BIODIVERSIDADE: A terra está anêmica

Viena, Áustria, 03/08/2010 – Os oceanos são o sangue da Terra, e o plâncton, os glóbulos vermelhos. A presença destes organismos diminuiu mais de 40% desde 1950, especialmente devido à mudança climática, afirmam cientistas. “O filoplâncton é uma parte fundamental de nosso sistema de apoio à vida no planeta. Produz metade do oxigênio que respiramos absorve dióxido de carbono e mantém nossos peixes”, explicou Boris Worm, da Universidade de Dalhousie, do Canadá, e um dos mais destacados especialistas em oceanos.

“Um oceano com menos fitoplâncton funcionará de forma diferente”, explicou Boris, coautor de um novo estudo sobre o tema, publicado na semana passada na revista científica Nature. “O plâncton é equivalente ao pasto, às arvores e a outras plantas na terra”, ilustrou o oceanógrafo Marlon Lewis, também coautor do informe. “É perturbador se dar conta de que perdemos metade das zonas verdes dos oceanos. Parece que a taxa de redução do plâncton está aumentando”, afirmou.

A mudança climática está aquecendo os oceanos à média de 0,2 grau centigrados por década. A água mais quente tem menos nutrientes e, por ser leve, tende a ficar perto da superfície, acima da mais fria. Esta estratificação do oceano é um problema para o plâncton, que precisa de luz e só sobrevive nos primeiros 100 a 200 metros de profundidade. O plâncton fica sem nutrientes para se alimentar, a menos que as águas mais profundas se misturem com as que estão na superfície.

Na última década, foi observado que a estratificação dos oceanos é um fenômeno que ocorre em áreas cada vez maiores. O fitoplâncton é um conjunto de pequenos organismos vegetais e animais, que vivem perto da superfície dos oceanos e são a base alimentar de muitos peixes. Provavelmente, é o grupo de organismos que mais trabalha no planeta, e não apenas se alimentam de quase tudo o que vive nos oceanos, como também absorvem e capturam CO² da atmosfera. Além disso, desprendem dimetil sulfureto, substância química que flutua na superfície do oceano e evapora para contribuir com a formação de nuvens. Sem o plâncton, a Terra seria um lugar muito diferente.

Os pesquisadores passaram três anos analisando e resumindo uma coleção sem precedentes de informação oceanográfica histórica e recente, incluindo quase meio milhão de medições da transparência da água nos últimos 120 anos. Antes, a informação sobre a situação do plâncton em nível planetário ia só até 1997, quando foram lançados satélites especiais. Boris, Marlon e seu colega Daniel Boyce concluíram que a maior parte da redução do fitoplâncton ocorreu em regiões polares e tropicais, e em oceanos abertos.

Também constataram uma relação direta entre as crescentes temperaturas da superfície e a diminuição do fitoplâncton na maior parte do planeta, sobretudo perto do Equador. “Nos perguntamos qual seria o impacto do aumento das temperaturas no oceano”, disse Boris à IPS em uma entrevista em Potsdam, na Alemanha. Além da redução do plâncton, foi observada uma queda no número de espécies em águas tropicais e um aumento nas águas temperadas. Como na terra, certas espécies marinhas são muito sensíveis à temperatura e vão para outro lugar se a região que habitam se torna muito quente.

Outra importante mudança verificada nos oceanos é o drástico aumento no número e no tamanho de áreas mortas, isto é, com muito pouco oxigênio para que haja vida. O lançamento de fertilizantes e esgotos contribuem com um grande crescimento do plâncton, que, no entanto, morre rapidamente e é consumido por bactérias que esgotam o oxigênio. O Golfo do México tem uma zona morta de 22 mil quilômetros quadrados a cada primavera devido à vazão do Rio Mississippi.

A estratificação marinha, quando a água mais quente fica acima da mais fria, rica em nutrientes, também cria zonas mortas e diminui o surgimento de plâncton, ressalta Boris. Essas áreas eram raras há 40 anos, mas agora somam várias centenas. Se não houver uma ação urgente, a mudança climática continuará esquentando os oceanos, aumentando a estratificação e produzindo mais e maiores zonas mortas, com um grande impacto na pesca, alerta um estudo, de 2009, na Nature Geoscience. Demorará milhares de anos para que os oceanos esfriem, por isso é imperativo acionar um freio de emergência para deter as emissões que provocam o aquecimento global, concluiu o estudo.

Os especialistas também alertaram sobre a crescente acidificação da água marinha por causa da liberação de CO². A cada dia, os oceanos absorvem 30 milhões de toneladas de dióxido de carbono, o que inevitavelmente aumenta sua acidez e reduz a quantidade de carbonato de cálcio de que necessitam alguns tipos de plâncton e outras espécies para formarem suas carapaças e seus esqueletos. Não há discordância sobre esta química básica. O único debate gira em torno do grau e do tempo do impacto. Recente pesquisa no Ártico – já informada pela IPS – sugere que dentro de dez anos várias partes desse oceano serão extremamente ácidas para a sobrevivência da maioria das espécies.

Segundo Marlon, a acidificação é uma grande ameaça para algumas espécies de plâncton, mas afirmou que seu estudo não conseguiu especificar os impactos. A única forma de reduzir a acidificação dos oceanos é com reduções substanciais nas emissões de CO², concluíram especialistas como o australiano Ove Hoegh-Guldberg, diretor do Instituto sobre a Mudança Climática da australiana Universidade de Queensland. Ove é coautor da uma revisão de dezenas de estudos sobre o estado dos oceanos publicada na revista Science de 18 de junho. A pesquisa apresenta uma imagem perturbadora, e alerta para a iminência de uma “fundamental e irreversível transformação ecológica”, jamais vista em milhões de anos. Envolverde/IPS

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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