Lilongwe, Malauí, 10/08/2010 – Médicos do distrito de Dowa, no Malauí, se esforçam para vacinar crianças assustadas e agarradas aos seus pais, sob o olhar atento de policiais armados. A policia reuniu as famílias da aldeia de Chitanje e as levou para a clínica Chankhungu, a poucos quilômetros de distância. Os pais se negam a ajudar o pessoal da saúde a vacinar os filhos, que gritam e resistem. Mais de 52 mil pessoas pegaram sarampo no Malauí desde janeiro, segundo o diretor de saúde preventiva, Storn Kabuluzi. Mais de 166 morreram.
O sarampo foi erradicado na África austral nos últimos anos graças às campanhas de vacinação. Contudo, a quantidade de casos registrados este ano preocupou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Quase 50 mil crianças de 14 países contraíram a doença, a maioria em Malauí, Moçambique e Zâmbia. Neste último morreram 80 pessoas. O ressurgimento do sarampo se deve a interrupções no programa de vacinação por falta de dinheiro dos governos e dos doadores, disse o Unicef. Também é um problema os pais se negarem a vacinar os filhos.
Mais de 2,4 milhões de menores da África oriental e austral não foram vacinados em 2009, o que motivou a organização de campanhas de vacinação na maioria dos países. O Ministério da Saúde de Malauí se propôs a vacinar seis milhões de meninos e meninas com menos de 15 anos, especialmente vulneráveis à enfermidade. “É a maior campanha de imunização que já executamos nos últimos anos. Terá custo de US$ 4,2 milhões”, disse Storn. Mas nem todos aplaudiram a medida. Há organizações religiosas que se negam a cooperar.
James Malili, de 45 anos, parece abatido quando seus filhos de quatro, seis e oito anos são tirados de seus braços para vaciná-los em Chankhungu. “É contra minha religião ir a um hospital e receber medicamentos, mas o governo nos obriga a pecar intimidando para que vacinemos nossos filos”, disse James à IPS. A Igreja de Zion, à qual pertence, prega que se deve pedir a Deus quando há alguém doente, explicou. “Cremos na intervenção divina. Sabemos que Deus nos curará e que nenhum homem tem poder sobre a doença. Sabemos que Deus protegerá nossos filhos, não as vacinas”, afirmou.
Quando a polícia chegou a Chitanje em meados de julho, 19 pessoas haviam morrido nas primeiras duas semanas do mês. A Igreja de Zion reuniu todos os doentes e os escondeu para que não recebessem cuidados médicos, segundo o porta-voz da policia de Dowa, Kondwani Kandiado. Policiais entraram na aldeia e detiveram seu líder, o bispo Lumbani Amos, e outros três idosos, que foram condenados a vários anos de prisão por negligência infantil, segundo o artigo 165 do Código Penal, explicou Kondwani. “Doze membros da Igreja, incluindo o filho do bispo, morreram no esconderijo. Conseguimos resgatar sete pessoas e as levamos ao hospital”, acrescentou.
Mais de cem membros da Igreja Apostólica do Sétimo Dia se entrincheiraram por uma semana em um prédio abandonado da aldeia de Namaona, no distrito de Mulanje. Também tiveram de ser desalojados pela polícia e as crianças vacinadas à força. Os doentes foram levados ao hospital. A doutrina desta Igreja prevê a excomunhão para quem receber cuidados médicos, disse a fiel Emily Kalimalima. “É a única Igreja verdadeira e não quero ser excomungada. Não quero queimar no inferno”, afirmou. Emily, mãe de duas crianças, de sete e nove anos. “Não vou vaciná-los e ninguém vai me obrigar a ir contra minhas crenças”, assegurou. Nenhum membro dessa Igreja procura por médico quando está doente, mesmo em casos de tuberculose, câncer ou HIV/aids.
O presidente de Malauí, Bingu wa Mutharika, condenou as organizações religiosas que impedem seus fieis de receberem cuidados médicos. As doutrinas dessas igrejas são “atrozes, atentam contra a Bíblia e equivalem a assassinos”, disse o mandatário, pedindo às organizações religiosas que sejam “sensatas e racionais” sobre os direitos infantis. “Não matem meninos e meninas em nome da religião”, pediu. Envolverde/IPS

