Joanesburgo, África do Sul, 13/09/2010 – Especialistas temem que os governos da África não levem suficientemente a sério a ameaça do HIV (vírus da deficiência imunológica humana), causador da aids e não destinem o dinheiro necessário para combater sua transmissão de mãe para filho. Para Graça Machel, presidente do Conselho da Campanha para Acabar com a Aids Pediátrica (Cepa), a desigualdade agrava o problema.
“Uma criança nascida em um país industrializado tem todas as chances de gozar uma vida completa, saudável e longa”, afirmou em entrevista coletiva da Cepa, no dia 10. “Na África e na Ásia há muito menos possibilidades”, completou. Graça e outros membros africanos do Conselho da Cepa se referiam às dificuldades para deter o contágio da aids entre crianças do continente. Os menores de idade africanos representam 90% da população infantil que nasce com HIV.
Embora o financiamento continue sendo um tema primordial, os especialistas estão preocupados com a falta de vontade política para cumprir a Declaração de Abuja, acordo assinado pelas nações da União Africana para destinar 15% de seus orçamentos à melhoria dos sistemas de saúde. Até agora, apenas seis países africanos cumpriram esse compromisso, segundo a Cepa. Graça afirmou que os problemas fundamentais para deter o vírus são sistêmicos. “Creio que precisamos mudar a ordem de prioridades. Precisamos resolver o problema do sistema de saúde”, disse.
Avertino Barreto, membro do Conselho da Cepa e atual subdiretor nacional de saúde em Moçambique, afirmou que, embora seu governo tenha adotado um programa de distribuição de antirretrovirais, não foi capaz desenvolver uma cadeia de fornecimento que ofereça os medicamentos aos que mais necessitam. “Moçambique tem uma cadeia de fornecimento ruim, e nosso orçamento para a saúde está longe de 15%”, admitiu Avertino. “Não há necessidade de as pessoas viajarem distâncias tão longas para tomar os remédios”, acrescentou.
As nações devem recordar que a luta contra a doença economizará dinheiro no longo prazo, destacou Peter Mugyenyi, especialista em HIV/aids e integrante do Conselho da Cepa. Combater a aids não é uma iniciativa “que gaste dinheiro, mas que economiza grande quantidade de recursos”, afirmou. Faltando apenas cinco anos para vencer o prazo dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, os progressos são modestos, disse Graça, mas afirmou que não há motivos para renunciar. “Não podemos prometer que faremos isso e dentro de cinco anos dizer que não conseguimos”, acrescentou.
Diante dos inadequados sistemas de saúde em muitos países africanos, a conselheira regional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre prevenção da transmissão de mãe para filho, Dorothy Mbori-Ngacha, considerou importante que as comunidades locais tenham um papel ativo, promovendo a posse de medicamentos. “Temos que nos associar com mães, pais e toda a comunidade. Quando um sistema de saúde não é efetivo, a comunidade é fundamental”, destacou.
Outro obstáculo para que as mães tomem os remédios é o estigma social, disse Peter. A educação e as comunidades são fundamentais para acabar com o estigma do HIV/aids, afirmou. “Um dos motivadores do estigma é o medo da morte. Quando as pessoas souberem que a taxa de falecimentos pode diminuir, diminuirá o estigma”, garantiu.
Outros importantes atores na luta contra o vírus são as organizações da sociedade civil, que abrem caminhos de acesso às comunidades, disse Dorothy. “Agora sabemos o que fazer para acabar com a aids pediátrica”, afirmou. “A menos que apoiemos a sociedade, vamos fracassar”, alertou. Para Peter, há uma razão para ser otimista: pela primeira vez na história, os últimos avanços em medicina preventiva tornam possível que uma futura geração fique livre do HIV/aids. “Antes não existia essa possibilidade”, concluiu. Envolverde/IPS

