Peshawar, Paquistão, 26/08/2010 – Autoridades de ensino da província paquistanesa de Jiber Pajtunjwa pretendem terminar este ano a revisão de textos escolares, que datam das décadas de 70 e 80, para eliminar o conteúdo que, segundo elas, ajuda a propagar a ideologia extremista.
Há anos, as instituições de ensino são ferramentas involuntárias de propagação do extremismo neste país de maioria islâmica, disse Fazal. “O material sobre a jihad na escola e no secundário é, em parte, responsável pelo crescente extremismo registrado entre as pessoas”, acrescentou. “Os livros de texto, os discursos sectários e o fácil acesso à informação e a sites na Internet sobre o assunto tiveram papel considerável no crescimento de movimentos religiosos fundamentalistas” no país, ressaltou.
A jihad é um importante dever dos muçulmanos. O termo refere-se a diferentes formas de luta para ser um crente melhor, mas os extremistas invocam a “guerra santa” para justificar o uso da violência, desde atentados suicidas até bombas, contra os que consideram seus inimigos. Jiber Pajtunjwa, antes chamada Província da Fronteira Noroeste, é conhecida como celeiro de visões extremistas por sua proximidade com o Afeganistão, onde o movimento islâmico Talibã controlou vastas áreas do país entre 1996 e 2001. Além disso, é onde o Paquistão sofreu mais atentados nos últimos dez anos.
Ideias viciadas extraídas dos livros podem explicar, em grande parte, o motivo de Gul Ghutai, do sexto ano da Escola Universitária Modelo, acreditar fervorosamente que os soviéticos, que invadiram e ocuparam o Afeganistão de 1979 a 1989, são infieis e, portanto, inimigos do Islã. Da mesma maneira que os indianos, segundo ela. Índia e Paquistão travaram três guerras e disputam a Caxemira, de maioria muçulmana. “Lemos que esses países querem eliminar os muçulmanos. Não temos que ser amigos deles”, afirmou Gul.
Companheiros de Shaheena Afzal, na décima série da mesma escola, também odeiam Índia e Israel com base no que aprenderam nos livros. “Há um mês, um estudante da nona série cometeu um atentado suicida e é possível que tenha sofrido influência do conteúdo dos livros”, afirmou.
Visões extremistas prosperaram nas escolas paquistanesas nos anos 80, quando a resistência dos mujahidinis contra a ocupação soviética do Afeganistão estava em seu apogeu, disse Fazal. A “islamização” das instituições educacionais do país começou sob a ditadura do general Zia ul-Haq (1924-1988), que governou de 1978 até sua morte, acrescentou. Um decreto parlamentar impôs, então, um programa de ensino no qual o Paquistão era descrito como um país cercado de inimigos, incluindo a Índia.
A religião é a principal característica que os diferencia. Não ser muçulmano era muito mal visto. A ofensiva muçulmana no ensino se acentuou após a invasão da hoje extinta União Soviética ao Afeganistão. “O Paquistão era a primeira linha contra as forças soviéticas e incentivou o ódio para inculcar a jihad nos estudantes paquistaneses e afegãos”, explicou Fazal. A Revolução Islâmica do Irã, em 1979, também contribuiu para a islamização do ensino no Paquistão e facilitou a propagação da visão do tipo “nós contra o mundo”, acrescentou.
Somente em 2007 começaram as iniciativas para reformar os livros de texto no Paquistão. O governo do general Pervez Musharraf (2001-2008) impôs o “Plano de Ação Nacional e Política de Livros de Texto e Material de Ensino”. No entanto, a controvérsia gerada pelo programa foi tanta que sua implementação ficou lenta. Uma reforma constitucional deu liberdade às províncias para definir seus próprios programas de ensino, o que liberou as autoridades, como Fazal, de trâmites burocráticos no âmbito federal.
As autoridades de Jiber Pajtunjwa revisam desde janeiro os livros de aproximadamente 40 mil escolas privadas e públicas. As mudanças nos programas de ensino irão da primeira à 12ª série, para que os estudantes sejam “seres humanos bons, capazes de contribuir para o desenvolvimento nacional, regional e mundial”, disse Fazal. “Estamos substituindo os versos do Corão sobre a jihad pelos que defendem a paz e o amor e os chamam à irmandade da humanidade”, ressaltou.
“O esforço é para dizer aos estudantes que o conhecimento é mais poderoso do que a espada e que é luz, igual às ideologias de líderes locais como Bacha Jan, que prega a não violência”, acrescentou Fazal. A previsão é de que a revisão dos livros termine no final deste ano. Envolverde/IPS


