Cidade do Cabo, África do Su, 24/09/2010 – Frances Mandla está visivelmente orgulhosa. Junto a sua colega Nouniform Nqevu, sorri diante de uma ampla camada de exuberante espinafre. A colheita é sua passagem para uma vida mais próspera, com possibilidade de comprar alimentos, roupas e pagar a escola dos filhos. Frances, de 61 anos, e Nqevy, de 63, participam de um projeto de renovação verde urbana, lançado em abril em sua comunidade Samora Machel, um distrito da localidade de Philippi, a 30 quilômetros da sul-africana Cidade do Cabo. O projeto é administrado pela organização não governamental Comunidades Verdes, e promove a renovação urbana por meio da criação de espaços verdes sustentáveis em setores de baixa renda. Embora, provavelmente, demore um ano para que o projeto alcance seu pleno potencial econômico, Frances, avó com três filhos sob seu encargo, disse que já se beneficiou do fato de ser membro do grupo. “Minha vida é muito mais fácil do que antes. Aprendi a trabalhar no jardim e agora também tenho minha própria horta nos fundos de casa. Minha família está comendo mais verdura”.
As mulheres, que além de cultivar fazem artesanato e reciclagem, garantem que, desde que começou o projeto, têm mais dinheiro no bolso no fim do mês. “Pela primeira vez, posso pagar a eletricidade. Antes não dava”, disse Nouniform. Sob o lema “um ambiente saudável, uma comunidade saudável”, a organização desenvolveu projetos que, assegura, trouxeram significativos benefícios tanto para o meio ambiente quanto para as comunidades, como mitigação da mudança climática, embelezamento de áreas, proteção da saúde pública, provisão de alimento e mais oportunidade de renda para os moradores.
“Acreditamos que o desenvolvimento social e o meio ambiente têm de estar lado a lado para serem efetivos. Os esforços sociais não são sustentáveis sem elementos ambientais”, disse a fundadora da organização Comunidades Verdes, Beth McKellar-Bassett. “Se ambos combinam, vemos um imediato impacto no bem-estar das pessoas”, bem como na segurança e na redução do crime, ressaltou. Os projetos em Samora Machel foram escolhidos pelos próprios membros da comunidade. A Comunidades Verdes realizou várias reuniões no começo deste ano, nas quais os moradores podiam discutir quais iniciativas levar adiante. “As duas coisas principais que as pessoas queriam era maior renda e segurança alimentar”, contou Beth.
A Comunidades Verdes e um grupo de 35 residentes iniciaram um projeto de agricultura urbana. Cultivaram verduras orgânicas, como espinafre, alface, cebola e beterraba em “túneis de vegetais”, uma pequena estufa portátil. A colheita é vendida em restaurantes da Cidade do Cabo dispostos a pagar bem. “Se os túneis de vegetais são bem administrados nos dão ganhos anuais entre 200 mil e 300 mil rands (US$ 26.500 e US$ 41.500)”, disse Beth. Uma parte será reinvestida no programa, enquanto o resto será compartilhado em partes iguais entre os membros do projeto.
A Comunidades Verdes também vai lançar um negócio de reciclagem e administração de lixo em Samora Machel, no qual os moradores poderão trocar vidro, plástico e papel por artigos gerais para casa e roupas. Além disso, a organização abrirá cursos de administração de lixo, de seis semanas de duração, para 60 pessoas, que vão trabalhar no Waste Plan, a maior empresa dedicada ao tratamento de lixo na província do Cabo Ocidental. A companhia prometeu dar emprego a todos que concluírem bem o curso. “Esperamos que isto sirva como pontapé inicial para gerar empregos na comunidade”, enfatizou Beth.
Para criar áreas verdes e melhorar a qualidade de vida dos habitantes, a organização também planta árvores e flora autóctone em escolas primárias e secundárias, bem como em centros para a infância de Samora Machel. Além disso, meninos e meninas aprendem a cultivar o Spekboom, nome em africâner da Portucalaria afra, árvore conhecida por sua enorme capacidade de armazenar carbono. A organização ajuda as comunidades a criarem parques, jardins e hortas, bem como a preparar adubo orgânico e criação de minhoca. Para que todos estes projetos sejam sustentáveis, a Comunidades Verdes trabalha em estreita cooperação com vários departamentos municipais.
Cindy Jacobs, gerente de programas de renda sustentável e áreas verdes do Departamento de Administração de Recursos Ambientais da Cidade do Cabo, disse que as associações são fundamentais para que as iniciativas se concretizem. “Trata-se de fazer as coisas de maneira diferente, de trabalhar junto, não isoladamente”, afirmou. O departamento ajuda no projeto de Samora Machel, principalmente com educação ambiental para estudantes e grupos comunitários. “Instruindo os residentes sobre biodiversidade, água, lixo e energia, fazemos funcionar. Eles compreendem a importância dos temas ambientais e estão dispostos a se envolver”, disse Cindy. Envolverde/IPS

