RAFFINGORA, Zimbabué, 24/08/2010 – Mavis Muchena está sentada na varanda da sua cabana de lama, uma mãe solteira com quatro filhos, de meia idade, com uma cara fatigada e um aspecto mais velho do que a sua verdadeira idade, as mãos enrugadas devido ao trabalho no campo. Deveria representar o futuro de uma renovada expansão da agricultura no Zimbabué mas, em vez disso, representa o seu fracasso.
Há seis anos, Muchena e outras 100 pessoas chegaram à Exploração Agrícola de Yomba, perto de Raffingora, cerca de 150 quilómetros a oeste de Harare, provenientes da região rural de Guruve. Armadas com catanas e espingardas ameaçaram, matar o agricultor se interferisse com a ocupação da terra. Isto aconteceu no auge da ocupação forçada, caótica e descoordenada de terras no Zimbabué.
A Exploração Agrícola de Yomba, que pertencia à família Nicolle, era um dos maiores empreendimentos agrícolas no país antes das ocupações. O algodão que a exploração produzia constituía 15 por cento das necessidades totais de algodão a nível nacional e o trigo produzido representava 10 por cento das necessidades nacionais.
Mas desde que se Muchena apoderou do seu pedaço da exploração nem sequer utilizou cinco por cento do seu lote. Possui perto de 100 acres da terra de que se apoderou e que lhe foi atribuída mais tarde pelo governo. Mas só conseguiu utilizar menos de 10 acres, plantando algodão, milho, soja, girassóis e alguns tipos de amendoim.
O fracasso de Muchena é comum na região. Um estudo encomendado pelas Confederações de Sindicatos Agrícolas da África Austral, publicado em Março, indicou que tem havido fracassos generalizados nos processos da reforma agrária, especialmente na África do Sul e Zimbabué. De acordo com os resultados do estudo, os processos de reforma agrária raramente recebem o financiamento adequado. Isto leva a situações de conflito devido a limitados recursos.
Muchena alega que os seus esforços para cultivar a terra estão a ser dificultados devido à falta de insumos, recursos financeiros, irrigação, e equipamentos técnicos e agrícolas.
“Cheguei aqui sem dinheiro. Queria começar uma nova vida. O governo prometeu insumos e tractores. Mas, até agora, não aconteceu nada,” disse. Quando ela e os outros invasores ocuparam a exploração, também tomaram posse dos equipamentos agrícolas. Mas estes ficaram em mau estado porque os invasores não os conseguiram utilizar, visto que precisavam de investir em combustível, reparações e conhecimentos técnicos.
“Sim, a nossa produção encontra-se muito abaixo da capacidade da exploração. Mas sem os insumos, equipamento e competências técnicas necessárias na área da agricultura comercial, vamos continuar nesta situação,” admitiu Muchena.
Estudos confirmam que. apesar da necessidade de terra nesta região, as relações agrárias são complexas e variam muito de país para país.
O Dr. Michael Aliber, do Instituto da Pobreza, Terra e Estudos Agrários (PLAAS) da Universidade do Cabo Ocidental, afirma que a questão da terra é um assunto emocional e complexo.
“Tem de haver valor associado à terra que é redistribuída. Muitos beneficiários queixam-se que é difícil obter crédito, visto que não possuem títulos de propriedade relativos à terra onde trabalham,” disse Aliber.
Acrescentou que a formalização da posse da terra e a entrega de títulos de propriedade não garante um acesso imediato ao crédito. “Se o empréstimo não for pago, até que ponto o título de propriedade é comercializável? O título terá pouco valor se não houver mercado para a terra,” disse Aliber.
O Professor Sam Moyo, Director do Instituto Africano de Estudos Agrários do Zimbabué, acredita que o fracasso de alguns destes projectos se deve à falta de apoio prestado antes e depois do assentamento humano. Tal apoio deveria incluir a preparação técnica dos agricultores antes de estes ocuparem a terra, assim como apoio financeiro e material.
A ocupação caótica e violenta das explorações que pertenciam aos brancos teve um preço, levando ao colapso da economia. O projecto de redistribuição significa que a produção agrícola diminuíu 75 por cento nos últimos três anos.
“O Zimbabué não está sozinho,” acrescentou Moyo. “O actual modelo de reforma agrária na África do Sul não é sustentável, seja no campo social ou no campo político.”
“É portanto importante examinar as estratégias de desenvolvimento que estão a ser usadas. Os movimentos de agricultores devem estar no centro da formulação de políticas, visto que os pequenos agricultores são importantes para assegurar a inclusão económica e social,” afirmou.

