A esperança fica adiada para a próxima semeadura

Karachi, Paquistão, 24/09/2010 – “O Rio Indo nos mostrou a quem pertence este país: precisamente ao Indo”, disse o economista Haris Gazdar, se referindo ao dilúvio que devastou o Paquistão. “Devemos respeitar os rios e não tratá-los com o desprezo que mostramos para tudo o mais”, acrescentou. O poderoso Indo, cujo trajeto de 3.180 quilômetros atravessa o país para desembocar no Mar Arábico, tem sido vital para o Paquistão durante séculos. Nos últimos meses também destruiu hectare após hectare de cultivos de arroz, algodão e trigo, e arrasou gado e forragem, sementes, fertilizantes e implementos agrícolas. As inundações mataram 1.800 pessoas e afetaram outros 20 milhões neste país da Ásia meridional. Cerca de dois terços dos mais de 184 milhões de paquistaneses trabalham na agricultura, e 70% dos afetados pelas inundações que começaram dia 12 de julho dependem da mesma como meio de sustento, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Um total de 1,61 milhões de hectares de terra agrícola com cultivos em pé foram prejudicados pelas inundações, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). De acordo com a Associação de Limpadores de Algodão do país, apenas a perda dos algodoeiros é estimada em US$ 875,5 milhões.

O primeiro-ministro Syed Yusuf Raza Gilani disse, no começo deste mês, em uma reunião do gabinete, que o país sofreu prejuízos de entre US$ 4 bilhões e US$ 6 bilhões, que afetaram infraestrutura, pecuária e agricultura. A economia paquistanesa aumentou 4,1% em 2009, mas não cumprirá com o objetivo de crescimento, este ano, de 4,5% do PIB. É provável que esse crescimento caia para 2,5% no ano fiscal 2010-2011.

Em meio a esse sombrio panorama, Amir Muhammed, fundador e ex-presidente do Conselho de Pesquisas Agrícolas do Paquistão, vê uma luz no fim do túnel. “Deveria ser feito pleno uso da abundante umidade do solo e das represas cheias para o próximo cultivo”, disse. Também afirmou que será possível plantar a tempo para os cultivos de inverno. Por exemplo, a semeadura de trigo é em outubro-novembro para a província de Sindh, e em novembro-dezembro em Punjab e Khyber Pakhtunkhwa (ex-Província da Fronteira Noroeste).

O que no final de julho começou como uma chuva de monção mais forte do que o habitual inundou um quinto do território paquistanês no prazo de um mês. Estradas, pontes, sistemas de irrigação e redes de eletricidade estão totalmente destruídas ou muito prejudicadas, e levará muito tempo e investimento para reconstruí-las. Neste contexto, Amir sugere que o país deveria se esforçar ao máximo para melhorar a produtividade agrícola porque tem “um potencial considerável e uma comunidade agrícola informada”.

Por exemplo, embora tenham sido inundados 91 hectares de terra agrícola que Shahzad Hussaini possui no distrito de Thatta, em Sindh, e perdido 71 animais, este paquistanês de 32 anos acredita que as inundações são uma benção. Thatta é um dos distritos mais afetados dessa província. Mas aqueles que como Shahzad procedem do delta do Indo, sabem muito bem que a água das inundações também permite que a terra se recupere.

A água “ficará parada e os mangues florescerão, bem como os peixes e camarões”, afirmou. E o melhor é que a água salgada subterrânea voltará a ser doce, permanecendo pelos próximos oito anos, acrescentou o agricultor. “Nosso próximo cultivo nos dará 20% a mais de rendimento por causa do lodo depositado durante as inundações e pela umidade do solo”, explicou Shahzad, que preside a Câmara Agrícola de Sindh.

Na medida em que a água começar a ceder e surgir um panorama mais preciso sobre os danos, os planos de reabilitação começarão. Funcionários do governo prometeram apoiar os refugiados e a reconstrução de suas casas. Segundo Haris, será um momento oportuno para utilizar o Programa Benazir de Apoio à Renda, um plano de subsídios de US$ 450 milhões para os afetados pelas inundações. “Embora em algumas áreas o próximo cultivo possa oferecer oportunidades de trabalho, em outras não será possível durante oito ou 12 meses, e o governo terá de intervir”, afirmou.

Em um artigo publicado no jornal Dawn, editado em inglês, Ishrat Hussain, ex-dirigente do Banco Estatal do Paquistão, disse que dinheiro vivo, microcréditos, sementes, fertilizantes, gado e material de construção podem ser obtidos não apenas pelo programa Benazir, mas também da verba que está à disposição dos parlamentares e do Fundo de Alívio da Pobreza, entre outros.

Embora a devastação afete a paisagem, segundo Amir, deveria ser possível produzir um cultivo extra, se houver a tempo sementes de boa qualidade, fertilizante barato e diesel para máquinas agrícolas, mediante crédito aos agricultores. Centrar todos os esforços no próximo cultivo dará um grande impulso à economia, já que a “agricultura é nossa principal esperança no curto e médio prazos”, explicou.

Além disso, disse que, como a maior parte da forragem foi arrasada pelas águas, é muito importante que chegue rapidamente às áreas afetadas para salvar o gado que sobreviveu. O Ministério da Pecuária e Produção Láctea estima que as inundações causaram a perda de 1,2 milhão de cabeças de gado e seis milhões de aves em todo o país. Envolverde/IPS

Zofeen Ebrahim

Zofeen Ebrahim is a Karachi-based journalist who has been working independently since 2001, contributing to English dailies, including Dawn and The News, and current affairs monthly magazines, including Herald and Newsline, as well as the online paper Dawn.com. In between, Zofeen consults for various NGOs and INGOs. Prior to working as a freelance journalist, Zofeen worked for Pakistan’s widely circulated English daily, Dawn, as a feature writer. In all, Zofeen’s journalism career spans over 24 years and she has been commended nationwide and internationally for her work.

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