O remédio é pior do que a doença

Dauphin Island, Estados Unidos, 16/08/2010 – A multinacional British Petroleum assegura que parou de usar produtos químicos tóxicos para dispersar o petróleo que vazou no Golfo do México. Porém, moradores da área afirmam o contrário, e dizem sofrer doenças que demonstram isso. No dia 5, o pescador comercial Donny Mastler estava no porto esportivo de Dauphin Island. “Estava com meu amigo Albert, e ambos ficamos expostos repentinamente”, contou Donny à IPS, referindo-se às substâncias químicas que inalou e acredita que estão relacionadas com os dispersantes da BP.

“Ambos vimos um acúmulo de bolhas brancas na superfície, e sabíamos que vinha do petróleo derramado”, acrescentou o pescador. Seus olhos lacrimejaram e as gargantas de ambos começaram a arder, obrigando Albert e se refugiar em seu caminhão com ar-condicionado, enquanto Donny foi para casa. “Comecei a vomitar algo marrom, e minha urina também era marron. Fiquei assim o dia todo. Transpirei à noite e tive diarreia constante, como nunca antes”, acrescentou.

A BP utilizou no Golfo do México dois dispersantes de petróleo, o Corexit 9500 e o Corexit 9527, ambos proibidos na Grã-Bretanha. Mais de 1,9 milhão de galões foram lançados até agora para dissolver o petróleo que começou a vazar em 20 de abril, no que é considerado o pior desastre desse tipo da história. Formas de exposição aos produtos químicos são inalação, ingestão e contato visual ou de pele.

Os impactos na saúde podem ser dores de cabeça, náuseas, vômitos, diarreia, dores abdominais ou no peito, tontura, irritação nos olhos, nariz, garganta e pulmões, dificuldade para respirar, hipertensão, problemas de pele, depressão do sistema nervoso central, efeitos neurotóxicos, danos genéticos, mutações, arritmia cardíaca, problemas cardiovasculares e outros. Não faz muito tempo, no mesmo porto, a emissora de rádio WKRG News 5 retirou uma amostra de água para análise, que literalmente explodiu quando a ela foi acrescentado um solvente orgânico para separar o petróleo.

“Acreditamos que, provavelmente, isto ocorreu pela presença de metanol, gás metano ou o dispersante Corexit”, disse à emissora Bob Naman, químico encarregado do estudo. Hugh Kaufman, analista da Agência de Proteção Ambiental, também reconheceu os efeitos nocivos dos dispersantes. “Temos golfinhos com hemorragia. Pessoas que trabalham próximo aos locais de exposição sofrem hemorragias internas. E isso é o que se supõem que os dispersantes causem”, afirmou.

“Por exemplo, no caso do Exxon Valdez (petroleiro que causou gigantesco vazamento no Estado do Alasca em 1989), a maioria das pessoas que trabalharam com os dispersantes está morta. A média de idade com que morreram foi de 50 anos”, acrescentou Hugh. Utilizar esse tipo de produto é algo “muito perigoso, e não protege nem a economia da BP, nem o meio ambiente e nem o público”, alertou.

No começo de julho, o Departamento de Saúde Pública do Estado do Alabama informou que 56 pessoas dos condados de Mobile e Baldwin haviam solicitado tratamento para o que acreditavam fossem doenças causadas pelo vazamento de petróleo. Donny havia sofrido uma exposição anterior quando trabalhava em um barco para uma empresa contratada da BP e retirou da água uma toalha coberta de petróleo. Essa exposição causou brotoejas em seus braços, irritação na garganta e náuseas. O pescador disse à IPS que sabia de muitos moradores de Dauphin Island que não saiam de suas casas para evitar um contato com os gases tóxicos emitidos do Golfo.

A BP assegura ter feito controles no ar das áreas afetadas. Uma declaração da empresa diz: “A informação de monitoramento indica que poucas pessoas, se houver algumas, estão expostas aos níveis de petróleo ou de dispersantes com potencial para causar qualquer efeito adverso significativo na saúde”. Contudo, muitos cientistas e médicos discordam.

“Os dispersantes usados no experimento da BP contêm solventes como destiladores de petróleo e o 2-butoxyethanol”, disse à IPS o toxicologista e biólogo marinho Riki Ott. “Os solventes dissolvem o petróleo, a oleosidade e a borracha. Os que trabalharam com o vazamento me disseram que as hélices de borracha de seus motores e os eixos de borracha nas bombas de seus motores de popa falhavam e precisavam ser substituídos frequentemente”, disse Riki. “Diante desta evidência, não deveria surpreender que os solventes também sejam tóxicos para as pessoas, algo que a comunidade médica sabe há muito tempo”, acrescentou.

Inclusive o governo norte-americano tomou precauções para proteger seus empregados. Chefes militares decidiram mudar a rota dos voos de treinamento no Golfo do México para evitar as áreas afetadas pelos dispersantes. Agências de saúde pública da região aconselharam seus pesquisadores que estudam a qualidade do ar a utilizarem máscaras apropriadas quando se aproximassem da costa. Por sua vez, o Departamento de Trabalho começou a reunir informação para um estudo de longo prazo sobre os possíveis efeitos do desastre da BP na saúde de milhares de trabalhadores.

As evidências continuam se acumulando: se sucedem os informes sobre mortes de peixes e outros animais marinhos no Golfo. No dia 5 mês, em Port Saint Joe, no Estado da Flórida, funcionários municipais fecharam uma rampa pública para barcos após a morte inexplicável de centenas de peixes e caranguejos na baía de Saint Joseph. Testemunhas garantiram ter visto um material marrom e viscoso a cerca de seis milhas da costa.

“Perdi minha voz”, disse Donny à IPS, com dificuldade “Em outra ocasião, estava no porto e me expus novamente. Pude sentir o cheiro do petróleo. Agora tenho muito ardor na boca”, acrescentou. Nas últimas seis semanas, a IPS encontrou pessoas ao longo da costa do Golfo do México que se queixaram de brotoejas na pele, problemas respiratórios, náuseas, dores de cabeça, olhos irritados e outros sintomas que são associados aos dispersantes tóxicos da BP. Envolverde/IPS

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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