórios coincidem com estas opiniões e apelam a uma política pública na região que leve em linha de conta as necessidades dos jovens e que resolva as circumstâncias que os impedem de conseguirem um emprego, entre outras coisas.
E parece que isto poderá ser uma solução. Banda admite que, se tivesse um emprego permanente, não alugaria os seus serviços para intimidar outros.
“Se tivóssemos fontes de sobrevivência alternativas, não faríamos isto. Mas nã hái empregos, o que fazemos aqui na estação é só um trabalho temporário, o dinheiro não é suficiente. Mas quando os políticos aparecem, oferecem-nos bom dinheiro e também compram-nos cervejas,” contou.
Acrescentou ainda que está à espera das eleições do próximo ano, porque será uma oportunidade de ganhar dinheiro.

