Pequim, China, 03/08/2010 – A política de um filho por casal, estabelecida na China em 1979 para controlar o crescimento de sua população, tem consequências insuspeitas na relação entre pais e filhos. Fang Xin declarou guerra aos seus pais aos 14 anos. Ela fez tudo ao contrário do que eles queriam. Negava-se a assistir a televisão estatal. Não comia com seus pais. Escolheu a carreira que quis, sem se importar com o desejo deles e foi estudar longe de casa. A última batalha de Fang foi no ano passado, quando seus pais quiseram que tivesse um filho.
A história desta mulher de 28 anos, relatada pelo jornal Southern Weekly, de Guangzhou, não é nada incomum na China. Os jovens nascidos nos últimos 30 anos rejeitam a autoridade de seus pais, que está arraigada em fortes valores tradicionais. Os grupos que se formaram na Internet “contra os pais” concentram muitos deles. Um dos mais populares é douban.com, cujo slogan é “os pais são veneno”. Tem mais de 12 mil membros. “Cresceu muito rápido. Estou surpreso. No começo eram umas 20 pessoas”, disse o responsável pelo fórum, Zhang Kun, em entrevista à Rádio China Internacional.
Entre os temas tratados está a questão de como os filhos devem agir para não replicar as “vidas falidas” de seus pais e como “lutar contra” eles. O fórum foi criado em janeiro de 2008 com o objetivo de “ser filial, protestar contra o pedantismo, a ignorância, as restrições e a perseguição dos pais”, segundo o estatal Diário do Povo. A iniciativa é uma rejeição à criança autoritária, uma das consequências não buscadas da política de filho único, segundo especialistas, criada para limitar o explosivo crescimento da população neste país de mais de 1,3 bilhão de pessoas.
Muitos pais depositam suas esperanças e seus sonhos sobre os ombros de seus solitários filhos. Cada vez são mais os que se sentem sufocados pela pressão que sofrem em uma sociedade diferente da de quando eram pequenos. Isso, somado ao forte papel que, culturalmente, têm os pais na cultura chinesa, se tornou uma carga bastante pesada para muitos integrantes de uma geração cada vez mais independente neste país, afirmam especialistas em educação.
“A tradicional relação entre pais e filhos é que os mais velhos têm um poder absoluto sobre os filhos”, disse à IPS Tao Hongkai, especialista da Universidade Normal de Huazhong. “Os chineses pensam que seus filhos devem fazer o que eles querem porque lhes deram a vida”, afirmou. A juventude chinesa tem novos valores. Há provas disso em todo lado, como, por exemplo, a série de protestos em fábricas de empresas estrangeiras, ressaltou. “Os jovens não querem viver a vida que seus pais lhes prepararam e que querem obrigá-los a aceitar”, disse Tao. Porém, os filhos únicos dependem totalmente de seus pais e por isso se rebelam, acrescentou. “Carecem de independência econômica e mental porque não foram bem criados. A maioria não tem dinheiro até se formar e muitos vivem com os pais mesmo depois”, explicou.
Bai Cai é um dos membros do fórum. Tem 22 anos e sente que foi uma “vítima patética de seus pais”, que o obrigaram a praticar caligrafia, “inútil” na era da informática, segundo ele. Queria se especializar em inglês, mas seus pais o obrigaram a estudar chinês. Quando quis criar sua própria empresa de computação, foi acusado de ser viciado em Internet e pressionado para que fosse professor em Pequim.
Contudo, ficou cheio. Sem se importar com a opinião dos pais, Bai se mudou para a cidade de Hangzhou para trabalhar em uma empresa de tecnologia da informação. “Os pais não sabem nada”, escreveu Bai no fórum. “São céticos, até negativos, em relação às nossas atitudes e até nossas decisões. Se eles não são um desastre para seus filhos, então quem é?”, perguntou.
Sanar a relação entre pais e filhos na China exigirá uma enorme mudança social. É preciso melhorar a comunicação entre eles e ampliar a autonomia dos mais jovens, disse Yang Yang, subdiretor da Faculdade de Políticas e Gestão Pública, da Universidade de Direito e Ciências Políticas. Envolverde/IPS

